Ser cromo, por Nuno Markl
Nada mais a acrescentar.
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Nada mais a acrescentar.
Ao ver as crescentes medidas de segurança, para ver se controlamos a escalada do vírus manhoso que deu em nascer para nos limpar o sarampo, penso que muito do resultado de tudo isto depende da consciência de cada um. Isto é: ok, as escolas fecham. Os pais ficam com as crianças. E... ficarão em casa? Ou irão passear para os centros comerciais? Ficarão todos fechados a enloquecer-se mutuamente, a bem do país e do mundo, ou irão para parques infantis, abertos ou fechados, não interessa, desde que os putos possam desgastar um pouco as energias e eles - os pais - descansarem a mioleira? Eu sei que ainda ontem falava da minha vontade em aproveitar os preços baixos com que Itália deve estar e levar lá os meus filhos, mas... não fui, certo? (aliás, agora o difícil é mesmo ir...) Era só uma ideia, porque aprecio pechinchas, mas como também aprecio a minha família, sobretudo os mais velhos e susceptíveis de quinar com isto, não iria de facto concretizá-la (suspiro longo e triste). Agora, não sei bem, se querem que vos diga, se acredito que tooooooda a gente vá ficar 14 dias (ou mais) fechada em casa com os filhos, não aproveitando as "férias" forçadas para passeios a locais públicos bem catitas.
Posto isto, e dada a fraca fé que tenho na generalidade da Humanidade, ocorre-me isto:
Não sei se é da nova febre do momento, o Coronavírus, não sei se é porque de tanto ouvirmos falar nos sírios (e afegãos e etc) na sua fuga para onde tenham paz parece já nos ser indiferente, não sei se é porque é longe e longe da vista, longe do coração. Não sei porque é mas sei que tenho visto pouca relevância dada à emergência humanitária que se vive no campo de refugiados de Moria, na ilha de Lesbos, na Grécia.
No campo de Moria, com capacidade para albergar 3 100 requerentes de asilo, vivem neste momento mais de 20 000 pessoas. Destas, mais de metade são famílias e há 1 049 menores desacompanhados.
As condições e recursos de um campo construído para 3 100 pessoas são descritas pelas organizações não governamentais presentes no terreno e pelos próprios residentes como insuficientes e inexistentes: falta de água quente e limpa; falhas de eletricidade; más condições sanitárias e escassos cuidados de saúde. Entre os testemunhos dos voluntários portugueses, destacamos:
— Há uma casa de banho para cada 300 pessoas.
— Os residentes esperam 3 horas por cada refeição.
— Nos últimos 2 meses morreram 5 pessoas (1 criança de 19 meses por desidratação, 2 mulheres num incêndio dentro dos contentores onde viviam, 1 bebé atropelado enquanto brincava e 1 menor desacompanhado esfaqueado).
— 20 crianças automutilaram-se e 2 tentaram o suicídio.
Um grupo de 238 voluntários portugueses escreveram uma carta dirigida às autoridades portuguesas a relembrar (porque parece que está tudo meio a assobiar para o ar) a situação de emergência que se vive ali, e com um apelo a medidas políticas concretas.
Sendo este um movimento que pertence à sociedade civil, TODOS podem associar-se, subscrever e enviar a carta aqui:
http://www.eapenasumpoucotarde.eu/
Para o fazerem só têm de:
1 - clicar no site
2- clicar onde diz "Como participar?"
3 - Copiar os destinatários e copiá-los para o sítio onde colocam os destinatários, no vosso email
4- Copiar a carta e colá-la no vosso corpo de email
5 - Enviar

É amanhã, dia 6 de Março, a partir das 19:30, o Clube de Leitura de Lisboa.
Como sempre, no Brown's Hotel, em Lisboa (baixa lisboeta - Rua da Assunção, 75).

Na próxima semana (sexta-feira, 13) o encontro é no Porto, no Vila Galé Porto, às 19h (Av. Fernão de Magalhães 7).

O Clube de Leitura tem o apoio da MultiOpticas, que cuida tão bem dos olhos de quem lê, e dá valor à leitura.
Não há livro único. Não é preciso marcar. Basta aparecer. Quem nunca veio é muito bem-vindo. Quem vem sempre é muito desejado. Quem vem quando pode é igualmente esperado. Até lá! ![]()
Acordei no recobro do Hospital St Louis, mas desse espaço só recordo o teto. As luzes no teto. E a dor. Lembro-me de abrir os olhos, naquele pestanejar lento de quem está a despertar de um sono fundo que não é o normal, e de procurar nos arquivos da minha memória a palavra certa para pronunciar em voz alta. Levei mais tempo do que seria costume, porque toda a gente sabe que não se abrem gavetas com facilidade quando se está ensonado (e sob o efeito de drogas), mas finalmente descobri o vocábulo que me faltava. E comecei então a repeti-lo numa cadência de quem não pretendia desistir:
- Dor! Dor! Dor! Dor! Dor! Dor!
Parecia que tinha obnubilado todas as palavras do dicionário, agarrando-me àquela que, subitamente, encontrei como a mais relevante para que me pudessem ajudar.
Veio alguém depressa, e creio que voltei a apagar, não sem antes agradecer mentalmente o tubo de ar quente que senti aos pés da cama, aquecendo-me quando tremia tanto, tanto (tantoooo) de frio. Não sei se foi nessa altura que dei conta de que tinha as pernas enfiadas em duas mangas (talvez devesse antes chamar-lhes perneiras) enormes que, de segundos em segundos insuflavam, apertando-as, para logo de seguida desinsuflarem, libertando-as (forma de estimular a circulação e evitar a formação de trombos), mas é possível que só tenha dado conta disso mais tarde.
