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Cocó na fralda

Cocó na Fralda

Peripécias, pilhérias e parvoíces de meia dúzia de alminhas (e um cão).

Conta-me #14

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Vesti a blusa nova e o casaquinho que comprei naquela boutique de esquina que tem preços muito em conta. Uma camisa muito jeitosa, de tom pérola e com um botão junto ao pescoço que parece um diamante, muito bonito. Depois faz assim uma espécie de prega e disfarça-me as mamas, achei logo quando experimentei mas depois a menina da loja - um amor, nasceu para aquilo, toda ela disponível, trouxe mais tamanhos, mais cores, nunca se cansou - a menina da loja quando me viu com ela vestida foi logo o que disse: "disfarça-lhe muito o peito, fica mesmo elegante, parece que foi feita para si". O casaquinho encarnado só o trouxe porque o Natal pede encarnado mas não é cor que me assente muito bem. Ainda assim, o conjunto estava bonito e saí satisfeita, apesar de a menina ainda ter insistido para levar também uma saia, mas saias tenho algumas, felizmente, e então nem quis ver nada do que sugeria mostrar-me, que o mês de Dezembro já tem muitos custos e com os presentes que comprei e mais um bolo-rei já não me sobrava assim tanto para loucuras.

Não posso dizer que goste do Natal. Não casei, não fui mãe, não tenho paciência para a algazarra dos miúdos, aquele barulho todo de quando abrem os presentes faz-me dores de cabeça, mas mesmo antes disso há sempre aquele encontro com pessoas que não me dizem nada, a não ser por serem família. O meu irmão Carlos, que está velho e gordo, casado e com dois filhos; a minha irmã Lucília, divorciada e com um filho; o meu irmão Tó, junto com uma serigaita de cabelo amarelo e que deve engravidar não tarda, está-se mesmo a ver. E depois os tios e os primos, também eles com filhos, uma gente de quem sei pouco e que pouco me interessa, que bebe demais ao jantar e começa com piadas ordinárias, a recordar coisas da família que ia jurar que nunca aconteceram, e sempre a perguntarem quando é que eu caso. Todos os anos acho que é tema que já não se põe mas agora começo a achar que hei-de ter 80 anos e ainda me vão andar com a mesma conversa.

Não casei porque não aconteceu. Adorava ter sido mãe mas no meu tempo não se falava desta coisa de se poder recorrer a bancos de esperma e mesmo que se falasse, sou franca, não creio que fosse coisa para mim. Não casei porque os homens nunca olharam para mim, nunca fui uma rapariga bonita, nunca tive namorados, quer dizer, tive um quando era novinha, tivemos relações atrás do prédio dele, uma coisa que recordo com repulsa, ele a enfiar-se em mim e eu a calar a dor, ele a sacudir-se rapidamente, a resfolegar como um animal e por fim a grunhir enquanto eu sentia um líquido deslizar por entre as minhas pernas. Vestimo-nos em silêncio, ele piscou-me o olho, e eu nunca mais o quis ver. Na verdade, ele não parece ter ficado muito sentido com isso. Ligou-me duas vezes e depois desistiu. Passado um mês vi-o com a Susete, todos contentes a entrar no eléctrico, de maneira que foi esta a minha única experiência. Não percebi, sequer, o interesse do sexo. Deve haver mais do que isso, já ouvi dizer que sim, que é suposto que haja uma espécie de entendimento, de carinho, de envolvência, e que no fim é suposto ser bom para os dois lados. Suponho que sim. Não faço ideia.

Sou a típica solteirona, como se costuma dizer. Tenho gatos, faço tricot, tartes e compotas, vejo novelas, leio romances que me fazem chorar, acho que tenho tudo o que se costuma apontar às encalhadas. Ainda houve quem me perguntasse se era fufa. Não sou. Nunca olhei para uma mulher com esse olhar, teria um nojo de morte de tocar numa mulher nua, só a ideia de mexer nas partes íntimas de uma mulher dá-me a volta ao estômago. Acho que não posso ser fufa. Não quero saber de nada disso, nem de ninguém. Gosto de viver sozinha, na minha casinha, pequena mas muito limpa, um t1 na Reboleira que comprei e até já está pago, e que gosto de manter asseado e bonito como se fosse receber visitas. Nunca recebo visitas mas podia porque está sempre tudo impecável.

Também não tenho muitos amigos e desconfio sempre de quem os tem. As pessoas enganam-se. Acham que têm muita gente que é amiga mas depois vai-se a ver e poucos são os que se ralam mesmo e os que fazem alguma coisa por nós. Tenho a Judite, do meu serviço, a Gorete, vizinha do 4º, e a Lurdes que trabalhava no meu centro de saúde, como administrativa, e acabámos amigas até hoje, apesar de ela já se ter reformado. E é isto. Sei que se precisar elas me ajudam, a Gorete de vez em quando até vem dar de comer aos gatos, se eu for a algum passeio da Junta, e eu também estou lá para elas, até já fui regar as plantas da Judite quando ela foi visitar o filho a França. O resto? O resto são conhecidos. Mesmo os meus irmãos, vejo-os no Natal e às vezes nos anos. O Tó ainda aparece de quando em vez, para jantar e para me pedir dinheiro porque está à rasca, mas os outros, chapéu, são irmãos porque nascemos dos mesmos pais, e mais nada.

De maneira que o Natal é assim. Jantamos juntos como se fosse normal jantarmos juntos, cada um leva as suas coisinhas para contribuir e não ser muita despesa só para uns, à meia-noite os gaiatos abrem as prendas, fica um chiqueiro por todo o lado que as mulheres se apressam a limpar, e depois despedimo-nos, sempre com a mesma conversa, "a ver se para o ano a gente se vê sem ser no Natal". Tá bem, claro, sim, sim. Nunca acontece. Vemo-nos no Natal e até podíamos não nos ver. Quer dizer, também era triste. O Natal é aquela época do ano que nos obriga a ter família, a não estarmos sozinhos. Eu gosto de estar sozinha, com os meus gatos, mas no Natal acho que ia ser triste. O ano novo já é diferente. Deito-me ainda mais cedo, que é para ver se nem oiço o fogo de artifício, que foi coisa que sempre me assustou. Tomo o comprimido para dormir lá pelas nove, e à meia-noite estou tão fundo que não escuto nada. E pronto, acordo e já passou, é um dia como outro qualquer. A diferença é que não trabalho, o que já é bem bom. Um dia destes vem a reforma e aí é que vai ser. Vou poder fazer muito mais passeios da Junta e aqueles que aquelas empresas organizam que têm almoço incluído e tudo. Depois lá pelo meio há umas vendas mas só compramos se quisermos e a Gorete já me disse que se encontram lá coisas muito jeitosas e por preços bem em conta. Gostava de conhecer o Luso, diz que há lá um hotel muito bonito e umas termas, e outros sítios de Portugal, como Manteigas, por exemplo, porque acho graça ao nome e fica lá para cima, onde às vezes neva. Chateia-me reformar-me porque é sinal que estou velha mas, por outro lado, acho que vai ser bom pelos passeios. 

