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Cocó na fralda

Cocó na Fralda

Peripécias, pilhérias e parvoíces de meia dúzia de alminhas (e um cão).

Coisas que aprendemos (ou aprofundámos) com o nosso guia #1

Nunca viajamos com guia. E, sobretudo, nunca viajamos em grupo. Odiamos excursões, detestamos manadas, rebanhos, todos juntos para todo o lado e, principalmente, para os lados mais turísticos e menos genuínos dos lugares.
Mas… desta vez não deu para prescindir do guia. Não fomos em grupo (isso é que não), mas as notícias das violações e o catatau deixaram a semente da insegurança e não nos sentimos suficientemente aventureiros para fazer a primeira abordagem à Índia por nossa conta e risco. Assim, fomos com um motorista e um guia e não arriscámos quase nada. De vez em quando estivemos sozinhos - tivemos algumas tardes livres (e todas as noites livres) - e aí fizemos as nossas próprias explorações, mas sem nunca metermos o nariz em ruelas muito estreitas e esquisitas e assustadoras (como fizemos em Marraquexe, por exemplo, ou em alguns lugarejos perdidos no nordeste do Brasil).

Ter um guia teve um lado muito bom: aprendemos imensas coisas. Nem tanto sobre os monumentos que visitámos, porque para isso há os livros e a internet, mas sobre a vida propriamente dita, a cultura e as tradições. Claro que há que ter em atenção que nem todas as coisas que o guia diz são a verdade absoluta. Não nos podemos esquecer que ele tem a sua própria noção da realidade que seria totalmente diferente se fosse um guia diferente. E, por isso, ter guia não dispensa continuar a aprofundar as informações, para que não se fique com uma ideia errada do país. Por isso… se houver aqui imprecisões, peço desde já desculpa. Vou continuar a ler sobre a Índia, para saber mais, mas para já o que aqui fica é um pouco do que ele nos foi dizendo.
O nosso guia era de uma pequena cidade do Rajastão e ainda vive segundo as tradições mais ortodoxas e fechadas, coisa que já não acontece em Delhi, por exemplo. De resto, ele fala de Delhi sempre com algum desconforto, dizendo que é "muito moderna" como se ser moderno fosse uma coisa má.

O que o Mahendra nos contou foi que, tirando em Delhi (e talvez numa ou outra cidade, não sei), em 90% dos casos, na Índia os casamentos ainda são arranjados. Os pais dele andam a tentar casá-lo há que tempos mas ele já recusou algumas vezes (tem 28 anos). Agora têm uma nova pretendente mas ele acha-a muito feia e anda a tentar livrar-se. Os pais estão zangados e dizem que, quando morrerem, Deus (ou seja Brahma ou Shiva ou Vishnu - ou outro qualquer dos milhares de deuses que existem na religião hindu) vai perguntar-lhes o que andaram a fazer para terem um filho solteiro. O Mahendra, apesar de ser todo muito certinho, não concorda com esta tradição e gostava de poder casar com que lhe desse na gana. Quando lhe perguntei pelo amor, ele respondeu, entre a tristeza e a resignação: «Aqui não há disso».
Claro que, quando chegámos a Delhi, percebemos que é toda uma outra realidade. As mulheres vestem coisas justas e saem à noite e namoram com quem querem. O problema é que a maior parte do país não tem nada que ver com Delhi. E o peso da família, da vizinhança e da perpetuação das tradições é brutal.
Esses casamentos arranjados têm, além do mais, de ser feitos dentro da mesma casta. Há 4 castas principais e não se lhes pode escapar (pelo apelido sabe-se a casta a que a pessoa pertence). Nasce-se numa casta e morre-se nessa casta (o Mahendra diz que é como se fizesse parte do ADN de cada um). Hoje, isso não é tão mau como já foi. Antigamente, quem nascesse na 4ª casta estava basicamente feito ao bife. Não podia estudar, não podia ter outro trabalho que não fosse o de varredor de ruas, não podia viver numa casa numa aldeia, não podia beber da água do poço da aldeia (só para dar um exemplo), e estava condenado a viver assim, sem hipótese de melhorar a existência. As coisas mudaram com Bhimrao Ramji Ambedkar (1891-1956). Ambedkar nasceu na 4ª casta e, por isso, estava impedido de estudar. Mas era muito inteligente e, certo dia, quando estava à porta de uma sala de aula (talvez a varrer, não consegui aprofundar), ouviu o professor fazer uma pergunta e nenhum dos alunos soube responder. Então, ele respondeu. Em vez de ficar irado, o professor ficou encantado com a sabedoria daquele menino, da 4ª casta. E fez um pedido especial para que ele pudesse estudar. Era o princípio do fim das castas tal como elas existiam na Índia.
Ambedkar estudou e tornou-se jurista, filósofo, antropólogo, historiador e economista (estudou muito, como se pode ver). Mas, sobretudo, tornou-se um lutador incansável contra a discriminação social que o sistema de castas da Índia promovia. Hoje, essa discriminação é proibida por lei e qualquer pessoa de qualquer casta pode estudar, trabalhar e ter altos cargos políticos.

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