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Cocó na fralda

Cocó na Fralda

Peripécias, pilhérias e parvoíces de meia dúzia de alminhas (e um cão).

Conta-me #14

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Vesti a blusa nova e o casaquinho que comprei naquela boutique de esquina que tem preços muito em conta. Uma camisa muito jeitosa, de tom pérola e com um botão junto ao pescoço que parece um diamante, muito bonito. Depois faz assim uma espécie de prega e disfarça-me as mamas, achei logo quando experimentei mas depois a menina da loja - um amor, nasceu para aquilo, toda ela disponível, trouxe mais tamanhos, mais cores, nunca se cansou - a menina da loja quando me viu com ela vestida foi logo o que disse: "disfarça-lhe muito o peito, fica mesmo elegante, parece que foi feita para si". O casaquinho encarnado só o trouxe porque o Natal pede encarnado mas não é cor que me assente muito bem. Ainda assim, o conjunto estava bonito e saí satisfeita, apesar de a menina ainda ter insistido para levar também uma saia, mas saias tenho algumas, felizmente, e então nem quis ver nada do que sugeria mostrar-me, que o mês de Dezembro já tem muitos custos e com os presentes que comprei e mais um bolo-rei já não me sobrava assim tanto para loucuras.

Não posso dizer que goste do Natal. Não casei, não fui mãe, não tenho paciência para a algazarra dos miúdos, aquele barulho todo de quando abrem os presentes faz-me dores de cabeça, mas mesmo antes disso há sempre aquele encontro com pessoas que não me dizem nada, a não ser por serem família. O meu irmão Carlos, que está velho e gordo, casado e com dois filhos; a minha irmã Lucília, divorciada e com um filho; o meu irmão Tó, junto com uma serigaita de cabelo amarelo e que deve engravidar não tarda, está-se mesmo a ver. E depois os tios e os primos, também eles com filhos, uma gente de quem sei pouco e que pouco me interessa, que bebe demais ao jantar e começa com piadas ordinárias, a recordar coisas da família que ia jurar que nunca aconteceram, e sempre a perguntarem quando é que eu caso. Todos os anos acho que é tema que já não se põe mas agora começo a achar que hei-de ter 80 anos e ainda me vão andar com a mesma conversa.

Não casei porque não aconteceu. Adorava ter sido mãe mas no meu tempo não se falava desta coisa de se poder recorrer a bancos de esperma e mesmo que se falasse, sou franca, não creio que fosse coisa para mim. Não casei porque os homens nunca olharam para mim, nunca fui uma rapariga bonita, nunca tive namorados, quer dizer, tive um quando era novinha, tivemos relações atrás do prédio dele, uma coisa que recordo com repulsa, ele a enfiar-se em mim e eu a calar a dor, ele a sacudir-se rapidamente, a resfolegar como um animal e por fim a grunhir enquanto eu sentia um líquido deslizar por entre as minhas pernas. Vestimo-nos em silêncio, ele piscou-me o olho, e eu nunca mais o quis ver. Na verdade, ele não parece ter ficado muito sentido com isso. Ligou-me duas vezes e depois desistiu. Passado um mês vi-o com a Susete, todos contentes a entrar no eléctrico, de maneira que foi esta a minha única experiência. Não percebi, sequer, o interesse do sexo. Deve haver mais do que isso, já ouvi dizer que sim, que é suposto que haja uma espécie de entendimento, de carinho, de envolvência, e que no fim é suposto ser bom para os dois lados. Suponho que sim. Não faço ideia.

Sou a típica solteirona, como se costuma dizer. Tenho gatos, faço tricot, tartes e compotas, vejo novelas, leio romances que me fazem chorar, acho que tenho tudo o que se costuma apontar às encalhadas. Ainda houve quem me perguntasse se era fufa. Não sou. Nunca olhei para uma mulher com esse olhar, teria um nojo de morte de tocar numa mulher nua, só a ideia de mexer nas partes íntimas de uma mulher dá-me a volta ao estômago. Acho que não posso ser fufa. Não quero saber de nada disso, nem de ninguém. Gosto de viver sozinha, na minha casinha, pequena mas muito limpa, um t1 na Reboleira que comprei e até já está pago, e que gosto de manter asseado e bonito como se fosse receber visitas. Nunca recebo visitas mas podia porque está sempre tudo impecável.