Agora deixa-me lá ir que tenho de passar um pano nesta casa, que com isto do Natal já lá vão dois dias sem fazer limpeza. E isto, já se sabe, a porcaria para se acumular é um instante.

 

(Conta-me é uma rubrica do blogue com contos inéditos escritos pela autora)

Conta-me #13

Vejo-os na rua e não consigo evitar um sentimento de desprezo. Olho-os e alguns sorriem, com aqueles sorrisos com que a juventude julga presentear os velhos, sorrisos enternecidos, como se um velho fosse um cãozinho ou um gatinho ou um bebé. Impossível não adorar um velhinho, não é?, impossível não adoçar o olhar, semicerrando os olhos, entortando a cabeça, que é aquela forma de arredondar o corpo mostrando empatia, e de seguida atirar o tal sorriso bondoso, ainda que o velhinho tenha sido um crápula do pior durante toda a sua vida. Um filha da puta. Basta chegar a velho, lançar um sorriso reumático e pronto, está liberto e perdoado de todos os seus pecados. Torna-se adorável. Susceptível. Frágil. Impoluto. Balelas! Não fui um crápula mas não sou um cãozinho, um gatinho e seguramente não sou um bebé. A cada sorrisinho idiota que me lançam tenho vontade de responder com um murro em cheio na cara. "O que foi, pateta? Sorris com essa expressão condoída porquê? Porque estou perto de morrer? Porque já não presto para nada? Espera aí dois segundos que já calças as minhas pantufas!"

Estão tão iludidos, pobres diabos! Nos seus carros topo de gama, com as suas pressas, aos seus telemóveis, todos cheios de agendas e almoços e carreiras. Julgam-se imprescindíveis. Acreditam que fazem a diferença, que todos reparam na sua eficácia, nos seus fatos de marca, nas suas mulheres irrepreensíveis, nos seus filhos encantadores, nas suas vidas perfeitas. Ridículos. Ri-dí-cu-los. Quando me sorriem ou quando me perguntam se preciso de ajuda para atravessar a rua, nem sei como me aguento sem largar a rir, rir até ficar sem ar, daquelas risadas que nos fazem bater com as mãos nas pernas para ver se o ar volta aos pulmões, gargalhadas de quem sabe o que eles ainda nem sonham, hilaridade de adivinho. Porque eu sei. Eu sei o que os espera. Eles que me mostram o lado mais adocicado de si, que encontram maneira de contrariar a sua pressa bem sucedida para se dedicarem ao voluntarioso gesto de me ajudar a chegar ao outro lado da estrada, sentem em si a distância de mim, como se fôssemos dois filmes distintos. Realidades paralelas. Eu sou o velhinho, como se tivesse nascido velhinho, como se não tivesse tido urgências, filhos pequenos, agenda cheia, pernas rijas, carreira fulgurante. Sou aquele para quem se sorri, sem se saber se maltrato animais, se bato na minha mulher, se fui um cretino, se sou um psicopata. Eles são os agentes de mudança do mundo. Ah ah ah! Os agentes de mu... desculpem... não consigo parar de rir. Afinal, devia ser eu a sorrir-lhes com aquele olhar piedoso com que me brindam. Devia ser ao contrário. Porque eles é que não sabem, nem sonham.

Perdi quase todos os meus amigos. De todos - e eram tantos! - sobram três. Três. Uns morreram de cancro, outros de enfarte, de trombose, de pneumonias, de quedas, já nem consigo elencar todas as merdas que levaram os meus amigos. Ah, espera, não são três. São quatro, os que restam. Estava a esquecer-me do Pires. Mas também, foda-se, é fácil esquecer-me do Pires. Vou visitá-lo ao Lar duas vezes por ano, o máximo que aguento. Digo "então, Pires?" E ele atravessa-me com o olhar, de tal modo que fico sempre na dúvida se estaremos, afinal, ambos mortos a comportarmo-nos como os espíritos se comportam. Obviamente, já não tenho pais. A minha mulher já se foi há quase seis anos. Os meus filhos são esses gajos dos carros, dos fatos e das pressas. Vejo-os uma vez por mês, nos meses bons. Na verdade, nem sei se esses são os meses bons. As nossas conversas são uma espécie de carimbos que eles põem no livro dos filhos-bem-comportados. Alivia-lhes a consciência visitar o pai, mas não há verdadeiro prazer em estar comigo, o que também percebo, tornei-me uma pessoa com quem não é prazeroso estar. Eles, felizmente, não me sorriem como se eu fosse um cãozinho, mas falta-me a paciência para ouvir os relatos das suas vidas frenéticas, fico invariavelmente a ouvir um blablablablabla de fundo enquanto penso que devem estar quase a ir-se embora para me meter na cama. Olho-os e sinto pena do momento em que se transformem em mim. Nenhum pai quer isso para um filho e, no entanto, é o que nos sucede a todos. Tenho feito um esforço de memória para me lembrar do olhar do meu pai nos seus últimos anos. Será que também me mirava com o mesmo cinismo e pena e arrependimento? "O que é que eu fui fazer? O que te espera, puto..."

Olho para o meu corpo e é como se o tivessem acabado de implantar em mim. Um corpo estranho que alguém aqui pôs sem eu dar conta. Os pés cheios de veias que nem sabia que lá estavam, as unhas amarelecidas e grossas, as pernas que arquearam como se não suportassem mais o meu peso, como se não me suportassem mais a mim, e o meu rabo, em tempos elogiado pelas mulheres da minha vida, é agora uma espécie de derrocada, uma pintura que desbotou. Está deprimido, o meu cú. Como eu, de resto. Já para não falar do meu piço, encolhido, pendurado, a mijar às pingas, sem outro préstimo que não seja lacrimejar tristemente para uma sanita enegrecida. 

Odeio que me tirem fotografias. Quando me mostram o resultado, contentes com o bom aspecto com que ficaram ao meu lado, demoro sempre algum tempo a reconhecer aquele velho com duas bolsas pendentes por baixo dos olhos, dentes encardidos, sulcos pela cara que parecem ter sido feitos por arados. Quem é este? Quem sou eu? Em que pessoa me tornei? Lembro-me de andar na rua e sentir os olhos postos em mim, tive todas as mulheres que quis e até algumas que dispensava, e agora nem sequer consigo vislumbrar uma sombra desse fulano, nada, zero, só ruínas, só cacos, só uma escorrência do homem que fui. E ainda me sorriem? Com aquela ternura que dedicamos aos desvalidos? Puta que os pariu. 

