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Cocó na fralda

Cocó na Fralda

Peripécias, pilhérias e parvoíces de meia dúzia de alminhas (e um cão).

Querem ajudar?

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Foto: Adriano Miranda (Público) 

 

Como sabem, o concelho de Santa Comba Dão foi muito fustigado pelos incêndios do passado domingo.

A creche e jardim de infância Tutor T, do Parque das Nações, está a organizar uma recolha para ajudar as muitas pessoas da freguesia que ficaram sem nada.

Assim, são muito bem-vindos os seguintes artigos:

- Roupa de criança

- Enlatados

- Artigos de higine (gel de banho, escovas/pastas de dentes, desodorizante, champô, etc)

- Fraldas

- Cobertores

 

Podem deixar as vossas generosas contribuições na própria escola (R. Musas 3.06.03, Parque das Nações) até esta sexta-feira, dia 20.

Muito, muito obrigada.

 

O que fazer quando tudo arde?

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Foto: Hélio Madeiras (bombeiro)

 

Sempre que uma calamidade como esta acontece, tento não embarcar naqueles julgamentos rápidos e naquelas histerias propulsionadas pelas redes sociais onde desfilam frases como "demitam-se", "caia o governo", "era metê-los lá a todos", "se fosse com a família deles é que eu queria ver", "deviam era morrer todos queimados", "a culpa é desta corja", entre outros.

Não o faço por ser particularmente boa pessoa, por ter caído num pote de sensatez, ou por estar a concorrer para santa, mas porque acho sempre que há um tempo para tudo, e porque me incomodam estas frases feitas, este populismo demagógico e alucinado. É fácil criticar, apontar o dedo, vociferar impropérios. Mas, quando se vê o que eu vi durante mais de 500km, que foi incêndios a cada 5 km (mais coisa menos coisa), percebe-se que, no passado domingo, não havia dispositivo capaz de fazer frente à monstruosidade do que aconteceu. Não havia mesmo. 

Mas...

Ao mesmo tempo que procuro não ser arrastada por esta onda de ódio crescente (e compreensível, dado o horror a que assistimos, quatro meses depois de Pedrógão), leio comentadores, analistas, oiço quem está mais informado que eu. Quem teve acesso a dossiers, a relatórios, a dados concretos. E ontem (só ontem) percebi que ninguém achou esperto ter prolongado a fase Charlie por mais um tempo, uma vez que o verão decidiu prolongar-se até agora. Ou seja: cumpriu-se o calendário e fecharam-se os 236 postos de vigia de incêndios com 944 operacionais. Também cumprindo o calendário, dispensaram-se milhares de bombeiros, autotanques e meios aéreos. Apesar dos avisos do IPMA. 

Mais. Paulo Fernandes, um dos 12 peritos que participou na elaboração do relatório sobre Pedrógão Grande (da Comissão Técnica Independente), disse ao Expresso que a faixa ocidental de Portugal mostrava riscos de incêndio muito elevados, num “contexto metereológico mais grave do que o de Pedrógão Grande".

Também não fica claro o que raio foi feito desde Pedrógão. Passaram quatro meses, que foram meses de muito calor, e fica a sensação de que nada se fez. É verdade que as reformas de fundo da floresta não podiam ter sido feitas, é verdade que há medidas que levarão muito tempo a serem implementadas mas... nada? E o SIRESP? Porventura foi melhorado? É que só oiço relatos das falhas de comunicações. Aldeias e povoações inteiras isoladas do mundo, a serem consumidas pelas chamas, sem ninguém que lhes pudesse valer. Eu, no meio da A1, estive várias vezes sem rede. Por várias vezes tentei ligar e o telefone pura e simplesmente não dava nada. O que seria no meio do caos?

 

Outra coisa. 