Daí a pouco alguém veio informar-me que íamos subir para o quarto. Lembro-me da enfermeira ou auxiliar se debruçar para mim e dizer: "Vamos lá, que o seu marido já está à sua espera no quarto. Quer dizer, ele está há horas aqui à porta, parece um cãozinho abandonado, de maneira que vai gostar de a ver." Sorri. O meu querido. Só eu sei como ele tinha estado nas semanas anteriores. Só eu podia supor como ele estaria naquele momento.
Quando a cama andou, vi as luzes do teto passarem, uma atrás da outra, e depois uma porta a abrir-se e depois o Ricardo. Sorriso enorme, de ambos, que dizia tudo: sobrevivi, caraças. Sobreviveste, caraças. A primeira parte já está.
Ele fez o seu caminho e chegou ao quarto primeiro do que eu. Quando lá cheguei, vi-o a ele e à minha querida amiga Inês Queiroz. Acho que ainda protestei por ela estar ali àquela hora (sabia lá eu as horas), empatando a sua vida, mas todas as memórias que tenho desse período são realmente fugazes, uma espécie de flashes intermitentes de consciência. Recordo-me do Ricardo a contar-me qualquer coisa que eu queria mesmo ouvir e de o ver rir-se quando comecei a fechar os olhos. "Eu quero ouvir-te, juro que quero, mas está mesmo difícil."
Dormi o resto do dia, excepto quando vinham dar medicação (se bem que o estado em que ficava quando falavam comigo não era bem o de acordada, era mais uma espécie de limbo atordoado), dormi toda a noite. Sem dores. Às 5 da manhã acordei. Aflita para fazer xixi. Oh diabo. Se estou algaliada, por que raio sinto vontade de fazer xixi? E aí entra a minha mente hipocondríaca em acção: "Na volta isto é o saco que está cheio e o xixi está a voltar para trás, para os rins. E agora? Se o xixi volta para os rins isto pode dar aqui um embróglio do caraças, e a verdade é que eu quando estou bem me levanto 2 e 3 vezes por noite para ir à casa de banho, por isso eles se calhar não previram isto e agora o saco está cheio e..." A insanidade a crescer. Eu a transpirar, num início de desmaio. Silêncio total nos corredores. "E agora vou acordar estas desgraçadas, que estão a dormir, apenas porque sou uma anormal e estou a imaginar coisas? Vou aguentar". E aguentei. Uns 10 minutos. Depois, enchi o peito de ar (talvez não tenha enchido porque custa um bocadinho encher o peito de ar quando se teve a pele da barriga toda cortada e repuxada), e toquei por fim à campainha.
Veio uma auxiliar. Expliquei a minha inquietação. Ela olhou o saco e admitiu que já estava a ficar cheio, porém ainda não no limite. Entretanto, veio a enfermeira, para fazermos o levante (palavra usada para designar o momento em que nos levantamos da cama pela primeira vez). Viu-me a abanar-me (eu estava a ter um fanico vagal pelo tempo que estive a inventar cenários na minha cabeça) e perguntou o que tinha. Eu não disse nada e tentei cumprir as ordens: sentar primeiro. Esperar um pouco. Pôr de pé. Só que o filme que eu tinha feito na minha cabeça ainda estava a fazer o seu efeito, e eu comecei a ver tudo a andar à roda. Sentei-me. A enfermeira não percebeu: "então?"
-Ah, não me sinto muito bem. Acho que estou a ter um desmaio. Se me puder dar um bocadinho de sumo...
- Não se sente bem?
- É uma reacção vagal.
- Humm. Vagal? (geralmente - com todos os perigos decorrentes das generalizações - o pessoal da saúde não aprecia lá muito que o doente se refira a sintomas com termos técnicos. Não lhes podemos levar a mal, eles estudaram a porra de uma vida inteira, quem raio nos julgamos nós para virmos agora empregar a terminologia que é deles por direito e mérito?) Vamos medir a tensão. A senhora está toda a transpirar. Tem calor?
- Não. Tive um fanico (eu a regressar rapidamente ao vocábulo leigo, a ver se a nossa relação se recompunha), mas aposto que melhora se me der um bocadinho de sumo.
- A cozinha está fechada, não sei se encontro sumo para lhe dar.
- Encontra. Está ali na minha mesa de cabeceira, que eu há pouco não o bebi.
- Mas é diabética?
(eu só queria mesmo que ela se calasse, mas sempre que não lhe respondia ela tornava a atirar-me uma pergunta)
- Não. Já lhe explico.
Bebi o sumo. Abanei-me mais um pouco. Comecei a sentir que a normalidade regressava. E então expliquei:
- Sou hiponcondríaca. Estava aqui há um bom tempo a sentir vontade de fazer xixi e achei estranho, porque geralmente, com a algália, não se chega a sentir vontade. Vai daí e comecei a traçar um cenário maluco que metia danificação de rins, hemodiálise, e eu sei lá. Depois, logo a seguir veio a senhora enfermeira para me levantar. Cheia de drenos e costuras e o raio. E a minha cabeça sempre gráfica. E pronto. Senti-me desmaiar. E sei que se deixar passar um pouco e se comer algo doce, a coisa repõe-se. Foi isto.