Resta-me o consolo de que chegará a sua vez. A vez de todos. Os apressadinhos, os bem sucedidinhos, os que ainda não sabem mas vão ser devidamente emprateleiradinhos, obrigada, leve lá esta caneta com banho de ouro pela dedicação à empresa mas. Mas? Isso, mas. Vejo os pais a empurrar carrinhos de bebés, gugu-dadá, gugu-dadá, e abano a cabeça. Uma vez por mês, nos meses bons. É essa a tua paga pelos gugus-dadás. Olho para essa gente cheia de afazeres e felicidade na rua e sorrio. Ah, sim! É a minha vez de sorrir. Porque sei o que eles não sabem. Nem sonham! Pobres diabos! 

 

(a rubrica conta-me é uma série de ficção criada pela a autora deste blogue. Podem ler os outros clicando num ícone com o mesmo nome, no topo da página)

Conta-me #12

- Tô?

- Alô...

- Alô... que voz é essa?

- Oh.

- Então? Estás a assustar-me. Alguma coisa grave?

- Não... o costume.

- Ah... sério? Outra vez?

- Yep.

- Oh, merda. Como é que estás?

- Mal. 

- Oh, querida... eu continuo a achar que é uma fase... que é stress. Que não tem nada a ver contigo, convosco.

- (soluços)

- Ooooh, não chores... a sério. Já viste bem o stress em que ele anda? Com aquilo da empresa, a história toda do pai, os irmãos... não é fácil. 

- Eu sei.

- Tu sabes mas continuas a inventar outras razões.

- Não é isso, Sofia... não é inventar. Sei lá. E se existem mesmo outras razões? E se estamos a tapar o sol com a peneira? E se simplesmente já não sente desejo, e se já não me vê desse modo?

- Ana. Ana. Tu acreditas mesmo nisso? Assim, de um momento para o outro?

- Não é bem de um momento para o outro! Já lá vão 6 meses disto!

- Seis meses? Já? 

- Já! Vês?

- Calma. Mas nestes seis meses nunca...

- Nunca! Ele simplesmente não consegue. Até começamos bem mas depois... puff. Achas mesmo que pode ser só stress? Não pode, Sofia. Ele tem outra pessoa, de certeza.

- Lá estás tu. Já falámos sobre isto. Já te perguntei isto. Há mais algum indício, sem ser esta... esta incapacidade dele... há mais algum indício de que possa ter outra pessoa? Viste o telemóvel dele?

- Oh. Tu sabes que eu não faria isso. Mas a verdade...

- A verdade?

- A verdade é que até já isso me passou pela cabeça. Vasculhar as coisas dele para descobrir quem será a puta.

- Ana. Não há ninguém. Sou menina para apostar. 

- Cuidado com o que apostares...

- Vá, talvez não aposte nenhum órgão, nenhum membro... 

- (risos)

- Mas aposto... 100€.

- Ah ah ah. Cem euros? Epá, até percebo que não queiras apostar um rim, mas... cem euros também me parece pouca confiança! 

- (gargalhadas) Pronto, 500€, vá! Filhinha, a vida não está fácil. Sabes como é que isto anda.

- Pois é, desculpa. Com isto tudo nem te perguntei como é que estás, como é que estão as coisas?

- Esquece. Não vamos falar nisso, que na merda já tu estás.

- Está assim tão mau?

- Pfff... esta semana, se entraram três pessoas na loja foi muito.

- E compraram alguma coisa, ao menos?

- Nada. Reviraram isto tudo, vestem, despem... e adeuzinho, muito boa tarde.

- Que cena. Isso deve dar cabo da cabeça, estar aí o dia inteiro e não entrar ninguém.

- Cala-te, mulher. É de cortar os pulsos. Vá, mas isso agora não interessa. Estávamos a falar de ti.

- De mim, não. Da pila do meu marido que está morta. Bom, pelo menos para mim.

- E lá vem ela outra vez! Está adormecida, não há-de estar morta! E não é só para ti.

- Achas que também fica mole com a outra?

- Aaaaaaaai! Chata mais a outra! Qual outra??? Olha, tu sabes que eu tenho um sexto sentido para estas coisas e não acredito mesmo que o Pedro tenha outra. Coitadinho... olha que ele também se deve sentir muito mal. Como é que ele fica, quando aquilo não... coiso?

- Fica mal. A suar e não sei quê. Diz que fica nervoso e que quanto mais vezes falha mais nervoso fica. E desta última vez, que foi ontem, até chorou.

- Ai, pá, que horror. Já viste?

- E eu? Já imaginaste? Eu ali toda armada em sensualona, a fazer carinhas e gemidos e a subir e a descer... ontem, vesti um kit todo sexy, um mesmo de porquita que ele gosta imenso, ou gostava, já nem sei, e nada! Nada! E eu ali às voltas e a pensar: "não te enerves, Ana, não desistas, faz de conta que és uma terapeuta, uma médica, qualquer coisa, estás a tentar ajudá-lo, concentra-te, ele vai chegar lá, ele vai conseguir, macacos te mordam, Ana Maria, se ele não vai conseguir!" E... não conseguiu!!!! E eu vestida de puta, ali deitada ao lado dele, a sentir-me ridícula naquela roupa, completamente humilhada, sem pinga de sensualidade, sem pinga de decência, a puxar os cobertores para ele não me ver mais naquela figura (ou para eu própria não me ver mais naquela figura). Opá... ninguém merece. (choro) Não desejo isto ao meu pior inimigo, Sof! Ao meu pior inimigo!

- Ai, mulher, realmente. (silêncio) Que cena... E irem ao médico? Já lhe falaste nisso?

- Eu não! É como te digo: tenho para mim que o problema sou eu. Se não fosse - olha que agora é que lembraste bem! - tu não achas que se não fosse eu o problema ele não era o primeiro a dizer que tinha de ir ao médico? Mas não... ele não diz nada. Diz que está cansado, que está nervoso. Está bem, abelha. Não sei quanto tempo mais vou conseguir aguentar isto, Sofia. Juro que não sei. (soluços)

- Oh, querida... vou ter contigo. Pode ser? Fecho a loja - assim como assim também ninguém aparece - e vou já para aí. Hoje é dia do turno dele, não é?

- (fungando) É. 

- Pronto. Levo o jantar e ficamos aí as duas, a conversar. Vamos pensar numa maneira de dar a volta a isto. Não gosto nada de te sentir assim, tão triste. Já aí passo, ok?

- Ok.

- Vá, beijinho. Até já.

- Até já. Obrigada.