Quando estava na A1, numa fila de trânsito imensa, sabendo que a saída para Lisboa estava cortada e que estavam a encaminhar os carros para a A25, senti um pânicozinho a invadir-me. Relembro que havia um intenso cheiro a fumo, que havia um céu negro à nossa frente, carros de bombeiros por todo o lado, sirenes a toda a hora. E houve ali um momento em que eu pensei: "Tu queres ver que nos vão deixar morrer aqui?" Depois, respirei fundo, dei uma chapada mental a mim própria e respondi: "És parva? Então mas agora iam deixar morrer as pessoas na A1??? Uma das principais vias do país?" Acalmei-me com este pensamento. E depois segui para a A25, que depois se transforma em A17.

 

E é aqui que a porca torce o rabo (mais uma vez).

É que, quando cheguei a certa parte da A17, vejo as labaredas mesmo ao meu lado, a chegarem à estrada. Os bombeiros andavam por lá, mas aquilo estava a ficar muito feio. Eram labaredas enormes, que impunham respeito, e quando o Ricardo ligou para saber como estava, eu disse "vão cortar a A17 em minutos, de certeza! Isto está a ficar muito feio, passei na hora certa!"

Mal sabia eu que... não. A A17 viria a ser cortada, sim, mas muuuuito tempo depois. Um amigo meu, João Pico, que passou uma hora depois de mim, fez um vídeo que se tornou viral. Quando ele passou, a A17 estava assim:

 

Como? Como é que se deixam passar carros numa autoestrada que está neste estado??? Como??

Eu, que tinha lá passado uma hora antes e que disse que a iam cortar em minutos, não consigo perceber como é que, uma hora depois ainda não a tinham cortado e como é que deixaram que estas pessoas passassem com a autoestrada neste estado. Afinal, quando temi pela vida na A1 não estava a ser idiota. Sim, eles podiam mesmo ter-nos deixado ali morrer. Numa autoestrada. Porque a descoordenação era total. 

Ao ver este vídeo - e já o vi dezenas de vezes - penso: se eu tivesse demorado um pouco mais na minha entrevista em Vouzela, se eu tivesse ficado um pouco mais na estação de serviço de Estarreja, eu ia apanhar este inferno. E, sinceramente, não sei se teria tido o sangue frio de seguir em frente. Teria? Ou ficaria de tal modo em pânico, sem saber o que aí vinha, que parava o carro e tentava fugir a pé, para trás? Se o fizesse, morreria de certeza (as temperaturas altíssimas e o cheiro a fumo não deviam dar-me escapatória). Ou faria uma tresloucada inversão de marcha, seguindo em contramão, como aquela grávida que acabou por perder a vida, quando foi em contramão na autoestrada para fugir de um cenário semelhante e embateu de frente num outro carro? O que faria eu, se tivesse passado por este inferno, uma hora depois da hora a que passei? E se um pneu rebentasse, com o calor? De cada vez que vejo e de cada vez que penso, a mesma angústia. 

As pessoas que passaram pela A17 a esta hora, tiveram muita sorte. Por acaso ninguém se atrapalhou e deixou o carro ir abaixo, por acaso ninguém parou, causando um acidente, por acaso nenhum pneu explodiu. Porque se alguma destas coisas tem acontecido (ou uma sequência delas), a A17 era hoje a N236 de Pedrógão (tristemente conhecida como Estrada da Morte).

Assim, e depois de ver o discurso de António Costa, tenho alguma dificuldade em acreditar que isto não volte a acontecer (aliás, é ele mesmo quem diz que sim, pode voltar a acontecer). Amanhã, daqui a 15 dias, para o ano. E é inquietante - sendo eufemística - perceber que não há quem nos proteja, nem quem se responsabilize por coisa alguma. Nem sequer quem faça um simples (mas reconfortante) pedido de desculpa por tudo isto. 

 

Sobre o pudor

O secretário de Estado da Administração Interna, Jorge Gomes, disse esta bonita frase: “As comunidades têm de ser proativas”, ao invés de ficarem à espera do socorro dos “nossos bombeiros e aviões”, disse Jorge Gomes.