- Ah, isso são ataques de pânico. Devia ir ao médico porque isso pode dar-lhe a conduzir.
- A menos que esteja algaliada, com soro nas veias, ou a barriga recém aberta... acho que isto não me dá a conduzir.
Foi um momento meio sinistro mas compreensível. A enfermeira tinha de se assegurar de que eu não estava a ter outra porra qualquer (tipo uma trombose, ou coisa que o valha) e felizmente nem sequer aventei essa hipótese no momento, caso contrário podia ter fanicado outra vez.
Mais tarde, tiraram-me a algália, que é sempre aquele momento em que uma pessoa pensa que talvez a vida pudesse terminar logo ali (depois, na prática, não custa assim tanto, mas quando se tem uma cabeça muito visual e pessimista tudo vira coisa complexa), e fiz o primeiro levante, com dois ou três passos e regresso à cama e às perneiras que incham e desincham sem parar.
De manhã, apareceu um anjo. O enfermeiro Victor Santos. Percebi logo que era excepcional quando entrou pelo quarto adentro, com um enorme sorriso, e atirou esta pérola:
- Então???? Que tal esta noite louca aqui no Bairro Alto, hum?? Boa?
Ri-me muito, o que foi agridoce, porque rir com uma costura na barriga de uma anca à outra é um pequeno suplício. Fizemos o levante com muita calma, eu e os meus 5 drenos, que mais não são que tubos que saem de pontos vários da carne e terminam numas bolsas de plástico (parecidas, na forma, com granadas de mão) para onde os líquidos excedentes são enviados. Dei os primeiros passos, à rasquinha, e daí a pouco fui à casa de banho e tudo na maior (tirando alguns detalhes sanguinários a que vos poupo). Mas dores, sinceramente, poucas. Tudo muito aliviado por doses cavalares de drogas nas veias, benza-as a santa Medicina.
O meu marido chegou pouco depois, tão aliviado por me encontrar já pessoa falante, ainda meio baralhada das ideias (bom, isso também já é algo costumeiro), mas sobretudo viva. Eu vi-o entrar como quem vê entrar o sol, perdoem-me a pirosice, mas foi mesmo, que isto de uma pessoa ter tanto medo de quinar faz com que a vida e aquilo que é realmente importante ganhe uma força do catatau (como diria o meu saudoso Pedro).
O enfermeiro Victor tentou ensinar o Ricardo a despejar os drenos, para o fazer em casa, mas ele começou a recuar até ao sofá, onde se depositou com estrondo, levando-me a pensar que tinha caído para o lado. Afinal não, mas pouco faltou, o que fez o enfermeiro rir e comentar que afinal quem ia despejar as cenas era mesmo eu. E assim foi, pois claro. Sexo fraco, hum? Right.
O Dr. Tiago Baptista Fernandes veio ver-me para dar alta, com aquela boa disposição de quem está sempre em festa, autorizou a saída dos drenos das mamas (yuhuuu!), e despediu-se de mim com um "até já", uma vez que dali a ideia era sair dali directamente para a Up Clinic. O dreno da mama esquerda doeu um bocadito a sair, o da direita nem senti.
Saí devagarinho, amparada no Ricardo, e fomos para a clínica de carro. O Bairro Alto precisa de obras no pavimento, porra, que cada abanão de cada buraco eram facas espetadas em mim toda. Fica a nota para as autárquicas.
Na clínica, subi até ao 2º piso e fui calorosamente recebida pela Alexandra Fernandes, fisioterapeuta, e foi amor à primeira vista. Que pessoa querida, que sorriso, que simpatia. Mas... eu nem queria acreditar que a primeira sessão de drenagem linfática ia ocorrer logo ali, no dia seguinte a ter sido toda aberta, aspirada e cosida de novo (abdominais cosidos, inclusive). Achei que ia ter de bater na fisioterapeuta, ou morder-lhe ou terminar de qualquer outra forma abrupta e violenta uma relação acabadinha de começar (e com alguém que me fez de imediato soar as campainhas da empatia) mas ela foi tão suave, tão delicada e cuidadosa que não tive de recorrer à violência. O mesmo posso dizer da enfermeira (que ou era a Joana Oliveira ou a Daniela Ferreira - já estive com ambas, queridas as duas, e não consigo lembrar-me qual me chegou primeiro), que viu pensos e trocou coisas com imenso cuidado.
E pronto. Cheguei a casa. Feliz e contente por estar de volta. Mais leve, mais curvada, carregada de medicação para tomar quase de hora a hora, e com três granadas de mão sempre penduradas em mim (uma nas costas, e duas na zona púbica). A recuperação pós-cirúrgica estava só a começar.

Eu, ainda inchadíssima da cirurgia, com o chapéu "Cocó da Sorte", oferecido pelos sempre presentes condes de Manike. ![]()
(to be continued...)