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*Conta-me é uma rubrica do blogue Cocó na Fralda com contos escritos pela autora (podem ver todos na pasta na parte superior do blogue, que diz "Conta-me")

Conta-me #11

E então ele vociferou:

- Pois eu estou-me positivamente cagando para esta família. 

E saiu.

Não foi só a palavra que nos deixou estarrecidos, os garfos no ar, a caminho das bocas, congelados no tempo como se o tempo tivesse, por obra daquela frase, realizado a proeza de congelar. Não foi apenas a palavra, jamais proferida por aquela boca, de onde nunca saíra uma incorrecção. Foi o tom definitivo, o advérbio contundente atrás do verbo cagar, o modo teatral com que abandonou a sala em seguida, a repulsa com que ainda mirou as loiças Companhia das Índias dispostas na cristaleira que havia sido da bisavó.

De então para cá, o pai nunca mais foi o mesmo. Sempre foi um senhor. Quando me ia buscar ao colégio, recostado no banco de trás do carro conduzido pelo fiel Augusto, os meus colegas e os professores paravam para nos ver passar. Não, não eram coisas da minha cabeça. Era de facto assim, quase como se também então o tempo petrificasse com a sua presença (apesar de ser por outros motivos que não os de agora). O pai usava sempre um chapéu e um sobretudo. Será tolice minha e isso sim, produto da minha fantasia, mas seria capaz de garantir que até no verão se apresentava de sobretudo. Sim, claro que é tolice. Seria uma atitude despropositada e o pai nunca era, nunca foi, descabido em qualquer tipo de conduta, fosse à mesa, fosse no modo de vestir, de caminhar, de cumprimentar. O pai era um senhor. E a sua rectidão dava-me um conforto que se assemelhava a uma sombra, a um aconchego, um ninho. Não falava muito, o pai. Mas sentir aquela mão na minha mão bastava-me. Sentia-me o rapaz mais afortunado do mundo. Ninguém em parte alguma podia ser mais feliz do que eu quando ia assim, de mão dada com o pai.

Ninguém nunca soube o que provocou a mudança. A mãe irritava-o, claro, com as suas manias da limpeza e da ordem. Mas isso era compreensível. Na verdade, a mãe conseguia dar conta dos nervos de todos, empregadas incluídas, que nunca limpavam suficientemente bem, que nunca sabiam o sítio milimetricamente correcto das coisas, que nunca mereciam - na sua opinião - o dinheiro que lhes pagávamos. Talvez tantos anos de convivência com a personalidade histriónica daquela mulher desequilibrada pode levar o juízo a qualquer um. Os filhos seguiram com as suas vidas, saíram daquela casa, mas ele ficou. Refém. Agora que penso no assunto, recordo que uns dias antes da frase que mudou a nossa vida, a mãe tinha-me ligado num pranto:

- O seu pai... - começou, soluçando. - O seu pai pegou em tudo o que estava nas prateleiras e atirou ao chão. Está louco. Saiu daqui a dizer que ia escolher o bordel mais imundo da cidade e que só voltava quando se sentisse suficientemente sujo e... e... e vivo.

Compreendi a urgência da situação. Larguei tudo e fui até lá. Com efeito, tive dificuldade em reconhecer a sala de estar da casa em que cresci. Onde antes havia ordem (mais que ordem, praticamente um cenário), agora reinava o caos. Nem um único livro ou moldura no lugar. Havia cacos por toda a parte e a mãe aparentava uma tonalidade entre o branco e o roxo, talvez uma matiz que nunca antes tinha vislumbrado.

- Já viu, António? Já viu isto? O seu pai... o seu pai.

Horas mais tarde - já as minhas irmãs estavam em casa, tentando consolar a mãe - chegou ele. Desgrenhado, com marcas de baton nos colarinhos (palavra de honra, parece uma hiperbolização, um daqueles clichés exacerbados e cinematográficos que usamos quando queremos que as pessoas entendam exactamente aquilo de que estamos a falar, mas não, o pai tinha mesmo marcas de baton encarnado nos colarinhos, tal como vemos nos filmes) e um cheiro a perfume reles (juro). Olhou para mim, riu alarvemente e declarou:

- António, há um sítio que tem de conhecer. Se quer sentir-se vivo. Agora, se me dão licença, vou dormir. Dói-me num sítio que não posso revelar. - e saiu com uma gargalhada gutural.

Dois dias depois, mais calmo, consegui que conversássemos um pouco no escritório. Achei que era assunto para dois homens adultos, ainda que fôssemos pai e filho:

- Pai, quer explicar-me o que aconteceu aqui há um par de dias?

- António, a sua mãe desespera-me. Enlouquece-me. Por falar nisso, devia divorciar-se da Teresa, essa puta neurótica que claramente lhe inferniza a vida e que é a cópia perfeita da sua mãe. Eu não o posso fazer. Que seria. Agora, com esta idade, a pedir o divórcio, a sua mãe ainda fazia alguma cena, era capaz de ser pior a emenda que o soneto. Mas a verdade, filho [ele nunca me tinha tratado por "filho"], é que não suporto mais vê-la levantar-se 15 vezes por noite, enquanto tento ler um livro, para ajeitar o saleiro ou o castiçal mais para a esquerda ou mais para a direita. Falamos de milímetros, António. Creio até que ela os move um pouco para depois tornar a movê-los e acabar a deixá-los exactamente na mesma posição em que estavam no início. É patético, filho [a segunda vez, em segundos]. É patético e triste e eu estou exaurido desta vida patética e triste que levamos.

E depois desta explicação, proferida com calma e lógica (o que me fez recuperar a esperança de que talvez tudo se remediasse), o pai regressou à loucura. No dia seguinte acordou, despiu-se para tomar banho mas, em vez de seguir para o duche, dirigiu-se para a cozinha. As empregadas não queriam acreditar. O senhor engenheiro estava em pelota junto ao lava-loiça. E, como se não bastasse, ainda se roçou pela mais nova, revelando de imediato uma espantosa erecção.

- Qualquer dia ensino-te umas coisas.

A rapariga ruboresceu e foi incapaz de balbuciar uma palavra. A imagem daquele membro hirto encostado a si aterrorizava-a. A Arminda, que está connosco desde sempre, segurou o peito porque cuidou que o coração lhe fosse perfurar a caixa torácica e a pele e talvez pudesse ainda ampará-lo com as mãos. Ninguém foi capaz de contar nada à mãe. Fui eu quem ouviu, aturdido, o relato das duas mulheres. E tem sido esta a minha vida. Ouvir queixas sobre o pai. O senhor engenheiro. O distinto senhor de sobretudo.

Entre as várias que nos tem feito nos últimos meses - sim, que não tarda e vai fazer um ano com que nos brindou com aquela frase com que decidiu alterar a nossa existência - entre as várias pérolas, dizia, destaca-se a ideia peregrina de urinar para uma garrafa de plástico de litro e meio, com que anda todo o dia debaixo do braço. 