É isso. As pessoas estão ali sentadas nas espreguiçadeiras, todas relaxadas, à espera que venham os bombeiros e os aviões. As malandras das pessoas, encantadas com as chamas, tão preguiçosas.

 

Eu tenho uma coisa para dizer ao senhor Secretário de Estado: tenha vergonha e, se não tem nada para dizer, por favor não diga alarvidades.

Um país a arder

No sábado de manhã despedi-me da minha malta e meti-me a caminho de Lamego, onde fui participar numas Tertúlias de Anestesiologia. Aproveitei para almoçar em Aveiro com a minha irmã, cunhado e sobrinhos, matando uma pequena parte das muitas saudades que tenho deles.

A conferência correu bem, era um bocado terreno ingrato porque a esmagadora da plateia estava contra a presença dos pais nas cesarianas. No palco, três prós e três contras. Eu, claro, estava nos prós. Consegui não me enervar, nunca levantei a voz, mesmo quando alguns médicos falavam do assunto com ar de gozo, como se a presença do pai não passasse de uma excentricidade de mulheres dadas a devaneios. Em quase toda a Europa civilizada isto nem é uma questão, o pai entra e acabou-se, mas aqui ainda temos um caminho a percorrer. 

No domingo, depois de tomar o pequeno-almoço e de fazer o check-out, fui em direcção a Trancoso, onde tinha uma entrevista muito interessante que em breve vou partilhar aqui convosco. Fiz o caminho pelo Douro, maravilhoso, andei pelas estradas serpenteantes e belíssimas do país, sempre debaixo de um fumo e de um cheiro a fogo que me puseram em alerta. Cheguei a Trancoso ao meio dia e era quase de noite, tal era a escuridão do céu. Algo estava mesmo muito errado.

Depois da entrevista, almocei, dei uma volta por ali (é a terra do meu pai e aproveitei para um momento de nostalgia, a que dificilmente resisto), e segui para a entrevista seguinte, em Vermilhas, Vouzela. O caminho foi feito sempre a ver fogos. Fumo, labaredas. Não estava a acreditar. Só me meti por aquelas estradinhas porque percebi que o fogo ainda estava do lado contrário da serra. Quando cheguei, os meus entrevistados estavam em cuidados, a ver o fumo. Havia cinza por todo o lado e eles só diziam que, se o vento virasse, ia arder tudo. O sítio, de uma beleza ímpar, doía de tão ameaçadoramente cinzento.

No final da entrevista, pus-me a caminho. 

A certa altura, quando entrei na Auto-estrada, estava um senhor nas portagens a explicar que a A1 para Lisboa estava cortada. Engoli em seco. Mandaram-me ir em frente, sair em Estarreja e voltar para trás, para seguir pela A25, rumo a Aveiro. Foi o que fiz. Porém, quando estava a caminho de Estarreja, vi uma fila gigante no sentido contrário. Ainda ponderei ir até ao Porto e ficar lá a dormir, mas estava enervada e apetecia-me ir para casa. Assim, dei a volta, parei na estação de serviço para ir à casa de banho, para comprar água, um sumo de laranja natural e umas uvas.

Meti-me no carro e... a fila tinha aumentado ainda mais. Quilómetros de fila. O céu completamente preto. Cinza a chover por todo o lado. Um cheiro a fumo quase intolerável. Carros de bombeiros a passar incessantemente. Numa das vezes, contei uma coluna de 8 autotanques. Nos carros ao lado, expressões preocupadas. E eu ali. A rede a falhar. E juro que me começou a faltar o ar. Tu queres ver que morremos aqui também? Depois, procurei acalmar-me. Caramba, se deixarem morrer todas estas pessoas na A1, a coisa é o descalabro. Iniciei conversas com dois grupos diferentes no WhatsApp, para desabafar e não me deixar ficar ali sozinha, entregue ao meu pânico crescente. 