Não sei se se lembram mas no ano passado fiz uma reportagem aqui no blogue sobre um campo de férias muito especial: o Camp Abilities. Se não tiveram oportunidade de ver... convido-vos mesmo a tirarem um bocadinho do vosso dia para lerem e para se emocionarem com aquilo que alguns seres humanos fazem pelos outros. Basicamente, trata-se de um campo de férias, cheio de actividades, para crianças/adolescentes cegas e para crianças/adolescentes que vêem. Sendo que - e isso é que faz toda a diferença - os meninos que vêem são os monitores dos que não vêem. Mas, no final, muitos dos monitores admitem que aprenderam muito mais do que ensinaram. Que achavam que os cegos tinham limitações impossíveis de vencer e que ficaram impressionados com a sua resiliência e força de vontade. Mais: os cegos experimentam fazer coisas que nunca na vida sonharam sequer fazer (surf, tiro com arco, capoeira, judo, boxe, mergulho, atletismo, skate, futebol, espectáculos de música, canto, dança, teatro...). E, no final, há quem engula em seco porque já acabou (todos) e os miúdos que vêem garantem que saem dali outras pessoas, e que aquela semana mudou as suas vidas. Isto dito assim é profundamente redutor, por isso é que gostava tanto que lessem a reportagem.
Ora bem. Este ano, o Camp Abilities está em risco de não acontecer. A organização não é apoiada pelo Estado (apesar de fazer, quanto a mim, verdadeiro serviço público) e, sem apoios de qualquer espécie, não é possível fazer acontecer, por muito boa vontade que a Rita Costa e a sua equipa tenham (e têm). Todas as actividades que os miúdos fazem são feitas por empresas que se deslocam ao local onde o campo de férias se realiza e cobram pelos seus serviços. O próprio local onde tudo se passa cobra pela permanência destas crianças lá (onde dormem e comem e praticam as tais actividades), e o valor não é baixo. Além disto, existem os coordenadores, que são especialistas, e que têm naturalmente de ser pagos pelo seu trabalho - inventar programas, ajudar nas tarefas, orientar os miúdos, ajudar nas refeições, estar atento a quaisquer necessidades, etc., etc.
Foi por perceberem que pode não haver campo de férias este ano que lançaram um Crowdfunding. Só precisam de 5000 euros. Ok, parece muito, aos olhos de quem se governa com muito menos do que isso por mês. Mas esta é uma semana intensa para 44 crianças, 22 das quais não têm a mesma sorte que nós, a de podermos ver o mundo com os olhos. Elas vêem-no com outros sentidos, sem dúvida, mas nem sempre têm ao dispor tudo aquilo que experienciam naquela semana. E mesmo para as crianças e jovens que vêem... acreditem: aquela semana é transformadora. Saem de lá melhores pessoas, gente com o coração no lugar certo. E de grupo em grupo, todos os anos, acredito que o Camp Abilities está a contribuir para formar gerações melhores, menos umbiguistas, menos preconceituosas, mais abertas à inclusão.
Se puderem ajudar, nem que seja com 1 euro, eu agradeço-vos muito.
Crowdfunding AQUI





Feliz. Mesmo feliz. Encantado. O curso de inglês que está a fazer na EF (Education First) é exigente e intenso, tem várias horas de aulas por dia e está instalado no próprio Campus, que é um luxo. São 25 hectares que incluem jardins e floresta. Há quartos individuais, duplos e depois de 3 ou 4 pessoas. Ficou num desses, claro, não só porque é mais barato como porque também promove a relação com outras pessoas (enfim, foi mesmo por ser mais barato, mas faz de conta 😂). Ele diz que teve algum azar com os "roomies" porque são "mesmo muito desarrumados" (karma is a bitch) mas não se importa porque só vai ao quarto mesmo para dormir.
Diz que as salas do campus são muitíssimo bem equipadas, "com todos os materiais possíveis e imaginários, tudo topo de gama", e que também as salas de convívio e os halls de passagem são incríveis. "O interior dos 13 enormes edifícios que compõem o campus é muito clássico, mas sempre decorados com um toque moderno, o que é super friendly para o seu propósito: conviver. Há ainda a sala do silêncio, com dois andares, onde os alunos podem estudar completamente concentrados. Um mini-hospital, para alguma urgência que possa ocorrer, 5 auditórios, um campo de futebol, uma piscina, um ginásio, uma sala de jogos (ténis de mesa, snooker, jogos de tabuleiro, etc.) e uma sala de computadores. Espero não me estar a esquecer de nada, porque é tudo tão grande e espantoso que fica difícil não ficar um bocadinho esmagado, sobretudo se compararmos com a nossa realidade."
No primeiro dia, fez testes de avaliação para saber em que nível estava. Existem 6 níveis diferentes (e mais uns quantos sub-níveis). "Os professores são todos espectaculares. Exigentes mas atenciosos. A minha primeira professora era impecável mas, uma semana depois subi de sub-nível e o professor seguinte não lhe ficava nada atrás. Temos nas aulas sempre computadores e iPads ao dispir e as aulas funcionam de forma a que os estudantes tenham de participar. Ninguém é obrigado mas, como todos o fazem, sentimo-nos à parte se não o fizermos, e isso puxa pela progressão do inglês."