- Temos de poupar, António. Temos de começar pelo básico, pela água. Se puxamos o autoclismo de cada vez que mijamos [outro vocábulo impossível no léxico do pai que conheci], e eu mijo muito, António, a conta vai por aí fora. Assim, devemos todos andar com uma garrafa e só despejamos quando estiver cheia. Hã? O que lhe parece? De génio!

Isso e o dia em que me cruzei com uma puta no corredor são os episódios que me ocorrem assim de repente, agora que falamos nisso. Sim, uma puta. A mãe transida na salinha da leitura, a tremer, e a puta a sair do quarto deles, ainda a ajeitar a roupa, e atirando um beijinho provocador.

- Isto é demais para mim, António! O seu pai foi longe demais! Ele ou eu, alguém vai ter de sair desta casa!

Logo de seguida, o pai apareceu na salinha, e sou capaz de jurar que apareceu de braguilha aberta com o propósito único de a chocar.

- Então, filha? - perguntou com um suspiro quando desabou na poltrona - O que é o almoço? Estou cá com um apetite! De touro!

E por isso, doutor, não sei. Não sei que lhe diga. A mãe emagrece a olhos vistos, está tão magra que tenho para mim que qualquer dia desaparece entre uma puta e uma garrafa de litro e meio de mijo. As minhas irmãs deixaram de frequentar a casa, desde que o pai as recebeu de tanga de tigre [não me pergunte onde arranjou aquilo] e as quis convencer a urinarem para dentro de garrafas de plástico. A empregada mais nova fugiu e nunca mais ninguém soube dela desde que o pai lhe apareceu todo nu na cama, dizendo ter chegado o dia em que o professor ia ensinar umas coisas à aprendiz. E até a vizinhança cortou relações com a família desde que se descobriu que era o pai quem andava a pintar frases nos carros: "Forniquem já antes que a vida vos fornique". Como imagina, não escreveu "fornique", eu é que não me atrevo a ir tão longe. Mas o doutor percebe. De modo que não sei. Sinto-me perdido. E o pior é que às vezes acho-lhe graça. Às vezes acho que o compreendo, sabe? Toda a vida foi o senhor engenheiro, o homem imponente de sobretudo. Creio que se terá fartado. Cansou-se. Deixou cair a máscara. Abriu o sobretudo, se é que me faço entender. E eu há alturas em que eu - salvo as devidas distâncias que separam um doido de um homem são - tenho vontade de fazer o mesmo.

Captura de ecrã 2018-11-12, às 15.44.03.png

(eu sei que isto não é um sobretudo, mas uma gabardina, ok? Mas foi o melhor que encontrei 😂)

 

*Conta-me é uma rubrica do blogue Cocó na Fralda com contos escritos pela autora

Conta-me #10

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Claro que as pessoas percebem. As pessoas não são burras. Percebem. Olham. Suspiram. Miram-no com ódio, como se ele fosse um monstro. Mas não é. Coitado. Não é. Ele é um desgraçado, sabe? É uma alma atormentada. Mas enfim. Eu também passo os meus maus bocados. Esta? Esta aqui foi há umas duas noites. Não. Que dia é hoje? Ah, pois, não. Lembro-me que foi na véspera de ir ao médico dos olhos, por isso foi quinta-feira passada. Bom, para o caso é igual, é só mais uma igual a tantas outras. Estávamos a dormir, eram umas duas e picos da manhã, quando acordei com as mãos dele no meu pescoço. Percebi logo que era mais um daqueles sonhos. Gritei, tentei chamá-lo à razão, Vítor!, e ele apertava, Vítor, e ele cada vez com mais força, Vìtor! Foi então que me deu um soco. Foi o que me valeu. Ao levantar a mão para me bater libertou-me o pescoço e, depois de apanhar na cara com toda a força, levantei-me e fugi para a casa de banho. Isto parece um filme, não é? Parece, parece. Mas olhe, é o filme da minha vida. O problema dele são os pesadelos. Quer dizer, não são só os pesadelos, são também aquelas crises que acontecem assim de repente. No outro dia - lembra-me como se fosse hoje - um carro deu uma aceleração mais funda, e aquilo devia ser um carrão porque deu cá um estrondo... Vim a correr da cozinha já a imaginar tudo. Lá estava ele deitado no chão, com as mãos na cabeça, num sofrimento que não lhe passa pela cabeça. Ninguém sabe... ninguém sonha. Por isso é que eu digo: o meu homem não é má gente... ele veio de lá outro. Deram cabo dele. E não há ninguém que se responsabilize, não há nada que pague isto de me terem mandado um homem que não é o meu. Calado, sempre calado, triste, sempre triste, assustado, sempre assustado. A médica de família mandou-o para um psicólogo. Ele encolheu os ombros, qual quê, psicólogo, eu cá não sou maluco. Sabe como são os homens. Desculpe, também é homem... mas são casmurros, acham que conseguem resolver tudo. É uma questão de macheza. São machos e não podem dar parte de fracos. Mas eu tanto andei, tanto andei, Vítor, tu não és maluco mas passaste por muito, ninguém passa por uma guerra e volta o mesmo, vai falar, vai desabafar, que eu não aguento mais. Acho que se assustou. Foi. Quando voltou não disse uma palavra. Então, Vítor? Ele, nada. Fui eu falar com o psicólogo. Diz que ele tem stress pó-tramático ou trómatico ou lá o que é. Isso, stress pós-traumático, é isso mesmo! E que precisava de ser acompanhado e que o ideal até eram umas reuniões com outros ex-combatentes. Fui à associação, havia reuniões às quartas, voltei a falar-lhe. Fechou-me a porta na cara. Que era o que faltava, que isso já foi há tantos anos, que ia agora falar com gente que não conhece de lado nenhum, para dizer o quê? Vítor, para dizeres que não podes ouvir uma mota, um prato a cair, uma trovoada, uma porta a bater, Vítor. Para dizeres que acordas de noite aos gritos, a chorar, a falar em estilhaços e em mortos e a querer matar o inimigo. Para dizeres, Vítor, que eu sou o teu inimigo, quando dormes, que me atacas sem querer mas atacas, que um dia destes me matas a achar que eu sou um dos pretos, Vítor. Não sei quanto mais tempo aguentarei isto. Já lá vão anos. Anos. Anos disto. Estou saturada. Tenho medo de dormir. Chego a ter medo de entrar em casa, sei lá se não está num daqueles momentos em que parece que cega, o olhar fica gazeado, sei lá se não pega numa faca e não me corta a garganta. Eu sei lá. O que eu sei é que me deram conta do homem, que ele era alegre, conversador, brincalhão, e que veio de lá outro, mudo e quedo, metido com ele e com seus os pensamentos, os horrores que terá visto, as mortes, a gente que teve de matar. O que eu sei é que este não foi o homem com quem casei. Mas vou fazer o quê, agora? Separar-me? Abandoná-lo? Eu gosto dele. Tenho pena dele. Dó, sabe? Tenho dó. O meu Vítor não é mau homem. Não é um monstro. Coitado. Não. Ele é um desgraçado. Ele e eu. Duas almas penadas que vivem nesta casa, ensombradas pelos espíritos que vieram com ele da guerra e nunca mais nos largaram.

