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Cocó na fralda

Cocó na Fralda

Peripécias, pilhérias e parvoíces de meia dúzia de alminhas (e um cão).

iAgora?

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Tinha sido convidada pela psicóloga Rosário Carmona e Costa para apresentar o seu livro. Gostei muito de a entrevistar, das duas vezes que o fiz para meios diferentes, e quando me falou do tema do livro nem pensei duas vezes, disse logo que sim. A apresentação ficou marcada para o exacto dia do meu regresso. A viagem durou 24 horas, em que não dormi, mas foi um prazer falar sobre um livro que eu acho mesmo que pode mudar a vida a muito boa gente.

Chama-se "iAgora?" e é sobre o uso excessivo dos ecrãs por parte das crianças. Mas não fala só sobre as crianças. Fala também sobre os pais. Fala, no fundo, sobre muitos de nós. Que estamos sempre ligados. Sempre. Que consultamos o email a toda a hora, a caixa de comentários, o Facebook, o Instagram, o Snapchat, o Twitter. Que entregamos o telemóvel ou o tablet aos miúdos para que nos deixem um bocadinho em paz. Só que de repente o bocadinho vira bocadão. E passa a ser um bocadão várias vezes ao dia, todos os dias.

Levei o livro para ler nestes meus dias de férias no Brasil. E, a certa altura, pousei o livro e olhei à volta. À beira da piscina não havia uma única criatura que não estivesse com o telemóvel na mão. Tanta beleza em redor e tudo de olhos postos nos ecrãs. Estive quase, mas mesmo quase a oferecer o livro a uma senhora argentina que se estendia duas ou três  espreguiçadeiras ao lado da minha. A mulher nunca largava o telefone. Nunca. O pai estava com as crianças na piscina, no mar, no bar, na brincadeira. Ela? Sempre desligada da vida real. Nem sei se conseguiu apreciar a maravilha do local onde estava.

Na apresentação, falei sobre o caso holandês (por acaso enquanto lá estava não soube dizer qual o país, mas agora fui pesquisar e descobri), em que foram colocados semáforos no chão, para que os peões, que andam sempre de cara enfiada no telemóvel, consigam ver os sinais e evitar-se, assim, o aumento dos atropelamentos. Isto só prova como estamos todos doidos. E como livros como este podem salvar-nos. Podem ajudar a meter-nos juízo nestas cabeças.

Conheço crianças que só comem se tiverem o tablet à frente (se lhes perguntarem o que comeram provavelmente nem sabem se foi carne, peixe ou lentilhas), que não sabem brincar a mais nada que não meta ecrãs, conheço pessoas que estão sempre de telemóvel na mão, como se fosse uma extensão orgânica delas. Eu não sou melhor que ninguém e tenho de me policiar MUITO para não ficar dependente. E - acreditem - estou sempre a policiar-me porque é muito fácil cair na asneira de estar sempre a consultar o bicho. Aqui em casa, de resto, policiamo-nos todos muito muito e estar no Brasil a ler este livro teve a vantagem de, como estava sempre com os miúdos, ir comentando com eles o que ia lendo (e eles argumentando e acabando por reconhecer muito do que a autora referia).

Não quero desvendar muito do que se diz no livro mas houve duas citações que me impressionaram particularmente. Uma é esta: "Hoje já não temos meninos que se portam bem à mesa para irem ver os bonecos mas sim meninos que veem bonecos para se portarem bem à mesa." Auch. A outra citação (entre as milhares que me fizeram tanto sentido) é esta: "é fantástico comprovar, quando se lida com crianças, que, apesar de ser incontornável o seu interesse e preferência atuais por actividades que envolvam ecrãs e pareçam, até, não ter qualquer interesse em contemplar actividades alternativas que descrevem como "antigas" ou sem interesse, a verdade é que quando lhes pedimos que recordem bons momentos de brincadeira ou memórias de situações que tenham sido "mesmo, mesmo divertidas", não há filho que não relate momentos passados com os pais: os passeios de bicicleta, as cócegas antes de adormecer, aprender a nadar, rotinas de relação antes de ir para a cama, e para os mais crescidos até momentos cómicos passados à mesa de refeição."

O livro está escrito de uma forma muito simples, o que não quer dizer simplista, está escrito para os pais, sem palavras de quilo e meio justamente para ser percepcionado por todos. Fala sobre jogos, sobre tempos de utilização, sobre internet, sobre idades e maturidade, fala sobre cyberbullying, tem perguntas directas a que Rosario Carmona e Costa dá respostas concretas. 

Não me canso de dizer: este livro pode salvar-nos da imensa estupidez (e estupidificação) em que estamos a cair.

 

 

 

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