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Cocó na fralda

Cocó na Fralda

Peripécias, pilhérias e parvoíces de meia dúzia de alminhas (e um cão).

Os Papa-léguas #3 (Nelson Barreiros)

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Sempre ouviu dizer que não podia praticar desporto. Na escola, as recomendações da mãe ao professor de Educação Física faziam-no temer saltos e piruetas, jogos de bola ou correrias. Nelson Barreiros, atropelado aos 5 anos, tinha ficado sem baço, e sem baço - dizia a mãe (que, depois de quase o perder, só o queria proteger) - não havia lugar para desportos. Cresceu assim, afastado da actividade física, certo de que o carro que o havia colhido em criança teria levado consigo parte de quem era, forçado a um sossego perpétuo. O médico, de resto, alertara a mãe para decisões vindouras: "Quando crescer, ele que escolha um trabalho de escritório..."

Nelson obedeceu. Estudou Gestão de Empresas, enfiou-se num escritório, casou, teve um filho. Pelo caminho, esqueceu-se um bocadinho de si. Fazia refeições fora de horas, pouco regradas para quem, como ele, estava obrigado ao sofá. Em 2006 apanhou um susto. Estava hipertenso, tinha problemas nas articulações, estava sempre cansado. Pesava 110 quilos. Era uma bomba-relógio.

Com um filho de 8 anos, sentiu que a vida lhe escorria pelos dedos. Falou com uma colega que lhe marcou consulta num endocrinologista. Além da dieta, o médico prescreveu caminhadas. E Nelson começou, assim, a mudar o rumo da sua vida. Em seis semanas perdeu 7 quilos. Durante as caminhadas, via os que corriam. E foi tentando acelerar o passo. Principiou a correr. E a gostar. O médico desdramatizou o drama da falta de baço, que o ensombrara durante toda a vida. Tomou o gosto pela corrida. Sentia-se bem. Foi aumentado o tempo de actividade, os quilómetros, a velocidade. Em 2009 decidiu participar na sua primeira corrida. Escolheu a mini-maratona (7km) que atravessa a Ponte 25 de Abril. E em 2010 fez a Corrida do Tejo, a primeira de 10km. "Lembro-me de estar a correr e de ver o pessoal a correr na direcção contrária. Eram os que estavam a fazer 20km. E eu a pensar: 'Nunca na vida!!!! Esta gente é doida!!!' E afinal..."

Afinal depois dos 10, veio a primeira meia-maratona, em 2012, e a primeira maratona, em 2013. Para a estreia nos 42km, Nelson escolheu a Maratona de Lisboa. Pesava então 87kg. Terminou em 4h54m, lavado em lágrimas. "É uma emoção brutal. Vir a correr de Cascais e acabar em Lisboa... pensar em todo o treino, em todo o esforço, em toda a disciplina... ver o meu filho na meta, o meu treinador aos gritos... foi muito emocionante. Mas muito duro também. Pensei: nunca mais faço a maratona! Acabou!"

Está bem, abelha. Ficou dois anos remetido às meias-maratonas e aos trails, mas era certo e sabido que havia de voltar. Entretanto, foi aprendendo muito. Sobre o funcionamento do corpo, sobre os ténis a usar, sobre a passada. Juntou-se a quem sabia do assunto, leu, informou-se, aperfeiçoou-se. Em 2015, decidiu que estava pronto para uma nova maratona. Mas, desta vez, queria fazê-la sempre a correr. Sem paragens ou caminhadas pelo meio. Para isso era importante perder os quilos que lhe faltavam. De 110 para 87 já tinha sido um enorme salto mas era preciso chegar ao peso ideal. Consultou Sérgio Veloso, um fisiologista, compreendeu as complexidades do metabolismo, aprendeu sobre nutrição. Emagreceu 7 kg em 2 meses e hoje exibe uns atléticos 77 kg. Foi também nesse ano que apostou forte no reforço muscular e nos alongamentos. 