 

*Conta-me é uma rubrica de contos originais (ficcção) escritos por Sónia Morais Santos

 

Conta-me #9

"Temos de falar", disse-me ela. Confesso que pensava que esta era uma daquelas frases que só tinha saída nos filmes. De tal maneira que, mal a escutei, apeteceu-me traduzi-la para inglês, "we need to talk", mas achei que ela estava com uma expressão demasiado séria para achar graça. Não sei porquê, talvez já o esperasse, mas assim que ela disse "temos de falar" percebi que a minha vida estava à beira do precipício. Faltava só o encostozinho final para que se desfizesse em mil pedaços, no fundo do desfiladeiro. Fechei os olhos, cerrei os punhos e os dentes, voltei-me para ela com o ar mais descontraído e surpreendido que consegui e perguntei, desejando ter ouvido mal: "Temos?" 

Tínhamos. Ou melhor, ela tinha. Tinha que me falar no Artur. Tinha que me dizer que lhe custava muito toda a situação, que eu tinha sido sempre um marido incrível, que era um excelente pai, que não havia razão de queixa, mas. Há sempre um "mas" que se segue a um "temos de falar". E o "mas" na minha vida tem nome. Chama-se Artur. 

Durante meses ouvi-a falar com entusiasmo no Artur. O novo chefe. Tão engraçado, sempre espirituoso, a fazer rir o gabinete inteiro. "Olha só esta piada que o Artur hoje contou". E eu olhava. E ouvia. E esboçava um sorriso forçado. Não sei porquê, talvez fosse um sexto sentido, nunca achei graça ao Artur, nunca me consegui rir com a vontade com que ela se ria, "não é a melhor piada de sempre?", perguntava ela a limpar as lágrimas. É, é, respondia eu com o sorriso mais esforçado que conseguia montar.

O Artur. Sempre solícito, a trazer o café à sua mesa com um brigadeiro. "Já viste a minha sorte, ter um chefe assim?" Então não?, retribuía eu. O Artur que a tinha convidado para almoçar, não apenas a ela, claro, mas à secção inteira. O Artur e os seus olhos verdes. O Artur e o seu perfume inebriante. Não, talvez ela não o tenha dito assim, mas falou qualquer coisa sobre o perfume, sou capaz de apostar. O Artur que lhe dava boleia no seu carro alemão com estofos em pele e tantos botões no painel que mais parecia um avião. "Às vezes até acho que vai levantar voo". Pois.

E a Paula cada vez mais distante, mais calada. A Paula sempre de olhos no telemóvel, a levá-lo consigo para toda a parte, até mesmo para a casa de banho, nunca se esquecendo dele em lado algum. E eu a convidá-la para sair, para um programa, um jantar a dois, sem os miúdos, um cinema a seguir, e ela sempre cansada, sempre aborrecida, sempre longe. 

Acho que no início dei o desconto. O Artur lá devia ter os seus encantos e estar casado não causa cegueira, de maneira que compreendi o entusiasmo, sangue novo num gabinete bafiento era caso para deixar o mulherio inquieto. Eu próprio já tive as minhas paixonetas, coisas platónicas evidentemente, mas que diabo, sou homem! Assim de repente lembro-me da Anabela, por exemplo. Que mulherão. Quando entrou pela primeira vez na empresa julguei que ia ter um ataque cardíaco. Suores frios, uma pontada no peito, tonturas, as pupilas dilatadas. Lembro-me do Aníbal vir ter comigo e dizer "Estás bem, Carlos?" E eu sem conseguir balbuciar uma palavra, "Estás lívido, homem! É preciso chamar um médico?". Ainda hoje nos rimos disso. Que brasa, a Anabela. Mas pronto, foi fogo de vista. O passar dos dias tornou-a menos vistosa, os defeitos começaram a vir ao de cima, e o coração amainou. Como ela, outras. Mas nada de duradouro, nada de sério, nada que pusesse em causa a Paula e a nossa vida em comum. São 24 anos de casamento. Cinco de namoro. Dois filhos. Jamais me passaria pela cabeça outro cenário que não fosse o de envelhecermos juntos. 

Mas. Lá veio o mas. O Artur. Quando finalmente decidi procurar a figura no Facebook compreendi ainda melhor o arrebatamento. Tipo alto, cabelo grisalho, olhos verdes, boa pinta. Engoli em seco mas não fiz mais nada que isso. Continuei apenas a ouvi-la descrever, uma após outra, as aventuras do Artur, as piadas do Artur, as boleias do Artur. Fui parvo. Deixei-me ir e quando percebi era tarde. Quando percebi estava a escutar o tão temido (e tão dolorosamente cliché) "Temos que falar".

E assim foi. 24 anos de casamento, cinco de namoro, dois filhos, tudo por água abaixo. Depois do "Temos que falar", ela falou no Artur e no quão apaixonados estavam, eu ouvi calado e quieto, ela levantou-se enxugando as lágrimas, fez umas malas apressadamente, e saiu deixando-me num misto de choque e confirmação do que, na verdade, já intuía. Talvez não pensasse que tivesse coragem de o fazer pelos miúdos. Mas os miúdos já estão crescidos, ambos na faculdade, com as suas próprias vidas. Se fossem mais novos era capaz de não ter coragem mas assim... Assim foi só dar-me o encostozinho que faltava para me atirar do precipício.

Estou sentado nesta cadeira há horas. Sei-o porque cheguei eram seis e meia e agora já a escuridão invadiu toda a cozinha. Não tenho fome, não tenho sede, não tenho nada para fazer. O Aníbal diz-me "Tens de sair, Carlos. Tens de vir com a malta, pá. Arranjar umas gajas." Dá-me vontade de rir. Gajas. Sou fiel à Paula há 29 anos, nem consigo imaginar-me com outra mulher, nem mesmo quando me escondo perto do serviço dela para a ver chegar no carro-avião do Artur. Da primeira vez nem a reconheci. Mudou o cabelo, está mais magra, parece mais nova, toda maquilhada. Toda sorrisos, toda encostos, toda... nem sei quê. A minha Paula. Tão feliz, apesar de tudo o que a separação lhe trouxe: os meus pais deixaram de lhe falar, a mãe dela deixou de lhe falar, os filhos deixaram de lhe falar. Eu não acho bem, já lhes tentei explicar que isto são coisas que acontecem, que ninguém controla o coração, mas ninguém quis saber. Eu também já não quero saber. Ela própria não parece muito interessada no assunto.

