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Cocó na fralda

Cocó na Fralda

Peripécias, pilhérias e parvoíces de meia dúzia de alminhas (e um cão).

Os Papa-Léguas #6

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 Foto: Raquel Brinca, HUG

 

 

Olhando para ela, ninguém diz. Franzina, loira, de olho verde. Olhando para ela, sem se saber do (tanto) que é capaz, dir-se-ia que é delicada, frágil, até. E no entanto...

Rita Manso tem 46 anos e já corre há muito mais tempo do que este tempo em que correr se tornou moda. Sempre foi desportista mas certo dia, em 2003, o irmão desafiou-a a ir correr com ele, em Monsanto, Lisboa. Eram para ser só uns 5 ou 6 km mas ela correu 10 sem pestanejar. O irmão Francisco, que já corria muito, alvitrou: "Se consegues correr 10km com essa naturalidade, está na hora de fazeres uma Meia Maratona." E ela, que sempre gostou de desafios, aceitou. Treinaram juntos e correu bem. Quando terminaram, ambos viram o anúncio à Maratona de Lisboa, que ia acontecer duas semanas depois. Ambos viram mas nenhum comentou com o outro. Três dias antes da prova-rainha, Francisco ligou à irmã: "Sabes que daqui a três dias vai haver a primeira maratona em Lisboa?" Ela sorriu. Sabia. Mas de pouco lhe interessava. Ele lançou a escada: "E se nós lá fôssemos correr só 17km ou 21?" Nem foi preciso insistir muito.

Passados três dias, lá estavam os dois manos Manso. "Chovia torrencialmente. Havia pouquíssimos participantes, aí uns 50. Na rua, ninguém. Desolador. Mas nós lá fomos. Aí ao quilómetro 12 apareceu um fotógrafo, no meio do nada. Os dorsais tinham o nosso nome e nós tirámos a foto, todos contentes. [ver foto em baixo] Quando continuámos a corrida, comentámos um com o outro: epá, agora é chato. Já temos a foto oficial e não acabamos isto? E pronto. No fundo, nós só precisávamos de uma desculpa." E assim, a 7 de Dezembro de 2003, Rita Manso fazia a sua primeira maratona, com o tempo de 4 horas e 50 minutos. Como quem vai só ali num instantinho. Sem treino praticamente nenhum. Sem esforço. Sem géis energéticos ou qualquer suplemento. "Foi uma loucura, hoje sei. Uma inconsciência. Mas a verdade é que fizemos. E não custou assim tanto, para dizer a verdade. Acabei fresca. Não tínhamos ninguém à nossa espera porque ninguém sabia que íamos fazer aquilo. Nem nós! Mas senti-me o mais feliz possível."

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A primeira de muitas maratonas, em 2003, feita como quem vai só ali dar um passeio no parque

 

A partir daí, nunca mais parou. Começou a correr com disciplina e a participar em maratonas. Os amigos (que hoje quase todos correm) achavam que ela não estava boa da cabeça. "Sugeriam que fizesse terapia. Falavam entre eles e depois vinham, com cuidado, falar comigo, a aconselhar-me a procurar ajuda. Não compreendiam." Mas, como ela não parava nem acedia a consultar um especialista, aprenderam a aceitar e, por fim, desfrutaram do prazer de a apoiar. "Quando fui fazer a maratona de Londres pela primeira vez um grupo de 20 amigos acompanhou-me. Fizeram um cartaz gigante, e pronto, redimiram-se de anos de incompreensão."

Para que se tenha uma ideia da sua paixão galopante, em 2007 fez 3 maratonas, em 2008 duas, em 2009 quatro, em 2010 oito (uma delas com 80km), e a partir daí foi sempre às oito, dez, doze de cada vez (com várias ultramaratonas pelo meio), excepto em 2015 que se "limitou" (entre muuuuitas aspas) a duas maratonas.

De todas, gosta de destacar a de Nova Iorque, uma das grandes (não em tamanho, que são todas iguais, mas em apoio do público e pelo facto de ser... Nova Iorque). Mas também a Comrades, na África do Sul. "São 89km, com muito desnível. Para eles é um life-achievement [a conquista de uma vida], vêem-se famílias inteiras a participar e o mais aplaudido é o último. Adoro. Já fiz duas vezes. Assim como a Two Oceans, que são 56 km, também na África do Sul, e que também já fiz duas vezes. Linda."

E como quase sempre acontece com quem corre, chega uma altura em que aparece o desejo de abraçar outros desafios. E é preciso não esquecer um detalhe importante. Rita vive com Tiago Dionísio. Lembram-se dele? Esse mesmo, o homem que já fez mais de 500 maratonas e que estreou a rubrica Os Papa-Léguas aqui no blogue. Ora, quando se junta a fome com a vontade de comer... dá banquete na certa. E o banquete destes dois é ora correr, ora nadar, ora pedalar, ora fazer tudo seguido e em grande. Sempre em grande.

