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Cocó na fralda

Cocó na Fralda

Peripécias, pilhérias e parvoíces de meia dúzia de alminhas (e um cão).

Queridos, troquei de mota

Tive a primeira mota aos 18 anos. Ok, sejamos rigorosos: era uma acelera, uma 50cc, não propriamente uma mota (os motards ligam um bocado a estes preciosismos). Foi o meu pai que ma deu e sei bem o acto de coragem que isso foi, tendo em conta todo o pavor da minha mãe com a morte, a dela, a minha, e a dos que lhe são mais queridos. Antes de a ter, sonhei-a. Sonhei-a muitas vezes. A esmagadora maioria dos meus amigos tinha mota. Cresci rodeada por motas. Pelo barulho das motas, pelo cheiro das motas que ficava na roupa, pela terminologia motard, pelas discussões mecânicas que levavam horas. O meu primeiro namorado teve muitas motas, bem como imensos amigos dele. Trabalhei num restaurante de hambúrgueres nas Amoreiras (o saudoso Yellow Cab) para poupar dinheiro para a comprar (mas nunca consegui guardar dinheiro porque havia sempre qualquer coisa que aparecia para comprar e lá se ia a poupança). A certa altura, o meu pai prometeu que ma dava, já não sei bem mediante que condições. Mas sei que as cumpri e. a seguir, fui cobrar a promessa. E, um belo dia, recebi-a. Não era uma Yamaha, não era uma Honda. Era uma... Macal. Fiquei contente na mesma. Era bonita, única (nunca tinha visto outra igual), e era minha, por fim. Mas, quando apareci na minha rua com ela,  fui altamente gozada pelo meu namorado da altura (e pelos amigos) por ter uma mota Macal. Vai daí e passei um bom par de horas a remover os autocolantes com o nome e a limpar com diluente a marca inscrita no assento. Consegui. Depois, passei anos a receber olhares de motards que paravam nos semáforos a mirarem-na de uma ponta à outra, intrigados, até não conseguirem calar a pergunta: "Mas que raio de mota é essa?" Não importava. Era minha e era linda e deu-me uma liberdade que jamais tinha experimentado.

Na altura, era permitido levar motas no comboio e passei a ir visitar a minha irmã, que vivia em Trancoso, sempre acompanhada pela minha motinha. Eu na carruagem dos passegeiros, ela na carruagem dos objectos a transportar. Saía em Celorico da Beira, pegava na mota, e fazia os vinte e picos quilómetros que faltavam a acelerar pelas estradas rodeadas de verde por todos os lados, em curva contra curva. Sentia-me livre, dona do meu caminho, capaz de chegar a qualquer lado sem depender de ninguém. 

Na universidade, chamavam-me Motorcyle Woman (ou a versão abreviada: Motor) porque andava sempre de mota para todo o lado. E, na verdade, fomos inseparáveis até, em 1996, já a trabalhar com o Pedro Rolo Duarte na sua empresa de comunicação (a Pretexto), ter tido um acidente que cortou a Avenida José Malhoa nos dois sentidos e mandou a mota para a sucata e a mim para o hospital. Não parti nada (milagrosamente), mas fiquei com uma cicatriz feia numa perna, até hoje (curiosamente a mesma perna onde acabo de fazer uma nova ferida provocada por uma nova mota, que cá para mim vai deixar marca para sempre também).

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Eu e a minha irmã com a minha primeira mota, novinha, acabadinha de estrear

 

Depois desse acidente, não voltei a ter mota. Achei que me tinha safo daquela, que tinha provocado um susto terrível na minha mãe, e que o melhor era seguir com a minha vida sem mais percalços em duas rodas. Mas o bichinho ficou sempre cá. E, um dia, quando arrendei um escritório com amigas no Chiado, achei que a melhor forma de me deslocar era de mota. E voltei a comprar uma acelera, mas de 125cc. E, para não destoar, escolhi não uma Honda, não uma Yamaha, mas uma Sym.

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Eu e a minha Sym Fiddle III

 

E fomos incrivelmente felizes durante 4 anos. Tive um acidente, provocado por um automobilista distraído, uma queda sozinha (travei a fundo num sentido proibido que antes não estava ali, num dia de muita chuva, e a mota foi para um lado e eu para outro), e um pé atropelado por outro automobilista distraído. De resto, correu sempre tudo bem, felizmente. Mas todas as semanas evitei um acidente. Não dá para conduzir uma mota como se conduz um carro. Sabem aquela coisa de irmos do ponto A até ao ponto B sem nos lembrarmos bem de como lá fomos parar? Vamos a pensar na vida, a ouvir uma entrevista, a cantar uma música, e o cérebro já faz o percurso em pilito automático? Pois bem, de mota não convém. Porque uma distracção pode ser a morte do artista. Há sempre um despistado que muda de via sem olhar, um apressado que passa um semáforo encarnado, um idiota que vem bêbado a 140km/h num cruzamento onde não tem prioridade. 

Andava há algum tempo com vontade de mudar para uma mota com mudanças. Uma mota-mota. Gostava até de subir de cilindrada mas para isso preciso de tirar a carta e está a custar-me um bocado (tem de se voltar a fazer uma parte de código e... fuck, a última coisa que me apetece nesta altura da vida é estudar sinais e regras de trânsito). Vai daí que andei a namorar várias motas e acabei indecisa entre uma Mash e uma Mutt. Na Unik Edition Custom Motorcycles deram-me a conhecer a Bullit, porque são eles que representam a marca e, quer eu quer o Ricardo, acabámos apaixonados pela Bluroc 125cc. E foi assim que, no dia 19 de Novembro, fomos buscar a mota nova. E é linda. E já me queimei violentamente numa perna (na mesma que já tinha a cicatriz da primeira), e espero que seja a única mazela que ela me deixe. 

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Fotos tiradas na sexta-feira, dia 20, pela minha amiga Inês Correia de Matos, da After Click, quando tínhamos ido dar a volta inaugural com a mota, e a encontrámos em Belém, por mero acaso (e sorte a minha).

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