Quando finalmente consegui virar para a A25, e acalmei. O trânsito fluía e já não sentia aquela prisão claustrofóbica. O pior foi que durante TODO o caminho, mas mesmo TODO, fui vendo incêndios. À esquerda, à direita, perto da estrada, longe da estrada. Em alguns locais, via-se perfeitamente as chamas já encostadas às casas. Diria que a cada 5, 10km havia um novo incêndio. Uma coisa inacreditável. Percebi claramente que seria impossível combatê-los a todos. Impossível. Nem que todos os bombeiros de Portugal fossem destacados. Provavelmente, nem mesmo com ajuda internacional. Impressionante. Conduzia, passava um incêndio, e daí a nada... outro. Já na A17, o incêndio estava mesmo ao meu lado, a chegar à estrada. Logo a seguir, cerca de uma hora depois, um amigo passou por lá e filmou as chamas de um lado e do outro da autoestrada. Aterrador. 

Confesso-vos que não consegui evitar as lágrimas. Aquela gente... toda aquela gente. Pensava no casal que entrevistei (e de quem não tenho ainda notícias), e em todas as pessoas a perderem as suas coisas, a perderem as suas vidas.

Ao mesmo tempo, ia ouvindo a rádio. E lá estava: já era considerado o pior dia do ano em termos de incêndios. Chegaram a estar activos 523 fogos.

Fui tirando algumas fotografias, porque senti que estava a testemunhar algo único e trágico. 

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Fiz mais de 500 km e vi incêndios durante todo o caminho. Até chegar a Lisboa, praticamente, porque os últimos foram em Óbidos, Ericeira, Mafra.

Nunca mais vou esquecer o que vi. A sensação que tive foi que estava tudo a arder. Tudo. 

Cheguei a casa, o Ricardo estava à minha espera, e ficou impressionado com o cheiro a fumo que o carro tinha, e com a cinza por todo o lado. 

Hoje já vamos em 29 mortos. Não me surpreende. Do que vi ontem, não me surpreende mesmo nada.

Até quando vamos ter de ficar nesta impotência? Como se resolve esta calamidade? Quantas mais pessoas têm que morrer?

Sinto-me esmagada com isto, palavra de honra. 

A minha mais profunda solidariedade para com as pessoas que passaram e estão a passar por isto. O meu mais profundo respeito pelos bombeiros, que combatem um monstro tão desigual.

Amanhã

Vou para Lamego, participar numa conferência de anestesistas (depois explico). Passo por Aveiro. E depois, no domingo, dou um salto a Viseu e a Trancoso, para duas entrevistas.

Vou sozinha, a minha malta fica toda por cá.

Coco's back on track. 🚙🚙🚙🚙

A Obesidade Infantil ensina às crianças coisas que elas nunca deveriam saber

A Lusíadas Saúde acaba de lançar uma plataforma dedicada à obesidade infantil – em www.rotasaude.lusiadas.pt - focada na informação para combate e prevenção a esta epidemia. Com o mote “A obesidade infantil ensina às crianças coisas que elas nunca deveriam saber”, este lançamento foi acompanhado de um vídeo que conta com crianças a falar sobre possíveis patologias associadas à obesidade.

E o vídeo está muito bem feito e devia pôr-nos todos a pensar nisto. Até porque em Portugal, cerca de 1/3 das crianças têm excesso de peso e 17% sofrem de obesidade. Números realmente alarmantes.

 

 

Casas onde a cocó não se importava de morar #92

Há dias em que me apetece mudar de casa para o centro da cidade, mesmo para o meio do bulício, outros dias em que fico cheia de vontade de ir para o sossego de uma zona mais tranquila, no meio das árvores e dos passarinhos. 

Esta casinha é um T4 com 208 m2, na Aroeira (a 20km de Lisboa), e está inserida num lote de 1.028m2. Um quarto com 17m2, outro de 15m2, uma suite de 22m2, outra suite com 20m2, a sala mede 39m2, a outra 15m2, a cozinha 17m2. A cave mede 40m2.

O meu filho Manel, que vai de metro para todo o lado com os amigos, matava-me, claro, mas enquanto não matasse eu usufruía desta maravilha.

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