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Cocó na fralda

Cocó na Fralda

Peripécias, pilhérias e parvoíces de meia dúzia de alminhas (e um cão).

Sobre a criminalização do piropo

Eu devia ter uns 12 anos. Tinha saído na estação de metro do Colégio Militar e vinha a pé para casa (vivia perto do Califa).

Passei por um baldio e um homem boçal, gordo, sujo e com olhar esfomeado apareceu de repente. Tinha a mão na braguilha, exibiu o órgão sexual, e o que me disse está até hoje instalado nos meus ouvidos e num canto escuro do meu cérebro. Eu era uma menina. Não sabia, sequer, que aquelas coisas que me disse podiam ser feitas. Ou seja, passei a saber através daquele dejecto humano, sujo por fora mas sobretudo imundo por dentro. Lembro-me de ter medo, de acelerar o passo, e de sentir a sua respiração ofegante do outro lado das sebes, seguindo os meus passos. Nunca mais fui por aquele caminho sozinha. Ainda hoje, quando passo naquele mesmo lugar (hoje sem baldios e preenchido com prédios) me recordo daquelas palavras, que me violentaram tanto. 

Quando vejo baralhar tudo, no que à criminalização do piropo diz respeito, sinto-me um bocado triste. Acho que ninguém chamará a polícia se um desconhecido passar e atirar um "A tua mãe deve ser ourives, para fazer uma jóia como tu". Agora, se uma criança de 12 anos puder não ser sujeita à violência de ouvir o que eu ouvi... acho perfeito.

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