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Cocó na fralda

Cocó na Fralda

Peripécias, pilhérias e parvoíces de meia dúzia de alminhas (e um cão).

Os enfermeiros

A minha sogra ia hoje fazer um pequeno procedimento cirúrgico e voltou para casa, por causa da greve dos enfermeiros. Por muito aborrecido que seja (e é), estou muito solidária com a luta dos enfermeiros. Acho que é uma classe muito negligenciada e, no que toca à saúde, se não fossem eles estávamos bem arranjados. Lastimo profundamente que quem cuida dos que estão doentes, sejam médicos ou enfermeiros, não tenha um pagamento e condições à altura. São pessoas que, regra geral, se entregam de corpo e alma à sua profissão, que a vêem como uma missão, descurando por vezes até a família e os horários de vida para lá do hospital por amor à camisola. 

Vale a pena ler ESTE testemunho. Se não tiverem tempo para ler tudo (que o texto ainda é grande), deixo este excerto, que diz muito sobre o que é um enfermeiro e a razão pela qual todos eles deveriam ser bem tratados:

"Fiquei sozinha com a roupa do menino nas mãos, eram tão pequeninas e cheias de sonhos. Debruço-me no balcão e debato-me intimamente com Deus e a vontade carnívora de não voltar no dia seguinte. O miúdo faleceu uma hora depois de extenuantes esforços e eu chorei compulsivamente no carro até casa. O apelo gritado daquela mãe regelou-me até à medula. Já tinha sido enfermeira de cabeceira do ladrão de loja baleado pela polícia, do assassino da esposa esfaqueado pelo filho e até de um violador de ambas as filhas menores com toda a conduta que a ética e a deontologia profissional exigiam, num equilíbrio muito complexo do que verdadeiramente queria e do que tinha de fazer. Tinha já sobrevivido a provas de fogo mas nada tão visceral quanto aquela morte.

Há seis Natais que ali estou todos os dias desde que jurei o "nunca mais". Continuo sem saber porquê.

Há dias em que salvamos pais e filhos e vencemos Adamastores. Cantamos para minimizar a dor, desenhamos caretas nos adesivos e testamos o músculo dos super-heróis quando avaliamos as tensões arteriais. Permitimos beijos adolescentes antes de uma cirurgia porque não sabemos se é o último. Conversamos angústias e guardamos confissões. Embalamos, seguramos e protegemos. Ajudamos os pais a tornarem-se pais. Tocamos diariamente vidas que tocam as nossas também. Somos a diferença.

Levantei-me porque estou cansada de estar vergada Sr. Ministro. Estou exausta de falsas promessas que nunca chegam. Não pretendo ganhar como um médico e muito menos ser comparável, nem que eles usurpem as minhas preciosas funções junto de quem mais precisa. Se todos desempenhássemos os mesmos papeis não existira necessidade de coexistirem duas profissões tão distintas. Quero que me permita continuar a ser enfermeira com o respeito que mereço e não sinto, que quem emigrou deseje regressar e que quem se licencie tenha esperança em ser acolhido pelo país que quer servir. Não vou permitir que deixe morrer as histórias que vivem em mim, que ampute a progressão das mãos que profissionalizam o cuidar e que desrespeite o conhecimento que figura na minha estante. Não vou!

Levantei-me para dizer BASTA.

E comigo, somos 70.000."

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