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Cocó na fralda

Cocó na Fralda

Peripécias, pilhérias e parvoíces de meia dúzia de alminhas (e um cão).

Os Papa-léguas #5 (Bernardo Telo Rasquilha) e Mudar de Vida #5

Bernardo tem 44 anos e é missionário da Fraternidade Missionária Verbum Dei. Há umas semanas (mais concretamente no dia 7 de Maio) nadou 1900 metros, pedalou 90 Km e correu uma meia-maratona. Um triatlo com vista a angariar fundos para o projecto de formação de 14 missionários nos Camarões. Mas não só. Bernardo Telo Rasquilha sempre amou o desporto. E desafios. Sobretudo se forem positivos. Não é por acaso que já lhe chamam o "positive priest". Isto faz dele um dos "Papa-Léguas", rubrica que nasceu neste blogue para falar de quem se supera pelo desporto. Só que Bernardo também teve outra vida, antes de ser sacerdote, o que também lhe dá entrada na rubrica "Mudar de Vida". É o chamado dois-em-um. Mas já lá vamos.

Para começar, o começo - como convém. 

Bernardo é filho de uma lisboeta e de um alentejano. Os primeiros 20 anos da sua vida foram vividos numa espécie de mixórdia de locais. Na verdade, a sua vida toda tem sido assim. Nasceu em Lisboa. Até aos dois anos foi viver para o Alentejo, quando se mudou para o Rio de Janeiro. Dos 11 aos 16 regressou ao Alentejo. Dos 16 aos 21, Lisboa novamente. E depois Porto. Mas também Itália, Angola, Cabo Verde, Brasil. E hoje Espanha. Mas, como missionário, talvez se possa dizer que Bernardo é do mundo inteiro.

Quem o conheceu em jovem poderá ainda hoje beliscar-se ao relembrar que se tornou sacerdote. Há factos que, de tão improváveis, podem obrigar quem se vê perante eles a pequenas flagelações que certifiquem tratar-se da realidade e não de um sonho qualquer. Bernardo jogou râguebi até aos 21 anos. Estava no 2º ano de Gestão, vivia sozinho em Lisboa, e gostava significativamente da noite, com tudo o que a noite associada à vida académica traz consigo. Bebia bem, divertia-se muito, dormia de dia, tudo aquilo que muitos de nós relembramos (com alguma saudade, até). Se lhe dissessem, nessa altura, que ia tornar-se missionário, era coisa para se ter atirado para o chão a rir.

Mas a realidade supera a ficção, tantas e tantas vezes. E aqui também.

Preocupados com o rumo do filho (que, diga-se a bem da verdade, não era propriamente digno de preocupação, era só o rumo mais ou menos típico), os pais pediram-lhe que fosse a um Encontro Internacional de Jovens, em Valência, realizado pela Fraternidade Missionária Verbum Dei. Bernardo respondeu que nem pensar, já tinha férias combinadas, que raio de ideia era aquela. Mas o pai pediu-lhe com algum dramatismo, quase como uma súplica, e - já se sabe - um bom filho tem dificuldade em negar uma súplica paterna. Juntou três amigos do râguebi e foram. 

Separaram-se o mais depressa que puderam do grupo de jovens, que decidiram definir como "uns chatos" sem sequer se darem ao trabalho de os conhecer e preparavam-se para seguir caminhos distintos quando o pai de Bernardo voltou à carga e lhe pediu (em tom de suplica, de novo) que experimentasse ficar com eles apenas um dia. "Dá-lhes ao menos uma oportunidade". Bernardo, mais por bondade do que por vontade, assentiu. Mal sabia ele que a sua vida estava prestes a mudar radicalmente.

"Foi quando ouvi uma rapariga dar o seu testemunho. Ela não era missionária mas falou sobre como o amor de Deus a fazia mais feliz. E aquilo tocou-me porque eu vi que era autêntico. Até então a ideia que tinha era que a Igreja era moralista e que Deus era distante. Mas vi o brilho no olhar daquela rapariga e pensei: ela tem qualquer coisa que eu não tenho. E, a partir daí, fui à procura de respostas para aquela inquietação boa que surgiu." Um ano depois, Bernardo fez um retiro que o marcou de forma indelével. "Foi a primeira vez que senti que Deus não era abstracto. Eu não o vejo mas experimento o seu amor louco. Estava acostumado a que as minhas alegrias viessem de fora, de algo exterior a mim. Ali experimentei a alegria que nascia de dentro. Foi fascinante. Magnético."

Bernardo começou a animar um grupo de jovens e, entre as actividades que tinham, havia o voluntariado. Sentiu-se especialmente bem a fazer algo pelos outros. Tão bem e de modo tão intenso que começou a compreender que o seu caminho teria de passar por aí. Quando decidiu, por fim, enveredar pela vida missionária, os mais próximos levaram as mãos à cabeça. Só podia ter ensandecido. A mãe começou por achar precipitado mas acabou por - como fazem as mães - querer apenas que fosse feliz. A sua fé levou-a a apoiá-lo sempre. O pai enfiou-se no escritório a pensar e, depois de uma reflexão, entregou-lhe um livro com uma dedicatória especial que dizia, em traços gerais, que ele podia contar sempre com o seu apoio. Alguns amigos prognosticavam uma mudança de rumo mais rápida do que o diabo a esfregar o olho. "Não te dou nem 3 meses para estares de volta". Já lá vão 23 anos. 

