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Cocó na fralda

Cocó na Fralda

Peripécias, pilhérias e parvoíces de meia dúzia de alminhas (e um cão).

Mudar de vida #21: Ana Saramago

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Se começasse este texto a dizer que ela é uma gaja do car@lho , estaria tudo certo. Ana Saramago tem 55 anos e tem uma marca em que não há cá pruridos com a linguagem nem tento na língua. Os bois são chamados pelos nomes e o que não presta não é descrito como uma porcaria ou um cocó. É mesmo uma merda, que se o calão existe é para ser usado, e ela nunca foi de meias palavras. Mas já lá vamos, a esta nova vida de vocábulos rudes promovidos a arte. Primeiro, a vida anterior.

Ana nasceu no Crato (Portalegre) mas veio viver com a família para a Amadora com apenas 2 anos. É uma das filhas do meio. Tem duas irmãs mais velhas e uma mais nova, e talvez por isso seja a mais fora da caixa da família. Pelo menos é o que dizem dos irmãos "entalados". Em miúda era atinada e gostava de letras. Aos 18 anos tirou um curso de dactilografia e foi trabalhar para um escritório de contabilidade. Quando chegou a altura de ir para a universidade, tentou entrar para Filosofia mas não conseguiu vaga. Como ficou desocupada durante 1 ano, foi estudar informática. Um curso financiado, em que ia ganhar mais do que ganhava no escritório. "Os nossos professores eram todos do INESC, do Técnico... aprendemos imenso." 

Ana Saramago trabalhou nos CTT, onde operacionalizou toda a transformação dos correios para um sistema informatizado ("foi um privilégio gigante"), e a seguir foi para a PT, onde trabalhou durante 30 anos (em vários departamentos e empresas dependentes da empresa-mãe). 

Se imaginarmos o esterótipo de um informático, Ana não cabe nele. Aliás, não podia estar mais distante da imagem preconcebida de um nerd, todo ele enfiado dentro do seu monitor e pouco dado à vida em geral. Óbvio que um estereótipo não é mais do que isso mesmo, uma imagem ou conceito preconcebido, padronizado e generalizado, mas não deixa de ter graça imaginar aquela mulher com ar de rockeira e muita noite bem vivida, a fazer programação informática durante mais de 30 anos. 

Em 2010, Ana criou a Hardcore Fofo. Estávamos em plena crise e o dinheiro escasseava. Ela, que sempre gostou de manualidades e cresceu a ver a avó e a mãe fazerem colchas e mantas e tapeçarias e macramés, tropeçou nuns esquemas vintage na net e descobriu que havia um movimento de bordados subversivos. Gostou. Pesquisou em sites porno quais as expressões mais usadas e fez uma página no Facebook. O "Fuck me hard" foi um dos primeiros bordados. As amigas mais próximas duvidaram do projecto: "Mas quem é que vai querer isso?, perguntavam. Até a minha filha me dizia: 'O mãe!!!'"

Afinal, a ideia pegou, cresceu, e tornou-se a única fonte de rendimento da sua criadora que, em 2018, saiu da PT para se dedicar em exclusivo aos bordados hardcore... mas fofos. "A PT estava a ficar um embrulhanço e eu estava desanimada, desmotivada, farta. Em 2018 consegui sair com algum dinheiro que deu para limpar a minha vida e recomeçar num trabalho muito diferente. Passei a gerir o meu tempo, o que é uma responsabilidade gigante. Podes ter preguiça mas se não fazes não ganhas. De maneira que tens de ir gerindo, com inteligência, para não seres escravo mas também não ficares nas lonas." 

Nos primeiros tempos trabalhava em casa mas em Julho de 2019 surgiu a possibilidade de alugar uma mesa. Assim mesmo: uma mesa. Um espaço na Rua da Bempostinha, ao Campo Mártires da Pátria (Lisboa), com várias mesas para alugar. Ana não pensou duas vezes. "Estava cansada de estar no meu sofá. Durante os primeiros 7 ou 8 anos tinha feito o Hardcore Fofo num cestinho de fios e bordados. Ter um espaço onde as pessoas pudessem vir levantar as suas encomendas ou ver algumas peças feitas era um upgrade e, além disso, o espaço tinha um carisma muito fixe. E assim fiquei."

Ana quer ir além das camisolas, t-shirts, quadros, leques, cerâmicas. Quer fazer bilhas de Nisa, por exemplo, e não deixar morrer certas tradições, dando-lhes aquele twist ousado que lhes dão toda outra graça. Quando tem muitas encomendas, como no Natal, organiza uma comunidade de hardcore fofas, artesãs que ajudam a bordar os muitos pedidos. No Natal passado foram 22 hardcore fofas a dar aos dedos.

A sua mudança de vida, do departamento informático para os bordados subversivos, foi tudo. "Mudou tudo, até a cor do cabelo. Mudou o meu ânimo. Estou muito mais feliz. Respiro. Tenho o meu tempo. Antes, sentia que trabalhava para os outros ganharem dinheiro. Era um macaquinho, condicionado a comprar, a ter, a pedir empréstimos para casa, carro, uma vidinha à qual ficas presa e da qual ficas escrava. Se pudesse saía do sistema. Sair da PT foi um primeiro passo. Na crise aprende-se a viver com pouco e, com esta mudança de vida, senti de facto uma liberdade que talvez nunca tenha sentido. Oiço a minha música, organizo o meu tempo, e depois divirto-me muito. Se tivesse 1 euro por cada gargalhada que já dei por reacções de pessoas a peças da Hardcore Fofo... estava milionária."

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