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Cocó na fralda

Cocó na Fralda

Peripécias, pilhérias e parvoíces de meia dúzia de alminhas (e um cão).

Mudar de vida #22: Vera Galamba

Dos £ltimos trabalhos como jornalista.jpeg

Sempre a fascinou o jornalismo de causas. Ser a voz dos que não têm voz, falar pelos que não podem, gritar o que não pode ser calado. Ainda durante a licenciatura no ISCSP, em 1999, Vera Galamba trabalhou na imprensa regional (no Notícias de Alverca e no Vida Ribatejana). Depois, saltou para a Agência Financeira da Media Capital e foi editora de Economia do Jornal Metro. Seguiram-se 8 anos como freelancer, onde fez sobretudo cadernos especiais da Controlinveste (DN, JN, 24 Horas) e assistência à produção do programa Sociedade Civil, na altura apresentado por Fernanda Freitas. Com ela viria a trabalhar mais tarde, na sua empresa, Eixo Norte Sul.

Paralelamente - porque na vida as coisas não acontecem todas de forma sequencial, como se fossem estanques - Vera andava a pesquisar formas de salvar animais. A culpa foi de um cartaz do PAN (Partido Pessoas, Animais, Natureza), estrategicamente colocado na 2ª Circular, à entrada de Lisboa, corria o ano de 2014. No cartaz lia-se que mais de 100 mil animais eram eutanasiados por ano, nos canis municipais. "Sempre que vinha na A1 deparava-me com aquela frase e aquilo mexia comigo. Pensava sempre para comigo: tem de haver uma forma de os salvar, tem de haver! Comecei a pesquisar e acabei por descobrir as terapias assistidas por animais, que hoje já é algo que se ouve falar em Portugal, mas em 2014... era completamente novo. Em dezembro desse ano estive de férias nos EUA e marquei uma série de visitas a associações que fazem terapias assistidas. E quando voltei fui fazer uma pós-graduação no ISPA em terapias assistidas por animais."

Este amor pelos bichos não foi um surto súbito, convém que se diga. "Desde pequena que me fazia confusão ver cães e gatos abandonados e o meu sonho, a certa altura, era ter uma quinta onde pudesse albergar todos esses animais. Entretanto, o tempo passou. Sempre quis ter animais e os meus pais nunca me deixaram. Só consegui convencê-los a adoptar a primeira cadela já eu tinha 20 anos. Era a Pantufa. Quatro anos depois veio a Luna, a única sobrevivente de uma ninhada encontrada num contentor do lixo. E dois anos passados, a minha mãe fazia voluntariado numa associação com péssimas condições, que foi fechada, entretanto, e foi ela quem trouxe a Estrela. Lembro-me de a minha mãe dizer ao meu pai que ela vinha só por 15 dias, apenas para fortalecer porque não comia e ia morrer de fome. Ficou connosco até há umas semanas, altura em que morreu. Viveu uma vida feliz, tirando o facto de nunca ter sido aceite pela Pantufa."

Feito este parêntesis, e recuperando o fio da meada, tínhamos então uma Vera com este amor latente pelos bichos, jornalista, e a fazer uma pós-graduação em terapias assistidas por animais por causa de um cartaz do PAN. Depois, vieram várias formações intensivas: uma de intervenções assistidas por animais com uma associação espanhola, um curso de treino. "Desenvolvi dois projectos, todos virados para a reabilitação de animais abandonados. Um tem a ver com o combate à depressão em idosos que vivem sozinhos ou isolados, utilizando animais abandonados. O outro, que tem por base dois projectos que existem nos EUA (Courthouse Dogs e Buddys Behind Bars), visava o apoio a mulheres e crianças vítimas de violência doméstica e sexual."

Relembre-se que tudo isto acontecia ao mesmo tempo que Vera Galamba seguia com o seu trabalho como jornalista. Quando o projecto com a Fernanda Freitas terminou, a 30 de Janeiro de 2017, Vera tinha uma conferência de 4 dias em Inglaterra (Woof!) e pensou: "Vou à conferência e fico lá a viver. Sempre quis ir para Inglaterra, sempre quis ter uma experiência internacional, não tenho emprego... é agora." Vera tinha o curso do British Council, tinha um certificado internacional de tradutora, tinha a vontade de ir. Juntou tudo e, em Fevereiro, foi. 

Na conferência Woof! conheceu a CEO da Battersea Dogs & Cats Home e houve logo ali uma espécie de empatia. Vera concorreu para uma das vagas, fez entrevista, passou à segunda fase. Acabou por não ficar na posição para a qual se tinha candidatado mas numa abaixo. Simultaneamente, foi a uma entrevista para um serviço de apoio ao cliente, com um salário bem mais elevado, sem trabalho ao fins-de-semana ou aos feriados. Mas o amor pelos bichos falou mais alto. Aceitou a posição na Battersea. Foi para tratadora, o que significava basicamente fazer a limpeza dos canis, tratar da alimentação, da medicação, levar à rua, ajudar nos testes de avaliação dos animais.