Além de tudo isto... o campus está a cerca de 40 minutos de comboio de Manhattan. Podem imaginar que chatinha tem sido a vida desta alma, certo? 😎

Ah! Este sábado, dia 29, vai haver uma Feira na EF de Lisboa sobre os cursos disponíveis. Como tenho recebido imensas perguntas sobre este e outros cursos, achei que vos podia interessar:
Dia 29 de Fevereiro, das 11h às 18h, na Escola EF em Lisboa e das 14:30 às 18h no escritório EF no Porto
Acho que é preciso inscrição. 21 317 34 70 (Lisboa) / 22 145 03 70 (Porto) ou em www.ef.edu.pt/effair
Os últimos tempos têm sido conturbados de várias formas e, por isso, por muito que me tenha genuinamente querido entregar à leitura do clássico de Victor Hugo, Os Miseráveis, tive mesmo de deixar a leitura para o mês que vem. 2020 arrancou com o meu filho mais velho a partir para São Tomé onde viveu um mês, a voltar uma semana e a tornar a partir para Nova Iorque (onde vai permanecer outro mês), mas também com sessões de quimioterapia de alguém muito próximo, e ainda com a minha própria cirurgia que, não sendo motivada por doença (se bem que aquela barriga pendurada a que chamava de medusa mais parecia uma doença), foi algo que andou a dominar grande parte dos meus pensamentos (para quem ainda não sabe, fiz uma abdominoplastia há uma semana).
Em Janeiro consegui ler dois livros do João Tordo mas entretanto cruzou-se no meu caminho um livro sobre parentalidade. Recebo pelo menos um por mês sobre este tema. Como tenho grande respeito pelos livros (e sou uma acumuladora em potencial), meto-os na prateleira, mas não os leio. Não é por mal. Mas, caraças, levo 18 anos de maternidade e vi multiplicarem-se livros sobre parentalidade como cogumelos. Alguns deles, cogumelos venenosos, com as suas teorias culpabilizantes para os pais, com as suas obsessões insuportáveis sobre "como criar o ser humano mais perfeito à face da terra", com as suas merdinhas para as quais não tenho a mínima paciência.
Vejamos: eu admiro o esforço que existiu no sentido de se compreender a criança e as suas necessidades. Antes, os miúdos eram uma espécie de coisa sem sentimentos que se deixava crescer sem levar em linha de conta o pensamento e as emoções, resultando daí muito adulto traumatizado com o que foi ouvindo, sentindo e experimentando. Não sou do Paleolítico e sei muito bem que houve estudiosos que fizeram um excelente trabalho para ajudar pais em apuros com essa mui nobre missão de criar um ser humano. Mas... (tinha de vir um "mas") é importante saber separar o trigo do joio e a verdade é que a maioria dos livros não passa de balelas, umas pertencentes ao puro senso-comum, outras verdadeiros atentados à educação de crianças (a menos que queiramos criar déspotas intragáveis que pegarão na metralhadora mais próxima sempre que alguém lhes atirar com um "não").
Bom, mas este livro de parentalidade que me chegou cá a casa chamou-me a atenção por ser diferente dos outros. A começar pelo título: "Como Não Estragar Completamente Os Filhos - Manuel para Pais que não acreditam em manuais para pais" (Editora ASA). Ok, James Breakwell... ganhaste a minha atenção.
Seguiram-se dias de puro prazer e diversão. Cheguei a gargalhar alto numa sala de quimioterapia, o que, não sendo proibido nem sequer eticamente incorrecto, parece sempre despropositado e até desconfortável. Nessas alturas, optei por ler à pessoa que acompanho os excertos causadores do espalhafato, de forma bem audível, não só para justificar a minha boa disposição numa sala onde ela não abunda, mas também para levar um pouco de humor aos que, ali por perto, pudessem usufruir dele.
O autor, pai de quatro filhas, oferece-nos então esta espécie de guia para a parentalidade pelo menor esforço. Diz ele (e eu tendo - tanto! - a concordar) que o mundo dos pais se divide entre os que são super-esforçados por acreditarem estar em vias de formar criaturas praticamente aladas, de tão perfeitas, e os outros, os que rapidamente se apercebem que isto mais coisa menos coisa vai dar ao mesmo e, por isso, mais vale não nos cansarmos em demasia. Chorei a rir com tantas passagens e identifiquei-me tanto, que senti uma rara vontade de lhe escrever um email a agradecer: "Caro James, este livro podia ter sido escrito por mim. Pena não ter sido, que deve estar a vender como pãezinhos quentes e dava-me um jeitão receber o dinheiro dos direitos de autor."
Há partes hilariantes como aquela em que o autor explica que, enquanto os filhos são bebés, nada do que façamos pode fazer assim TAAAAAANTA diferença no adulto que eles venham a ser. Ok, a mama é melhor do que o biberão. Mas quando um bebé amamentado se transforma num adulto bem sucedido é muito pouco provável que traga esse assunto à baila: "O que é estranho é que nenhum cientista numa cerimónia de entrega de prémios jamais agradeceu à mãe por o ter amamentado. Ou por ter usado leite artificial. Ou pelo que quer que ela tenha feito antes de o cientista ter idade para se lembrar, porque, bom, porque não se lembra. Inúmeros fatores contribuíram para conduzir aquele cientista àquele palco, mas nenhum deles pode ser relacionado com as decisões aparentemente de vida ou de morte com que os pais de bebés se torturam todos os dias. Por maior que seja o seu erro, uma decisão de parentalidade errada não transforma um potencial académico num vagabundo que conversa com gatos." Tão isto, meus amigos. Tão isto!
Quando vejo os pais em transe sem saber se escolhem o carrinho A ou B, se optam pela papa X ou Z, atormentados com a cama, com a mama, com as fraldas, com a música para adormecer, com os brinquedos mais didáticos... tenho vontade de rir. É óbvio que também já terei feito figurinhas semelhantes aquando do primeiro filho (poucas, juro, sempre tendi para uma enorme descontracção), é certo que os pais só querem mesmo falhar o menos possível mas... calma, minha gente. Muita calma nessa hora.
