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Cocó na fralda

Cocó na Fralda

Peripécias, pilhérias e parvoíces de meia dúzia de alminhas (e um cão).

Raúl Solnado: 1929-2009


Ele foi o meu primeiro entrevistado. Em 1996 ou 1997, já não sei precisar. Sei que ia nervosa mas pouco depois de me sentar no sofá de sua casa descontraí. Eu tinha 22 ou 23 anos e escolhi-o como primeiro entrevistado de fundo, no DNA, por causa da obra, claro, mas também porque achei que um homem com aquele olhar e com aquele sorriso só podia ser boa pessoa. E quis-me estrear com uma boa pessoa. Fiz bem. A intuição não me enganou. Raúl Solnado foi doce, deslumbrou-me com as histórias que contou, com a forma humilde como desvendou a uma miúda a sua vida tantas vezes desvendada. Abriu a alma e falámos umas 3 ou 4 horas. Trouxe muitas cassetes (meu deus, cassetes!) e entrei na redacção feliz.
Quando a entrevista foi publicada, Raúl Solnado ligou-me. Estava emocionado, agradeceu, disse que se revia ali. E isso, para mim, foi tudo. Mas ele foi ainda mais longe. Convidou-me para almoçar e transformou-se no primeiro homem a levar-me ao Gambrinus. Almoçámos, saímos de braço dado pela Rua das Portas de Santo Antão e eu, com 22 ou 23 anos, soube que estava na presença de um homem raro.
Ontem morreu o Raúl Solnado, o actor, o homem que escolhi para a minha estreia nas entrevistas. Ontem, ao ouvir a notícia, senti um aperto no coração como se me tivesse morrido alguém da família. Ser jornalista é também isto: ver desaparecer gente que crescemos a admirar, que tivemos a oportunidade de conhecer, e que, por isso mesmo, se tornam também os nossos mortos. Resta-me o consolo de saber que ele morreu depois de muito ter vivido. Resta-me a esperança de que não seja nunca esquecido. Até sempre, Raúl.

(Quando chegar a Lisboa vou à procura dessa entrevista e ponho-a aqui, para quem tiver vontade de ler)

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