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Cocó na fralda

Cocó na Fralda

Peripécias, pilhérias e parvoíces de meia dúzia de alminhas (e um cão).

13 de Agosto de 2008

E pronto. Hoje foi a concretização de um sonho antigo. A casinha do Algarve é nossa, melhor dizendo, é do BPI. Lá nos enterrámos mais um bocado, comprando uma segunda casa, de modo que durante a escritura estive numa espécie de limbo, entre a felicidade gritante e a incapacidade de engolir.
Levámos os putos connosco para a escritura e, para evitar que um deles começasse a trepar pelos móveis e a atirar jarras de porcelana ao chão, fomos todo o caminho de Tavira até Lisboa a explicar a seriedade do sítio para onde íamos, e que tinham de se portar excepecionalmente bem, caso contrário... enfim, caso contrário coisas terríveis podiam acontecer. E foi assim que, durante uma hora tive dois anjinhos sentados na salinha contígua àquela onde assinávamos muitas folhas, sem um pio, um ai, ou uma "pila" que fosse. "Tão queridos", diziam-me. E eu sorria um sorriso beato, como quem se orgulha do excelente trabalho árduo a educar dois magarefes, vitoriosa e mentirosona, e eles a mirarem-me, cúmplices, como quem diz "Já enganámos mais uns, hein?". Porém, a notária, que deve ser de Olhão (no sentido de ter bom olho, não é preciso começarem já a crispar-se todos os olhanenses que lerem este post), topou o sacrista mais novo: "Este tem um ar terrível". Eu tornei a sorrir, dessa vez um sorriso enigmático, nem sim nem não, antes pelo contrário.
Uma escritura é sempre um acto de algum formalismo e nervoseira. A até então proprietária e vendedora do apartamento com um beicinho genuinamente triste (ela não queria vender a casa mas a crise veio e lixou-lhe a vida), o marido dela tenso, segurando na sua caneta parker, nós no tal limbo, com as mãos geladas, a representante da imobiliária no seu cantinho, a representante do BPI dirigindo operações, e a notária propriamente dita, lendo linha a linha, tintim por tintim. Praticamente tudo o que ali se disse, a mim, soou-me a estrangeiro. Euribores, taxas nominais, percentagens, spreads, hipotecas, averbamentos. E eu que sim, pois claro, pois sim, acenando com a cabeça com uma certeza científica quando, na verdade, tirando a morada do apartamento e o nosso nome pouco mais consegui reter.
Assim que saímos pela porta, atirando adeuzinhos para trás, os meus anjinhos quiseram saber se, depois de tanto esforço fingindo ser o que não eram, podiam receber o prémio merecido: batatas-carninha-pão, vulgo Mcdonald's. "Portaram-se muito bem, por isso podem!" Yeah!, gritaram eles, batendo com a mão um no outro. E dali até ao carro foram sempre à porrada e atirando-se para o chão, de modo que estou convencida de que podem bem vir a receber um Óscar cada um. Pelo menos.
O que sei é que agora tenho uma segunda casinha, para usufruir e para alugar, onde espero sinceramente prolongar a minha (nossa) felicidade. Mas, apesar de não ter tido uma educação católica, não consigo livrar-me da culpa judaico-cristã que me faz ter pavor de que, depois de mais esta conquista, coisas horríveis poderão vir a acontecer-nos. Um cancro, um acidente, uma trombose. Vinha a pensar nisto no caminho de regresso a Tavira, e a auto-recriminar-me por ter pensamentos tão estúpidos. Nisto, fomos mandados parar por um Audi que vinha colado a nós, na Autoestrada, e que não estavam a fazer uma corrida, mas eram da Brigada de Trânsito. Vínhamos depressa, é verdade. Os agentes foram delicadíssimos, mas não nos livrámos da multa. Quanto a mim, confesso que não consegui evitar um sorriso de alívio: "Se for só este o preço a pagar por mais este upgrade na nossa vida... tudo bem!"

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