James Breakwell continua a descrever todo o seu plano maquiavélico para lidar com a parentalidade pelo menor esforço, sem esquecer nenhum detalhe: das brincadeiras, aos "perigos" da televisão, dos vídeojogos e dos écrãs em geral (que ele desmonta de forma deliciosamente jocosa), ao excesso de actividades extra-curriculares ("Da próxima vez que não lhe apetecer ir a um recital, lembre-se de que nenhuma criança se inscreveu sozinha em aulas de piano. Foi você que causou a sua própria infelicidade. O karma faz-se sempe ouvir e, regra geral, é desafinado."), à paranóia (muito americana) do desporto ("Se a única forma que o seu filho tem de fazer amigos é o desporto, tem problemas maiores do que próximo jogo. A maioria das carreiras atléticas acaba quando termina o ensino secundário. O seu filho tem uma vida difícil pela frente se só consegue realcionar-se com outras pessoas a jogar à bola ou a correr. Do ponto de vista social, não está mais avançado do que um golden retriever. Ensine-o a sentar-se."), à escolha da escola, da universidade, aos amigos.
Chorei a rir várias vezes e senti-me tão aliviada! Acho mesmo que este livro devia ser obrigatório. Entregue nas maternidades a cada puérpera e a cada recém-pai. Só saíam do hospital depois de o lerem, de o sublinharem e... de se rirem com ele. Se não se rissem e começassem a levantar o lábio enfurecido, prova provada de que estavam a ir pelo caminho dos pais super-esforçados... não tinham ordem de soltura para irem para casa.
Os miúdos de hoje são super-hiper-mega-ultra protegidos. Os pais dão em malucos para proporcionar a Suas Altezas todas as benesses que elas evidentemente merecem. Medo. Medo das gerações que estamos a criar. Medo do cansaço de tanta perfeição. Leiam. Leiam mesmo! Relaxem. Divirtam-se! Ser mãe e pai é a melhor das viagens. Escusa é de ser a travessia do Cabo das Tormentas.

Os meus amigos e pessoas próximas sabem como há muito, muito tempo que não lido bem com o meu corpo. Ah, e tal, vivemos numa época em que proliferam os hashtags que prometem mulheres reais e libertadas das opressões sociais com o corpo e mais não sei o quê; é verdade que até já há manequins rechonchudas para combater a obsessão com os corpos magros; até há campanhas baseadas em "mulheres reais". Tudo certo. Mas isto é uma cena que vem de dentro. Que ou se sente ou não se sente. E se é verdade que conheço muitas mulheres redondinhas que lidam perfeitamente com o seu corpo, vê-se que existe ali um match perfeito entre o corpo e a alma, e não anda para ali tudo à batatada, também não é menos verdade que conheço muita gente que tem verdadeiro ódio ao seu corpo. E depois há os que nada fazem para combater esse ódio e também há os que até fazem alguma coisa mas... nada parece ser suficiente.
Vamos lá ver: eu tendo a oscilar entre ser uma boa menina, evitar as batatas fritas e encher o prato de salada, fazer desporto à bruta (esta é a boa menina), e depois esticar-me à grande para comezainas bem temperadas e ainda melhor regadas, sem mexer o rabo do sofá (esta é a má menina). Matem-me. Gosto de viver, gosto de comer, gosto de beber. A genética? Uma trampa: vai-me tudo para a barriga, de tal modo que costumo dizer que tenho corpo de aranha: pernas e braços magros e depois aquela maldita carcaça.
As quatro cesarianas deram cabo do resto. Fiquei com uma espécie de medusa agarrada a mim, um bicho mole pendurado no meu baixo ventre, tão pendurado que é costume ser designado por "avental". Ora, este avental impedia-me, por exemplo, de usar calças com uma camisa por dentro. Tão simples como isto. Uma t-shirt por dentro, uma camisola fininha, nada. Já nem falo de vestidos justos (e mesmo os vestidos mais ou menos normais tinham sempre de levar uma cinta), já nem falo de biquíni, que abandonei há anos.
Ora, claro que quando emagrecia muito, a medusa emagrecia comigo. Ficava mais pequena, sem dúvida. Mas... nunca por nunca me largava! No meu pico de forma, em que treinava uma média de três vezes por semana (cerca de 150km/200km por mês), quando me estava a preparar para a minha primeira maratona, a minha medusa reduziu. Porém... manteve-se sempre por perto. E eu continuei sem usar uma camisa por dentro das calças. E a embrulhar-me na toalha quando saía do mar. E a cruzar os braços em frente ao corpo quando era convidada para falar em público ou na televisão. E a vestir o roupeiro inteiro antes de sair de casa e - tantas vezes - sentir que nada, mas mesmo nada iria conseguir disfarçar aquilo que ali tinha e que, pertencendo-me, não me pertencia. Tudo isto apesar de comer e treinar como uma atleta de alta competição (acreditem, já fui uma, e aquilo que fiz para essa maratona aproximou-se muito desse tipo de preparação). E, sim, muitas vezes acho que desmotivei de treinar porque... se a medusa não me abandonava nem com aquele esforço todo, para quê continuar? Não sou uma Patrocínio, intrinsecamente apaixonada por exercício, e por isso, sim, acho que muito do abandono de uma vida mais activa teve que ver com esta coisa que nunca me largou.
