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Cocó na fralda

Cocó na Fralda

Peripécias, pilhérias e parvoíces de meia dúzia de alminhas (e um cão).

E lá se passou mais um Natal

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Fico sempre com esta ideia de voragem. Tanta preparação, tanto preceito, tanto entusiasmo, e depois acaba-se tudo num instante. O Natal foi bom, adoro ter tantas pessoas à mesa, gosto mesmo de reunir a família, gosto que seja cá em casa, apesar de depois ficar semanas a descobrir coisas fora do sítio. Gosto de ter a cozinha cheia, o fogão sem espaço para nem mais um púcaro, o cheiro a bacalhau e couves a espalhar-se pelas assoalhadas. Gosto das conversas, das surpresas, das emoções. Gosto dos fritos, apesar de depois ficar meses a lutar contra os seus efeitos nefastos. Gosto da alegria dos miúdos quando chega o pai Natal, à meia-noite, e de me encolher toda a pensar se é desta que algum deles vai topar que o pai Natal tem um nariz curiosamente tão parecido com o tio Filipe. Gosto de ver a felicidade com que desembrulham presentes mas este ano confesso que senti o excesso como uma obscenidade. 

No dia seguinte, o dia de Natal propriamente dito, gosto do ritual do almoço na casa da minha mãe, gosto do silêncio das ruas e de ver passar famílias bem vestidas e com sacos nas mãos. Durante o dia, piso dezenas de brinquedos espalhados por várias assoalhadas, e dou por mim a mirar para alguns brinquedos demasiado sonoros com expressão assassina. Estou enjoada mas passo por mais uma rabanada e não lhe resisto, sinto o óleo no esófago e porém continuo a engolir sonhos, ignorando as ondas de choque subsequentes.

À noite, quando ouvi a notícia da morte de George Michael tive um baque. A ironia da morte do cantor de Last Christmas no dia de Natal parece-me irreal, as músicas começam a passar em loop bem como as minhas (tantas) memórias, e não consigo deixar de sentir que envelhecer é uma merda. Vemos amigos, família e ídolos partir, adoecer, entristecer. As nossas listas de contactos têm demasiados números para os quais, se ligarmos, ninguém vai atender. E a ideia de que isto tudo termina mesmo deixa de ser uma ideia distante, quase mítica. É mesmo verdade e está cada vez mais à nossa beira. 

Eu sei, eu sei. Para post pós-natalício isto está um tanto pesado. Vou ali comer mais uma rabanada, a ver se adoço (e engrosso) mais um bocado.

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