Perguntam-me se não tenho vontade de partir a tromba ao Artur. Tenho. Então não? Uma pêra bem dada naquele focinho sorridente. Sonho com isso praticamente todas as noites. Não foi uma vez nem duas que acordei com a mão esmurrada por ter batido com ela em cheio na parede. Mas depois falta-me a coragem. O mais certo era o Artur acabar comigo em três tempos, obrigando-me a engolir o escassíssimo orgulho que ainda me resta. 

É evidente que tenho que me recompor. Tenho de recomeçar. Tenho 50 anos, ainda posso ter uma vida, ainda posso ter, como diz o Aníbal, "umas gajas". É evidente que sim. Talvez comece por vender a casa, porque ainda durmo e acordo na cama onde dormíamos e acordávamos juntos, porque ainda janto na mesa onde jantávamos juntos, porque ainda a vejo em todas as assoalhadas. É. Talvez tenha de começar por aí. Assim arranje coragem e forças. Para já, sento-me horas nesta cadeira, em silêncio, à espera que o resto do dia passe. À espera de me esquecer. Dela, dele, dos dois. De mim com ela. De mim sem ela. De mim com este vazio. À espera de recomeçar.

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Conta-me #8

Na árvore de Natal há vários presentes. Um sei que é da mãe, outro sei que é do pai, os outros não faço ideia. Quando abrir o da mãe e o do pai tenho de tentar fazer o mesmo sorriso, nem mais, nem menos. Talvez devesse abrir os presentes uma noite destas, antes do Natal, para me preparar. Tenho medo que, com a surpresa, haja um presente de que gosto mais e não consiga disfarçar a felicidade, enquanto que ao abrir o outro posso ter uma desilusão e notar-se. Depois estou frito. Quer dizer, não é que me aconteça nada, a mãe não se vai zangar comigo nem nada, mas eu é que não quero desiludir nenhum dos dois. Não quero que um deles sinta que gostei mais do presente de um do que do outro. Acho que não é por mal mas sei que eles tentam ganhar-me nos presentes. Se um compra não sei o quê, o outro vem e compra outra coisa melhor. Ou que eu pedi. Ou que sabem que eu queria. Não me posso queixar, que fico a ganhar, né? Mas às vezes cansa-me um bocadinho esta coisa de estar sempre a mostrar que gostei muito de um, que gostei muito do outro... às vezes só queria que me deixassem em paz.

Como agora. Este Natal vou passar a noite aqui em casa da mãe e no dia 25 vou para o pai. A mãe chora sempre muito quando eu vou, mesmo que a noite tenha sido com ela. Quando a mãe chora tenho sempre vontade de chorar e de não ir. Mas não posso fazer isso, senão quem ficava triste era o pai. Também sei que a mãe chora por causa da nova namorada do pai. A Luísa é querida, dá-me festinhas e brinca comigo mas eu sei que não devia gostar dela. Também a acho linda, assim mesmo tipo actriz de cinema, mas nunca digo isso à mãe, mas é que nem pensar. No outro dia a mãe zangou-se comigo e ralhou-me muito. Eu estava tão zangado que lhe disse que a Luísa é que devia ser minha mãe. Assim que acabei de dizer senti um frio no estômago e calor nas bochechas e uma espécie de tontura e vontade de vomitar, pensei que ia morrer. A mãe também. Ficou paralisada a olhar para mim, os olhos cheios de lágrimas, e fechou-se no quarto a chorar. Senti-me muito mal porque não é verdade, a mãe é a mãe. Mas podia ralhar menos, estar menos vezes zangada comigo e com as pessoas todas. A Luísa está sempre feliz. Tem os labios muito bem pintados e cheira tão bem...

Não gosto quando os pais discutem. Sempre que o fazem é por minha causa, o que faz com que me sinta mesmo mal. Penso que se não tivesse nascido talvez eles não discutissem, talvez ainda estivessem juntos e fossem felizes. Às vezes penso que se não me tivessem tido a mim mas outro miúdo qualquer - ou uma miúda, quem sabe? - as coisas fossem diferentes. Pode ter sido a minha maneira de ser que os irritou, que os pôs um contra o outro, que deu cabo de tudo. O psicólogo diz que não é nada disso mas o que é que ele havia de dizer? Os pais pagam-lhe para me fazer sentir melhor, não pior.

No outro dia os pais discutiram muito porque o pai me trouxe muito tarde para casa. Foi mau porque nos tínhamos divertido tanto... tínhamos jantado fora e ido a uma feira e rimos até doer a barriga com parvoíces que o pai faz e diz. Ainda vínhamos a rir quando a encontrámos, à porta, com aquela cara que está mesmo a dizer que vai haver chatice. Estava furiosa, deu-me um puxão para dentro de casa e começou logo a gritar com o pai, que ele era sempre o mesmo irresponsável, que não servia para nada, que era um péssimo pai. Ele começou por ter calma, acho que estava mesmo espantado com a reacção dela, mas depois passou-se e gritou muito com ela. Não gosto que a mãe grite com o pai mas gosto ainda menos que o pai grite com a mãe. A voz dele é grossa e eu fico com medo. Nessa noite - como noutras noites - encolhi-me num canto com as mãos nos ouvidos, à espera que aquilo acabasse. Depois da porta bater com força já sabia que era a minha vez de ouvir. Quando está zangada a mãe é bruta comigo e magoa-me quando me empurra para me despachar a vestir o pijama e para lavar os dentes. Não me dá beijinho de boa noite e eu sei que também tive culpa porque devia ter pedido ao pai para nos despacharmos.

As férias também nem sempre correm bem. Oiço-os a quererem os mesmos dias de férias comigo, ou é muita pontaria ou fazem de propósito, não sei. Discutem pelos dias, porque no ano passado foi um, porque há dois anos foi o outro, e eu sinto-me outra vez partido ao meio. Não gosto de ficar partido ao meio. Quando se queixam um do outro a mim, não sei o que hei-de dizer. Digo sempre que sim, aos dois, porque quero que fiquem contentes e que achem que estou do lado deles. Mas parece que não posso estar do lado dos dois. É impossível, como uma traição. Quando vou de férias com o pai, a mãe chora mais do que nunca e abraça-me como se eu não fosse voltar. Faz a mala com as minhas piores roupas, aquelas de que eu não gosto nada, mas também não faz mal porque a Luísa já tem lá em casa um roupeiro inteirinho cheio das roupas de que eu mais gosto. Depois, quando falamos ao telefone a mãe faz imensas perguntas, o que fizemos, onde fomos, se estou bem. Eu estou bem, muito bem mesmo, mas não posso dizer isso com essa verdade toda. Digo que estou normal e, se possível, faço um ar de seca para ela pensar que não está a ser assim tão bom. Quando a Luísa se ri e a mãe ouve - a Luísa ri muito alto -, pergunta logo "de que é que essa parva está a rir? De mim?" Eu respondo baixinho, para ninguém ouvir, que não, claro que não é dela, alguma vez? E é verdade. A Luísa nunca se ri da mãe. Por que riria? Há coisas que eu não percebo. 