Também não tenho muitos amigos e desconfio sempre de quem os tem. As pessoas enganam-se. Acham que têm muita gente que é amiga mas depois vai-se a ver e poucos são os que se ralam mesmo e os que fazem alguma coisa por nós. Tenho a Judite, do meu serviço, a Gorete, vizinha do 4º, e a Lurdes que trabalhava no meu centro de saúde, como administrativa, e acabámos amigas até hoje, apesar de ela já se ter reformado. E é isto. Sei que se precisar elas me ajudam, a Gorete de vez em quando até vem dar de comer aos gatos, se eu for a algum passeio da Junta, e eu também estou lá para elas, até já fui regar as plantas da Judite quando ela foi visitar o filho a França. O resto? O resto são conhecidos. Mesmo os meus irmãos, vejo-os no Natal e às vezes nos anos. O Tó ainda aparece de quando em vez, para jantar e para me pedir dinheiro porque está à rasca, mas os outros, chapéu, são irmãos porque nascemos dos mesmos pais, e mais nada.

De maneira que o Natal é assim. Jantamos juntos como se fosse normal jantarmos juntos, cada um leva as suas coisinhas para contribuir e não ser muita despesa só para uns, à meia-noite os gaiatos abrem as prendas, fica um chiqueiro por todo o lado que as mulheres se apressam a limpar, e depois despedimo-nos, sempre com a mesma conversa, "a ver se para o ano a gente se vê sem ser no Natal". Tá bem, claro, sim, sim. Nunca acontece. Vemo-nos no Natal e até podíamos não nos ver. Quer dizer, também era triste. O Natal é aquela época do ano que nos obriga a ter família, a não estarmos sozinhos. Eu gosto de estar sozinha, com os meus gatos, mas no Natal acho que ia ser triste. O ano novo já é diferente. Deito-me ainda mais cedo, que é para ver se nem oiço o fogo de artifício, que foi coisa que sempre me assustou. Tomo o comprimido para dormir lá pelas nove, e à meia-noite estou tão fundo que não escuto nada. E pronto, acordo e já passou, é um dia como outro qualquer. A diferença é que não trabalho, o que já é bem bom. Um dia destes vem a reforma e aí é que vai ser. Vou poder fazer muito mais passeios da Junta e aqueles que aquelas empresas organizam que têm almoço incluído e tudo. Depois lá pelo meio há umas vendas mas só compramos se quisermos e a Gorete já me disse que se encontram lá coisas muito jeitosas e por preços bem em conta. Gostava de conhecer o Luso, diz que há lá um hotel muito bonito e umas termas, e outros sítios de Portugal, como Manteigas, por exemplo, porque acho graça ao nome e fica lá para cima, onde às vezes neva. Chateia-me reformar-me porque é sinal que estou velha mas, por outro lado, acho que vai ser bom pelos passeios. 

Agora deixa-me lá ir que tenho de passar um pano nesta casa, que com isto do Natal já lá vão dois dias sem fazer limpeza. E isto, já se sabe, a porcaria para se acumular é um instante.

 

(Conta-me é uma rubrica do blogue com contos inéditos escritos pela autora)

6 comentários

  • Incongruência nenhuma. Conheço uma pessoa que não gosta de crianças e teve filhos. Uma coisa é amarmos os nossos filhos, outra é gostarmos dos filhos dos outros. 😊
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    Anónimo 28.12.2019

    Não concordo a senhora não gostava de quaisquer crianças e nunca seria mãe diz ela pelo que a história não me faz sentido não está bem
  • Já pensou que a senhora pode não gostar da algazarra dos miúdos porque lhe lembra dolorosamente que não teve filhos? ;)
  • Sem imagem de perfil

    Anónimo 28.12.2019

    Para fim de conversa ou se gosta de crianças ou não se gosta independentemente de serem filhos ou não
  • Para fim de conversa? Mas porque é que há-de decidir quando é que a conversa termina? Vou-lhe dizer uma coisa, que talvez ainda não tenha compreendido. A senhora do texto fui eu que a criei. É produto da minha imaginação. E, por isso, sei mais sobre ela do que você. Por isso, para mim, ela não gosta da algazarra das crianças porque está há demasiado tempo sozinha e porque ouvi-las fá-la sempre sentir a dor de não ter sido mãe. Sim, ela queria ter sido mãe. Fui eu que a inventei. Sei muito bem o que ela queria, o que ela quer e até o que vai ser o seu futuro. :)
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