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Cocó na fralda

Cocó na Fralda

Peripécias, pilhérias e parvoíces de meia dúzia de alminhas (e um cão).

Mudar de Vida #19: Cristina Vidigal

Durante 25 anos foi técnica de informática no Ministério das Finanças. Entrou aos 19 anos e foi ficando. Apanhou a explosão da Internet em Portugal, fez o site das Finanças, foi fazendo uma série de cursos de programação e cresceu na área à medida que a própria área crescia. Pelo meio, parecia ter encontrado finalmente alguém que fazia sentido no seu intrincado puzzle amoroso (um filho aos 18 anos de uma relação adolescente; uma filha aos 34 anos de uma relação que também falhou). O Vítor parecia a tampa da panela, a sua outra metade, todos os clichés costumeiros. Viviam juntos havia 7 anos. Tinham um filho juntos, o Martim. Em princípio, era desta que Cristina Vidigal tinha acertado dando razão ao ditado popular que não há uma sem duas, nem duas sem três, e que à terceira é de vez. 

Mas. Há sempre um "mas" quando a história parece bem encaminhada. Mas um dia veio um diagnóstico e deu cabo de tudo. Do acerto, do cliché, do ditado popular. Da felicidade. De uma família. Aos 41 anos, o Vítor tinha um cancro no intestino e, quando foi detectado, era já tarde demais. "Disseram-me que tinha 3 meses de vida. Ele não sabia. Estava optimista e acreditou até ao fim." Não foram 3 meses. Foram 9. Morreu em 2012, no dia do 4º aniversário do filho de ambos. 

Cristina, que tinha deixado de trabalhar para acompanhar o companheiro, ficou dois anos a tentar organizar-se. Aproveitou uma vaga de rescisões amigáveis e saiu do Ministério. Pensou trabalhar numa loja, qualquer coisa que não a obrigasse a pensar muito, algo que desse apenas para sobreviver e pouco mais, que tinha um luto para fazer, e três filhos para acompanhar. Até que, um dia, uma amiga lhe perguntou se não queria ir fazer um curso para uma companhia aérea. Achou que a outra estava doida. Mas aquela frase ficou ali a pairar. Afinal, a mãe tinha sido piloto. O pai tinha sido instrutor de voo. "Eu própria tinha querido ser piloto. Mas tinha baixa visão e não me foi permitido continuar."  Mas... seria possível, aos 45 anos, fazer uma tamanha inversão na carreira profissional e na vida, em geral? Só experimentando.

Dois dias depois de se ter inscrito, entrou no curso para comissária de bordo. A formação durou 6 semanas e foi uma aventura. À excepção de Cristina e de um colega, todas as outras pessoas tinham 18, 19 anos, por isso foi como se o tempo tivesse recuado e a vida estivesse mesmo a recomeçar. Uma espécie de reset. Nos intervalos, Cristina aproveitava para ir até ao simulador de voo, que era mesmo uma paixão antiga. E foi lá que conheceu o Mário, instrutor de voo. Foram almoçar algumas vezes, apaixonaram-se. E a paixão teve a ignição daquelas coincidências que nem sequer parecem coincidências: Mário tinha sido casado com uma Cristina que morreu de cancro. Cristina Vidigal, por sua vez, tinha também perdido o companheiro para um cancro. Mais: a mãe dele tinha trabalhado nas Finanças, juntamente com os tios de Cristina (vieram a saber mais tarde), pelo que havia várias pontes de contacto entre eles. Uma espécie de destino. Uma espécie de compensação por perdas e danos. Um novo ditado, quem sabe: à quarta é amor que não mais se aparta. 

Quando terminou o curso, Cristina entrou para a White e o Mário também acabou a entrar para a mesma companhia, como piloto. E, assim, começaram a trabalhar juntos. Foi então que começaram a pensar ter filhos. Ele tinha uma filha pequena, ela também já tinha três, mas sentiam ambos o apelo para compor aquele ramalhete novo, nascido de dois ramalhetes desfeitos. Tentaram durante 4 ou 5 meses mas o tempo não estava a favor de um casal com quarenta e muitos. Recorreram à doação de óvulos e à inseminação artificial e conseguiram à primeira tentativa. O Manel nasceu já Cristina tinha 50 anos. Hoje, ela tem 51, o Manel tem 1 ano, o Martim tem 11, a Maria 17 e o Tiago 33. Cristina é uma mãe recente e uma avó recente, também. Do João, com 5 meses. Uma vida que são várias vidas. Pessoal, profissional e emocionalmente. Muitas vidas dentro da mesma vida. Porque nunca é tarde para nos reiventarmos. Porque nunca é tarde para se (voltar a) ser feliz.

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