Durante muito tempo, adiei a cirurgia por causa dos filhos. Queríamos ter um quarto filho, esperámos que ele viesse, demorou a vir, lá veio. E, como somos malucos, demos por nós a pensar como seria giro se viesse um quinto filho. O desejo não era o mesmo que tínhamos sentido para o quarto, é verdade. O Mateus parecia uma peça do puzzle que nos faltava e, quando chegou, sentimos que o puzzle estava pronto. Mas, passado algum tempo, achámos que podia ser giro fazer um upgrade ao puzzle, e deixámos passar o tempo, a ver se acontecia ou não. Não aconteceu.
Trabalhar o tema "fim dos filhos" na minha cabeça, na nossa cabeça, não foi fácil. Se é um facto que nos sentimos preenchidos com esta família querida e numerosa que temos, também custava muito pensar "acabou-se, nunca mais vamos ter aquela explosão de felicidade ao sentir o nosso recém-nascido nos braços". Tudo isto careceu de tempo. De reflexão. De muita conversa. Interior e com o homem que escolhi e que me escolheu.
Trabalhar o medo de morrer foi o passo seguinte. Sou hipocondríaca e, além do mais, fui jornalista muitos anos e encontrei, pela minha profissão, casos terríveis. Fiz inclusivamente uma reportagem no Diário de Notícias sobre pequenas (e supostamente insignificantes) cirurgias que correram mal. Assim, não fica mais fácil.
Bom, por ser hipocondríaca, por gostar muito de viver e da minha vida, e por ser talvez excessivamente informada foi essencial saber o máximo sobre o médico certo a escolher. E demorei. Li muito. Ouvi testemunhos. Pesquisei. Fui a uma consulta na Up Clinic, que já seguia via Instagram, e achava que tinha uma grande pinta. Acreditem: os olhos também comem. E entre entregarmo-nos a um médico que nos recebe num gabinete esconso e com humidade no tecto, e escolhermos um que nos recebe numa clínica linda de morrer, para onde podia perfeitamente mudar-me no dia seguinte, com marido, filhos e mobília (parece mesmo uma das Casas onde a Cocó Não Se Importava de Morar), é muito mais provável que optemos pela segunda opção.


Tinha amigas que já tinham sido operadas pelo Dr. Tiago Baptista Fernandes e quis lá ir conhecê-lo. Interessava-me perceber se, além de bom médico (que tinha várias fontes a confirmar que era), também era um bom ser humano. Na consulta não deu propriamente para lhe tirar a ficha de personalidade e avaliar as ondas electromagnéticas da bondade, mas pelo menos era simpático e acessível e descomplicado (e giro, vá, não que isso interesse muito, até porque na maior parte do tempo da nossa relação, um de nós está a dormir). Falámos de preços e não é barato. Mas se fosse barato eu desconfiava. Afinal, estamos a falar de uma cirurgia de 6 horas e meia, em que há uma série de gente envolvida, e em que um médico especialista abre uma barriga, aspira gordices, cose abdominais que estão de costas voltadas há anos, distantes e zangados, remove pele em excesso, e ainda reduz maminhas... malta, não há milagres. O total ficava em cerca de 14 mil euros. Tive uma atenção porque estou a trabalhar com a clínica, como em breve poderão ver, mas paguei - eu sei que isto é uma coisa que causa muita comichão a muita gente, o facto de "nós" nunca pagarmos nada. Descansem, pois, neste caso.
Marquei a data. Nem quis acreditar quando marquei a data. Passei o verão a falar disso, a pensar nisso. A temer, a querer, a pensar de novo. Decidi que, além da abdominoplastia iria fazer também uma redução mamária. Bem sei que anda meio mundo a pô-las e eu a querer tirar, que raio de vida que nunca ninguém está contente. Mas lembro-me de ser adolescente e enfaixar as mamas para disfarçar o tamanho, e nunca comprei outro soutien que não fosse redutor. Não tenho assim um exagero mas nunca gostei delas grandes. E já que ia estar anestesiada... então que reparássemos também aqui algo que nunca apreciei em mim.
Só que a vida é assim mesmo, uma caixinha de surpresas, e entretanto veio um cancro em alguém muito próximo. E a primeira data que tinha ficado marcada, para 13 de Janeiro, teve de ser adiada porque essa pessoa tinha uma sessão de quimioterapia no dia 16 e eu queria lá estar. E, manifestamente, em três dias não iria estar em condições para acompanhar a minha pessoa na químio. Por isso, e porque avisei com a devida antecedência, adiámos para dia 18 de Fevereiro. Fiz imensos exames para que o médico tivesse a certeza de que estava tudo bem para ser operada: mamografia, ecografia mamária, análises, electrocardiograma, ecografia abdominal, raio x ao tórax, pulmões e coração, raio x à coluna. Ainda tive mais uma consulta com o Dr. Tiago, porque já tinha passado bastante tempo desde a primeira e basicamente queria ir lá dizer-lhe que tinha medo. Ele riu-se mas não desvalorizou. Quem é que não tem um bocadinho de medo de ir para um bloco operatório? Mas transmitiu segurança, explicou que faz disto com a mesma regularidade com que eu... limpo rabos a filhos, mais coisa menos coisa. Depois... depois foi preparar tudo para que os dias em que estivesse off fossem o menos difíceis possível. Combinei com a minha mãe que ela levaria os miúdos à escola no dia da cirurgia e nos dias seguintes e pronto. Estava mesmo a acontecer.