Largou o curso de Gestão e fez o negócio da sua vida, entrando para outro tipo de Gestão, a de potenciar a espiritualidade humana, a de dar aos outros o melhor, fazendo-os encontrar também o melhor de si. Corria o ano de 1994. Começou a sua formação em Teologia, seguiu-se o mestrado também em Teologia e, depois, quando já era capelão no Porto, fez o curso de Psicologia. No seu caminho, passou por Espanha, Itália, Angola, Cabo Verde, Brasil, Portugal. Entre 2011 e 2016 foi formador de grupos de missionários em Madrid, dedicou-se à angariação de fundos para ajudar a suportar a comunidade e também dava aulas.

Este ano, deixou de ser formador. Apoia a paróquia em Madrid, dá aulas, e especializou-se na angariação de fundos. O ritmo intenso começou a fazer-se sentir. Bernardo, que tinha sido jogador de râguebi, acusou a falta do desporto. "Comecei a deixar de viver o momento presente - fazia uma coisa já a pensar na outra. Estava em stress e senti necessidade de fazer desporto a sério. Havia um missionários que começou a fazer maratonas e, contagiado por ele, em 2014 fiz a Meia-maratona de Madrid e adorei, principalmente porque me obrigou a uma preparação contínua. Funciono muito por metas e, a partir do momento em que me inscrevo, tenho mesmo de treinar. Voltar ao desporto ajudou-me a limpar a cabeça."

Pensou então fazer uma maratona. Mas os joelhos, muito massacrados por anos de râguebi, não se compadeceram da ideia. E então experimentou o triatlo. Em 2015 fez o Sprint (750 metros de natação/ 20 km de ciclismo/ 5 km de corrida), em 2016 completou o Olímpico (1500 metros de natação/ 45 km de ciclismo/ 10km de corrida). E, este ano, surgiu o Challenge de Lisboa. O objectivo? Fazer a distância de Half IronMan (1900 metros de natação/ 90km de ciclismo/ 21km de corrida) mas aliando o seu desafio pessoal à angariação de fundos para a sua comunidade, mais concretamente à formação de 14 missionários nos Camarões. Houve uma série de pessoas e empresas que gostaram do projecto e que quiseram aliar-se a ele, nomeadamente Carla Sacramento, atleta olímpica portuguesa que participou em quatro olimpíadas e foi campeã do mundo dos 1500 metros no Campeonato do Mundo de Atenas em 1997. A atleta gostou da ideia e disponibilizou-se para ser a coach de Bernardo. De destacar também o apoio do PaRK International School e da JLL que apoiaram desde o início a iniciativa e a causa missionária.

E assim foi. Depois de vários meses de treino, no dia 7 de Maio este "positive priest" (padre positivo) tornou-se um Half IronMan. E ficou mais perto de conseguir que se concretize o projecto "De África para o Mundo". Porque para este homem (que só é metade de ferro na parte desportiva, porque é de ferro por inteiro no que toca à vontade) não há impossíveis. Basta olhar para o seu caminho.

 

O que é o projecto?

O projecto “De África para o mundo” aposta na formação prática de 14 missionários em Yaoundé para que se dediquem a trabalhar com crianças e jovens locais, aos quais facultam apoio social, escola de valores e catequese, procurando, também, ajudas económicas e providenciar o ambiente oportuno para todos os que queiram ir para a universidade, defendendo a dignidade de cada um e ajudando a potenciar os seus dons e talentos ao serviço da sociedade. A Verbum Dei trabalha ainda na formação de líderes para que mais tarde possam, também eles, dedicar-se a trabalhar com crianças e jovens daquele país. “De África para o mundo” é um projeto de 2 anos que começou em Outubro de 2016 e termina em julho de 2018. Para o poder concretizar, a Verbum Dei necessita de fundos na ordem dos 24 mil euros.

 

Como ajudar?

Todas as ajudas serão bem-vindas e podem ser dadas através de donativos por transferência bancária (Millennium BCP (Portugal) / Titular: Fraternidade Missionária Verbum Dei / NIB 0033-0000-45476170404-05 / IBAN: PT50-0033-0000-45476170404-05 / BIC: BCOMPTPL) ou através da área de donativos do site da Verbum Dei, www.creaverbumdei.org, recorrendo ao sistema Easypay. Apoio importante será também acompanhar e partilhar a actividade do Bernardo na sua página de facebook (Bernardo Telo Rasquilha) – especialmente os posts sobre os treinos e outros pormenores relacionados com a sua participação no Challenge Lisboa.

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