A Battersea Dogs & Cats Home é um centro de resgate de animais abandonados, que podem chegar através de 3 vias diferentes: ou entregues directamente pelos donos, que deixam de poder ter os animais por qualquer razão (e a lista de espera é longa), ou através de outras associações, ou através de wardens - pessoas contratadas pelas autarquias para recolherem os animais que andam a vaguear na rua. O que a empresa faz é recuperar esses animais com o objectivo de serem adoptados. Muitos têm comportamentos agressivos ou simplesmente complicados para serem compatíveis com a vida dos humanos. O que se pretende é que não haja devoluções e, sobretudo, que não haja problemas comportamentais que resultem em agressão. E, por isso, há uma série de testes que são feitos aos animais, para perceber o nível de treino que será preciso e o tipo de família de que necessitam, até que sejam considerados aptos para irem viver com uma.

Vera está nas sete quintas. Faz agora 1 ano em Outubro que foi promovida a Coordenadora e compete-lhe avaliar os cães, ajudar a desenvolver o plano de treino específico para cada cão, cada protocolo. O passo seguinte será ser comportamentalista, o que não está assim tão distante dos seus horizontes, uma vez que continua a fazer formação contínua: "Estou neste momento inscrita num curso de comportamento canino, que é um curso de nível 5, o equivalemente a um curso técnico-profissional (o nível 6 seria licenciatura). É um curso bastante intensivo."

Neste momento, uma das coisas que aprendeu foi que, até ter ido para Inglaterra, não sabia nada sobre cães. E mesmo que continue por lá mais uns anos, e mesmo que se mantenha sempre a estudar, vai saber sempre pouco. "Quem teve sempre cães acha que, por essa razão, sabe como lidar com eles. A verdade é que não. Pode-se fazer uma função durante 20 ou 30 anos, mas se ela é mal feita desde o início, e ninguém corrige, nunca chegará a ser bem feita. Hoje olho para trás e vejo que as minhas cadelas, coitadas, bem se exprimiam, eu é que não as entendia. Cada cão é um cão, e ainda que existam traços gerais de raça, a verdade é que depois o indivíduo vai ter outros traços que são seus." Talvez hoje conseguisse que a sua cadela Pantufa tivesse olhado a Estrela com outros olhos. Ou então não. Porque há cães que nunca se dão, do mesmo modo que há pessoas que jamais serão amigas. É a vida a acontecer.

Quanto aos traços gerais de cada raça, Vera esmiúça: "Acho graça às pessoas que querem ter, por exemplo, um Border Collie e depois não compreendem porque é que, sempre que há uma festa com crianças o cão corre atrás delas e pode até mordiscar-lhes os tornozelos. É preciso perceber que o Border Collie é um cão de pastoreio. E o que faz um cão de pastoreio? Reúne as ovelhas. Ou seja, quando as ovelhas começam a dispersar, o Border Collie anda em círculo atrás delas para as concentrar. Ora, se há crianças a correr de um lado para o outro, o cão faz o que está inscrito no seu ADN: reúne as ovelhas (ainda que as ovelhas sejam humanas). Quem diz esta situação com um Border Collie, diz outras. Como aquele Beagle que nos foi entregue porque, quando passeava na rua estava sempre de nariz no chão, a farejar, e não ligava nenhuma à família. É preciso que se diga que a função original do Beagle é ser cão de caça e farejar para encontrar a presa. Por isso, é natural que tenha sempre o nariz colado ao chão quando anda na rua. As pessoas querem que os cães se adaptem a elas, e muitas vezes são incapazes de fazer um esforço para serem elas a adaptar-se à natureza dos cães."

Vera mudou de vida aos 36 anos (agora tem 40). Deixou o jornalismo para se dedicar ao comportamento animal e à recuperação de cães abandonados. Está a desenvolver o projecto The Dogmother Academy e, em breve vai lançar três vídeos gratuitos sobre como escolher o cão ideal. "A ideia é tentar reduzir a taxa de abandono. Fazer com que as pessoas pensem antes de adoptar."

A sua mudança de vida não foi fácil para a mãe: "Para ela foi difícil engolir o facto de ter uma filha, a única filha, a deixar uma profissão como a de jornalista para... limpar canis. Era assim que ela se referia ao meu trabalho: 'andaste a estudar tanto tempo para agora ires limpar canis. Tinhas uma casa tão boa e agora partilhas casa, lá em Inglaterra!' Não é fácil para ela, e eu compreendo. O meu pai acho que se conformou. Mas estou em crer que ninguém entende bem isto."

Porém, é bom que se acostumem. Porque ela tenciona continuar a viver em Inglaterra por mais dois anos, altura em que pode pedir o Settle Status, que lhe permite estar fora do Reino Unido durante 5 anos sem perder o direito a residência. E mesmo quando puder vir para Portugal, o seu sonho maior é ter um canil seu. Pensado de raiz, ecológico, tendo em conta o bem-estar animal. Tem até uma ideia brilhante, de fazer um concurso para estudantes de arquitectura, que pensem num projecto original e sustentável, onde os cães possam viver felizes até encontrarem uma família que os adopte, e no entretanto dar-lhes o treino de que precisam para não criarem problemas às famílias adoptantes.

Em jeito de conclusão, vale a pena voltar ao início deste texto. "Sempre a fascinou ser a voz dos que não têm voz, falar pelos que não podem, gritar o que não pode ser calado." Tem graça porque é exactamente o que faz hoje. Não no jornalismo, mas com os animais. Há pessoas destinadas a cumprir os seus desígnios, de uma forma ou de outra. A Vera é uma dessas pessoas. 

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