Na véspera... novo revés. Se fosse acreditar em sinais do universo, em calhando tinha desistido. A minha mãe adoeceu e fiquei ali num impasse, sem saber o que fazer. Liguei ao meu pai mas, de repente, a meio do telefonema, percebi o quão absurdo tudo aquilo era: ele teria de vestir o Mateus, teria de dar o pequeno-almoço ao Mateus e à Mada, teria de levar ambos a duas escolas diferentes. Não é que não desse para fazer, mas tudo combinado com apenas horas de antecedência ia ser o caos. Comecei a panicar e, quando desliguei, lavada em lágrimas (estava emocional, nervosíssima e sou naturalmente dada a chorar), disse ao Ricardo: "Prefiro que fiques com os miúdos e trates tu de tudo do que estar eu lá, à beira de entrar para o bloco, em transe com o que se estará a passar em casa".
E assim foi. No dia 18, terça-feira, apanhei um Uber para o Hospital St Louis, no Bairro Alto. Ia eu, a minha mochila, e o meu enorme, enormíssimo pavor. Entrei para o quarto, deram-me a bata azul para vestir, umas meias de compressão, uma touca verde. Daí a pouco entrou o Dr. Tiago. Parecia que era dia de festa! Todo ele animação! Vinha fazer os desenhos no meu corpo, como se fosse um alfaiate a desenhar o tecido que iria cortar por medida, ou um escultor perante a matéria-prima a que vai dar forma. Os olhos, o sorriso, a felicidade em cada risco, em cada traço, é algo que não vou esquecer. É algo que só acontece quando realmente se ama o que se faz.
Ele saiu, despediu-se com um "até já!" e a seguir vieram buscar-me. Quando entrei no bloco, fiquei a ver aquela gente toda à minha volta e o pavor transformou-se em pânico. O que é que estou aqui a fazer? E se eu morro? E se eu ficar com a minha barriga em avental, porra, qual é o mal? Lágrimas, lágrimas, lágrimas. O anestesista, que era uma simpatia, olhou para mim e disse que já ia dar-me uma coisa que me ia acalmar. Acordei 6 horas e meia depois (ou sete, não sei bem).
(to be continued...)
Se eu tivesse dinheiro assim a ponto de não precisar de fazer contas à vida, sempre que fizesse um jantar cá em casa (e faço bastantes) não pensava duas vezes: contratava SEMPRE a Supper Stars. Pela minha saudinha. Cá agora cozinhar, levantar a mesa, arrumar a cozinha?! Muito bonito, sim senhor, já fiz centenas de vezes, está bom. Agora passavam a ser sempre eles que tratavam do assunto - e tão bem que tratam!
É a terceira vez que os contratamos e é sempre tão espectacular que fica sempre aquela certeza de que outras virão. O que vem então a ser a Supper Stars? É uma empresa que leva as melhores experiências gastronómicas ao cenário mais exclusivo e intimista - a nossa casa! - tornando-o o melhor restaurante. Basta ir ao site, escolher o chef que se pretende (ou, se for indiferente, escolher o menu que agrada mais) e... já está. É facílimo de marcar. A Supper Stars, além de estar no país inteiro, já chegou a Espanha e ao Reino Unido, apresentando uma comunidade de 100 chefs profissionais. E não são uns chefs quaisquer: passaram por mais de 100 estrelas Michelin e em mais de 30 países! Ou seja: a marca oferece experiências gastronómicas únicas. Os menus oscilam de preço, sendo que o mais barato custa 35€ por pessoa (e acho que o mínimo são 6 pessoas).
Desta vez convidámos 5 amigos para virem jantar. Pedimos para tentarem vir sem crianças, mandámos os nossos três para casa da avó (juntamente com pizzas, para não dar trabalho), e quando os convivas chegaram tiveram a surpresa de constatar que, na cozinha, a chef Rita Lourenço e a sua ajudante preparavam o jantar. Começa logo por aí: pelo efeito surpresa. Mas é muito mais do que uma graçola a armar ao rico. É toda a experiência que está por detrás de se ter alguém a cozinhar por nós: permite estar apenas concentrado no convívio com os amigos, em vez de se andar a fazer piscinas entre a cozinha e a sala, correndo para os tachos para evitar que tudo se queime ou seque ou engrosse ou talhe ou engrosse ou verta ou qualquer outra catástrofe que arruine o repasto. É o contrário: estamos na sala, na amena cavaqueira, e alguém está a tratar de tudo por nós.
Depois, é como num restaurante: a chef chega com os pratos, explica o que vamos comer, no final recolhe, e volta com o prato seguinte, e nós ali sentadinhos, sem nos levantarmos para levar a loiça para a máquina, ralhando com os convidados se tentam levantar-se para ajudar, ou permitindo que todos se levantem para levar pratos para a cozinha, numa filinha indiana transportadora de baixela emporcalhada.
A chef Rita (que trabalhou mais de sete anos na Fortaleza do Guincho) veio duas horas antes (vêm sempre duas horas antes, talvez até haja menus ou número de convidados que obriguem a maior antecedência), trouxe os ingredientes, cozinhou, empratou, serviu, levantou, pôs na máquina, deixou a cozinha num brinco e saiu. Trouxe uma ajudante (pode acontecer) e foi simpática, querida, e preparou uma refeição extraordinária. Divertimo-nos muito, conversámos ainda mais (sem interrupções), degustámos e... é o que escrevia no início: por mim era sempre assim. Obrigada, chef Rita!





