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Cocó na fralda

Cocó na Fralda

Peripécias, pilhérias e parvoíces de meia dúzia de alminhas (e um cão).

O presidente e os "influencers"

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Há dois anos fui uma das convidadas pelo então presidente do Parlamento Europeu, Antonio Tajani, para ir a Bruxelas reunir e pensar em estratégias para que os jovens não vivessem tão alheados da Europa. Fui eu e uma série de pessoas de toda a Europa com um papel activo nas redes sociais (acho "influenciador" uma designação mesmo infeliz). No ano passado, voltei a ser convidada para ir ao Parlamento Europeu (eu e outros bloggers, instagramers e youtubers de todos os países da Europa) e vim de lá com a certeza de que queria dar o meu humilde contributo para relembrar a importância do voto, a importância da Europa, a importância de nos importarmos (passe a redundância). Foi assim que mandei imprimir uma janela onde se lia "Desta Vez eu Voto" e andei meses a chatear várias figuras públicas para que me dessem 1 minuto do seu tempo e aceitassem gravar um vídeo em que fizessem o seu apelo ao voto, e onde pudessem dizer por que razão consideravam que a Europa ainda faz sentido (apesar da crise que inequivocamente vive). Fiz dezenas de vídeos que valeram o que valeram. Possivelmente nada. Mas pelo menos senti que fiz alguma coisa. Que tentei passar uma mensagem. Fi-lo obviamente sem receber nada em troca. Porque senti que era meu dever, enquanto cidadã.

Há cerca de um mês, fui de novo convidada, desta vez pelo gabinete do Parlamento Europeu em Portugal, porque me queriam agradecer o contributo (como se não fosse, na verdade, a minha "obrigação"), e tive então oportunidade de reunir com alguns deputados europeus que queriam saber se os voluntários teriam ideias para divulgar o que se faz na Europa, não apenas em vésperas de eleições, mas durante o mandato. E eu tenho ideias e quero - e vou! - pô-las em prática. Se conseguir explicar - trocado por miúdos - o que fazem os nossos deputados na Europa e quem são (de forma mais profunda) e como é que as medidas adoptadas interferem, na prática, na vida de todos nós, se conseguir explicar isto a uma pessoa que seja, e essa pessoa for votar, consciente da importância de uma cidadania activa... então já valeu a pena. 

Ora bem. Há uns dias fui - juntamente com outras pessoas com redes sociais activas - convidada pelo Presidente da República Portuguesa para ir a Belém. E, claro, caiu o Carmo e a Trindade. Foi o gozo, o achincalhamento, o Deus nos acuda. Portugal no seu melhor, sempre a levar-se tão a sério... Que raio, o Presidente a conversar com "essa gente"?

Ora, vamos lá ver uma coisa: todos os líderes políticos levaram as mãos à cabeça com o número da abstenção em mais umas eleições. Falou-se em calamidade. Em flagelo. "É preciso reflectir". "É preciso agir". "É urgente tirar ilações". Sim senhora. Todas as eleições a mesma coisa. "É preciso reflectir". "É preciso agir". "É urgente tirar ilações". O que é que já se fez? Rigorosamente nada. Mas quando um presidente pensa em soluções, que podem eventualmente passar por comunicar com quem tem um papel activo nas redes sociais (e milhares de seguidores que podem, eventualmente, sentir uma maior proximidade ao tema se o tema lhes for posto por aqueles que sentem também como mais próximos), é o fim do mundo em cuecas.

Se me identifico com muitas das pessoas que estavam naquele encontro? Não. Não por ser melhor que ninguém, simplesmente porque falamos de coisas distintas, temos interesses diferentes, formas díspares de ver a vida. O que é que eu tenho em comum com uma Sea3po, por exemplo? Talvez quase nada. A começar pelo facto de ela ter 800 mil seguidores no Youtube e eu nem sequer saber o que raio é esse número de seguidores. E é porque ela fala para miúdos e testa produtos bizarros e faz vídeos malucos que eu vou desprezar o facto de ter conseguido um canal com este número de pessoas que gostam dela e de ver o que faz? É por ela ter cabelo azul e dizer "bué" um sem número de vezes nos seus vídeos que vou desvalorizar o facto de haver mais de 800 mil almas que gostam do que ela faz, a respeitam, consideram como válido o que ela diz?

Se me identifico com algumas das pessoas que lá estavam? Sim. Porque temos idades e preocupações e paixões semelhantes. Éramos um grupo heterogéneo (estavam actores, humoristas, uma fadista, radialistas, bloggers, instagramers, etc) e estivemos a conversar com o presidente da República, tal como ele faz com muitas outras pessoas, de áreas distintas. Mas, ui, com "influencers" é que não, cruzes credo, Deus te livre e guarde. 

Li algumas pérolas estes últimos dias. Nomeadamente que o presidente transformou o Palácio de Belém numa casa de Barbies. Ah, que bom. Bom, para começar, creio que tenho pouco de Barbie. Acho que o Diogo Faro, o Salvador Martinha, o Pedro Teixeira da Mota ou o Carlos Coutinho Vilhena (só para dar alguns exemplos) também se parecem pouco com a Barbie. Isto das Barbies é porquê? Porque eram sobretudo mulheres e a maioria ligada à moda e beleza? Giro. E sempre refrescante, não é? Atirar o mulherio para categorias pouco dignificantes, que é onde o mulherio deve permanecer. É por serem sobretudo mulheres, muitas preocupadas com maquilhagem e roupa, que um idiota tem o direito de lhes/nos chamar a todos de Barbies? Creio que não, assim como o texto que ele escreveu não me dá o direito de lhe chamar idiota, porque talvez tudo não passe de um momento pouco inspirado, de um mau dia, de um mau momento. Espero que lhe passe. 

Assim como espero que passe a indignação a um sem número de pessoas, que se preocupam imenso com a abstenção e com o total desinteresse dos cidadãos pela vida política, mas que fica à beira da trombose na altura em que alguém põe a cabeça a pensar e conclui que, espera lá, esta gente das redes sociais mobiliza milhares e milhares de pessoas, e se fôssemos ouvir o que têm para dizer? E se conseguíssemos - de algum modo - passar a mensagem através dos seus canais? É que, claramente, a mensagem não está a passar através dos canais tradicionais, não sei se já repararam. A classe política não consegue cativar, os media aparentemente também não, e  a intelligentsia lusa, com toda a sua proa e circunstância, idem. Em calhando, tentávamos de outra maneira. Pode não resultar? Pode. Pode ser um fiasco? Ah, pois pode. Pode não valer de nada? Sim, senhor. Mas... ninguém poderá dizer que não se tentou qualquer coisa. Se até em Bruxelas já o fazem... 

Enfim. Portugal continua a levar-se demasiado a sério. Somos todos muito sérios e nos assuntos sérios não cabem as pessoas normais. As "Barbies". Pois. Se calhar é por causa desta linha de pensamento que as pessoas normais não querem saber. Acham tudo tão distante, tão "sério", tão hermético e indecifrável, que já desistiram. Deixam lá para "eles" os assuntos que são de todos. E é pena. Digo eu. Mas eu, bem entendido, não passo de uma Barbie. Ou, melhor ainda, de um cocó (piadola fácil e previsível que podem usar quando quiserem atacar estes argumentos. De nada).

 

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