Como daquela vez em que o Tiago inscreveu a Rita para participar com ele num projecto de solidariedade social na África do Sul chamado Unogwaja Challenge. Basicamente, a prova visa homeagear Phil Masterton-Smith, um jovem (com 19 anos, na altura) que queria muito fazer a ultramaratona Comrades mas vivia em Cape Town e não tinha dinheiro para pagar o bilhete de comboio até Durban (onde a prova começa). Então, ele fez o percurso de mais de 1660km de bicicleta, ao longo dos 10 dias anteriores à prova e, no 11º dia, participou na Comrades conseguindo chegar à meta em 10º lugar. Assim, o Unogwaja Challenge reúne 12 participantes do mundo, escolhidos a dedo, para fazerem os cerca de 1700k de bicicleta que separam Cape Town de Durban e, no 11º dia, correrem a Comrades, tal e qual como Phil Masterton-Smith. A prova visa angaridar dinheiro para instituições que fazem realmente a diferença na vida de crianças vítimas de abusos e abandono, na África do Sul.

Rita nunca pensou que fosse escolhida. Mas foi. "O Tiago tinha feito no ano anterior e eu tinha visto o que ele tinha sofrido. Pensei: 'nunca na vida'. Pois. Mas lá fui. Fazíamos cerca de 200km por dia de bicicleta. Começávamos às 6h da manhã e terminávamos por volta das 17h. Sofri horrores mas, quando vi um dos abrigos para os miúdos, que não tinha mais do que paredes e tecto, pensei: a que propósito é que eu tenho a lata de dizer que me doem as pernas e o rabo, quando estas crianças já passaram por dores inimagináveis, vivem um desalento total, sem qualquer horizonte? E assim fiz o percurso sem pensar em mim, mas sempre focada neles. Um dos objectivos era oferecer bicicletas a uns miúdos que levavam duas horas para chegarem à escola, a pé. Se tivessem as bicicletas a viagem ia reduzir para uma meia hora. É difícil ajudar de forma mais directa do que esta. E eu tive essa oportunidade."

Quando chegaram ao destino, Rita sentia-se exausta. Mas, como já tinha feito a Comrades, decidiu armar-se em forte e ir a apoiar outros membros do Unogwaja que se estreavam e um deles que ia vestido de rinoceronte (com o calor e desconforto que se imagina). Ao quilómetro 50, as pernas começaram a falhar. Caiu redonda no chão.

Foi levada para uma ambulância. O Tiago, que estava a 12 km de terminar a prova, foi avisado de que a sua Rita estava mal e não fez mais nada: começou a correr para trás. Só quando a viu e percebeu que estava a ser bem tratada e que nada de mal lhe ia acontecer é que continuou a prova, tendo que acelerar porque o cut-off (tempo limite para se terminar) estava mesmo quase a ser atingido. Quando Tiago cruzou a meta, a tempo, tinha os outros Unogwajas lavados em lágrimas a torcer por ele. 

Vale a pena ver o vídeo:

 

Depois desta aventura, começou então o triatlo. E, claro, não podia ser só uma pequena incursão pela completíssima prova. Depois de um Half Ironman, teve de vir o completo, em Roth, na Alemanha. Sim, além de tudo o que já se escreveu, Rita Manso é também uma mulher de ferro, ou seja, fez 3800 metros a nadar, 180km a pedalar e 42km a correr. "Para esta prova fiz um treino consistente, porque me metia algum respeito. Aliás, depois do ataque de pânico que tive na água, no meu primeiro half ironman em Lisboa, achei por bem preparar melhor a parte da natação. Treinava 4 vezes por semana mais ao fim-de-semana."

A esta altura alguns de vós poderão estar a perguntar-se se há vida para lá de tudo isto, na vida de Rita Manso. E há. Além de trabalhar na Daymon, como Senior Director International Retail (um cargo de alta responsabilidade), Rita tem dois filhos, a Marta de 11 anos, e o António, de 15. E sim, há tempo para tudo. Durante a semana aproveita as horas do almoço ou levanta-se mais cedo da cama para treinar, enquanto eles dormem. Ao fim-de-semana faz um treino longo, e o resto do tempo é para eles. Sim, porque o Tiago lá anda, numa média de três maratonas por fim-de-semana, fazer o quê?

Então e agora? Ainda restam objectivos? Provas suficientemente difíceis para ela fazer? Diz que sim. O Ironman no Hawai, onde só vão os melhores entre os melhores. "É uma prova mítica, que adorava fazer. E a seguir devem surgir novos desafios, claro. O giro nisto é a pessoa manter-se saudável e entusiasmada com isto." Saudável?, lanço a provocação. É que há quem diga que de saudável este ritmo tem pouco, até mesmo médicos. Rita não desarma. "Quando há um médico que me diz que são distâncias longas demais mudo de médico. Porque a verdade é que faço análises e exames regularmente e estou óptima." 

Esta vida desportivamente tão intensa trouxe-lhe, de resto, muitas outras coisas boas: "Trouxe-me resistência às dificuldades profissionais, que por vezes são de alto stress. Trouxe-me uma grande capacidade de resiliência e de ultrapassar os problemas com a cabeça. Consigo também ter uma grande endurance em reuniões daquelas longas. Consigo estar o dobro ou o triplo das horas com a mesma atenção. Controlo muito melhor as emoções. E, além de tudo, sinto-me bem, com energia, bem disposta. Nunca estou doente. Nem uma constipação."

E é isto. Olhando para ela, ninguém diz. Franzina, loira, de olho verde. Olhando para ela, sem se saber do (tanto) que é capaz, dir-se-ia que é delicada, frágil, até. E no entanto...

 

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