Nelson é determinado. Rigoroso. Disciplinadíssimo. Focado. Metódico. Quando mete uma coisa na cabeça, não se desvia um milímetro. Alguns exemplos prosaicos, mas claros: na despensa de sua casa há coisas que não pode comer. Ou melhor, pode, mas não quer, para não voltar ao que foi. O armário está trancado e é o filho quem tem a chave. Para que nunca ceda à tentação. Na porta do frigorífico está afixada uma fotografia sua com 110 quilos. Para que nunca se esqueça. Sempre que alguma peça de roupa lhe deixa de servir, não a guarda. Oferece. E compra o número abaixo. Para que nunca haja roupa larga à espera de uma recaída. Antes, quando chegava à Fuseta, onde faz férias, o seu primeiro pensamento era: "onde é que eu vou almoçar bem?". Hoje, quando lá chega a sua primeira preocupação é: "onde é que eu vou treinar bem?"

Foi em Novembro de 2015 que fez a sua segunda maratona, no Porto. Encantou-se. Pelo percurso, pelo apoio das pessoas. E conseguiu cumprir o objectivo: correu do primeiro ao último quilómetro e terminou em 4h12m, com o detalhe importante de ter feito um split negativo, isto é, correu a segunda parte da prova mais depressa do que a primeira parte (o que significa uma gestão de esforço notável). Correu-lhe tão bem que em Fevereiro de 2016 estava a fazer outra, em Sevilha, como novo recorde: 3h55m. E em Novembro do ano que acabou de passar, mais uma: de novo a Maratona do Porto, e um novo recorde de que se orgulhar - 3h48m.

O homem que não podia praticar desporto. Que cresceu assim, afastado da actividade física, certo de que o carro que o havia colhido em criança teria levado consigo parte de quem era, forçado a um sossego perpétuo. A primeira comparação que me surge é a de um sedento a quem oferecessem um jarro de água fresca. Mas depois, pensando melhor, não é justa, a comparação. Porque se assim fosse ele correria do mesmo modo que o sedento beberia água: sofregamente. E não é esse o caso. Nelson não é sôfrego, não é inconsequente nem inconsistente. Ele traça metas e trabalha muito para lá chegar. Com cabeça. Com muita cabeça. 

Diz que a mulher tem uma paciência de santa para aturar tanto treino, tanta ausência, tanto tempo dedicado ao que começou por ser um desporto e acabou a ser uma filosofia de vida. O filho, hoje com 18 anos, não comenta a azáfama do pai. Acha que se orgulha de si? - pergunto. Nelson encolhe os ombros, naquela dúvida que sempre nasce nos pais quando os filhos se enchem de si mesmos, incapazes de reconhecer feitos paternos. De uma coisa tem a certeza: a sua vida desportiva foi muito importante a nível profissional. "Estou mais disponível para o trabalho, mais bem disposto, mais activo, com mais vontade de enfrentar novos desafios. Tal como me desafio com os quilómetros, parece que também no trabalho sinto esse desejo, de me continuar sempre a desafiar". E, claro, reconhece a importância da corrida na vida social, na auto-estima, no prazer inequívoco em inspirar os outros.

Para o futuro, quer continuar a correr. Continuar a saltar obstáculos, a quebrar barreiras. Sonha com provas míticas como Londres ou Nova Iorque mas também com uma outra meta: fazer uma prova de três dígitos. 

Nelson já pesou 110 quilos. Já se cansou só de se virar no sofá. Hoje é, sem sombra de dúvida, outro homem. Um homem num novo paradigma. Um novo Nelson que nasceu, deixando para trás um outro, a quem haviam sentenciado - erradamente - uma vida de sossego perpétuo. Que teria sido dele, se não o tivessem limitado assim? Nunca saberemos. O que importa é o que conseguiu fazer por si próprio, e a felicidade que alcançou. Duas vidas numa só vida não é para todos. 

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 Fotografias: Raquel Brinca, HUG

(camisola com estrela em lantejoulas: Aficionata)

 

 

E, para que se perceba, eis o antes e o depois. 

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