A mãe às vezes quando estamos em casa pergunta-me, assim do nada, como é a casa do pai, como é a Luísa, como é que eles se dão, o que é que eles dizem. Eu não respondo muita coisa porque sei que ela não vai gostar de ouvir. A casa do pai é grande, a Luísa é uma das mulheres mais bonitas do mundo, eles estão sempre de mão dada e aos beijinhos, nunca discutem. Respondo à mãe que é tudo normal e depois disfarço, finjo que me lembrei de qualquer coisa para fazer no quarto. Passo muito tempo no quarto. A mãe também não se importa, passa os dias triste e acho que prefere não ter de falar comigo. 

Tenho pena que a mãe e o pai se tenham separado. Lembro-me de quando éramos felizes, os três. Lembro-me mesmo. Eu não sabia que éramos felizes mas agora sei que sim. Depois o pai começou a chegar tarde a casa, começaram as discussões, até que acabou tudo. Tenho pena porque assim eu não tinha de passar por isto. Não tinha que me sentir partido ao meio. Sempre partido ao meio. Como agora, que estou a olhar para os presentes de Natal debaixo da árvore. 

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 Conta-me é uma rubrica de contos originais (ficcção) escritos por Sónia Morais Santos

 

Conta-me #7

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Estou sentada na cama, os pés pousados na madeira escura, pés que mal parecem pés, são como duas bolas raidas de roxo, com cinco berlindes nas extremidades. Olho-os e sinto uma súbita vontade de chorar. Acabei de acordar, ainda nem abri bem os olhos, e já estou assim, à beira das lágrimas. Passo as mãos na cara, e volto a olhar para baixo. As unhas também já deixaram de ser unhas, são garras de ave de rapina. Rio-me. Uma ave de rapina que jamais conseguiria voar. Bom, os Boeings também voam. Rio-me de novo. Sim, sou uma espécie de ave-Boeing, um animal em vias de extinção. Um dia destes extingo-me. Era o melhor. Foco-me de novo nas unhas. Tenho de as cortar mas não consigo. Ao que cheguei. Se a minha mãe ainda fosse viva podia pedir-lhe. Teria vergonha na mesma mas pedia. Mãe é mãe, ainda que a minha sempre tenha sentido repulsa por mim. Sim, talvez não tivesse coragem de lhe pedir, agora que penso nisso. Só de imaginar o seu olhar enojado preferia manter as garras. Seja como for, agora resta-me a assistência da Junta de Freguesia e ainda não tive coragem de falar nas minhas unhas dos pés. Já basta o que basta.

Sinto um cheiro a azedo e por momentos não sei de onde vem. Olho em redor, talvez alguma coisa estragada que esteja para aqui. Se estiver debaixo da cama também não vou conseguir apanhá-la, o melhor é esquecer e pedir às meninas da Junta quando vierem. Não demoro muito a perceber que o cheiro, afinal, vem de mim. Vem do meu peito, daquele intervalo entre as minhas mamas. Um cheio acre, a suor e a sebo. Largo num pranto. Que miséria humana sou eu. Serei ainda humana? O ser humano define-se por ser bípede e inteligente e eu sinto-me cada dia menos bípede e cada dia menos inteligente. À falta de falar com outros seres humanos ainda deixo de saber falar. No outro dia, nem conseguia dizer "cobertor" para explicar às meninas da Junta que precisava de menos calor na cama. Dei por mim a balbuciar inícios de pseudo-palavras, como se estivesse a tentar lembrar-me do nome, quando na verdade à segunda tentativa desisti sequer de me tentar recordar. Alguém resolveu o assunto soltando a palavra "cobertor" e eu, aliviada, exclamei "isso" como se realmente me interessasse. Não me interessa. É indiferente. Para quê saber as palavras se não temos mesmo com quem as usar? O vocabulário, de o utilizar tão pouco, está a sumir-se do meu cérebro. Ou então está a ser engolido pela gordura. Todo o cérebro a ser devorado por bolhas gordas famintas. Tipo pacman. Rio-me sozinha, outra vez, mas a verdade é que os meus olhos estão cheios de lágrimas. Nem a sábia capacidade de me rir de mim própria consegue já resolver esta nuvem negra que se ocupou de mim.

Levanto-me, decidida a ultrapassar o estado de auto-comiseração que me assolou. Está cada vez mais difícil erguer este peso que sou eu.  Cada passo faz estremecer a casa, quem me mandou viver num prédio de 1900? Imagino o vizinho de baixo a levar com caliça do tecto nos cereais, a olhar para cima e a pensar "olha, a baleia acordou". Caminho devagar, para evitar estragos. Pé ante pé, como um elefante numa loja de porcelana. Gostava de ir à rua. Não saio de casa há cinco anos. Comecei por ter tanta dificuldade em subir os 4 andares que chegava a casa num lago, um lago quente e amarelo, uma espécie de piscina do Terranostra em São Miguel. Ficava de tal maneira cansada que me deitava e só acordava no dia seguinte. Podiam ser oito da noite, duas da tarde ou dez da manhã. O resultado era igual: um cansaço-doença que me deitava à cama até ao nascer do sol no outro dia. Quando fiquei desempregada fui evitando sair. Indiferente. Não tinha mesmo onde ir. Pedia as compras online, pizzas por telefone, e como a minha vida social também nunca existiu estava perfeito assim. Nos primeiros tempos ainda recebia uma ou outra visita da Lurdes, da Dada, da Amélia. Mas os dias foram passando e elas deixaram de vir. E eu deixei de descer as escadas no dia em que rebolei (o termo não podia ser mais apropriado) um lance inteiro e acabei içada pelo matulão do 2º andar que pediu reforços na rua. Houve ali um momento, quando ele saiu disparado de casa para me socorrer, em que nos imaginei num caso tórrido. Não sei que disparate foi aquele, talvez tenha sido o ar preocupado que fez, a forma como me pegou na cabeça, os olhos nos meus, "está bem?", não sei o que foi que me fez pensar que podíamos beijar-nos ali mesmo e ele levar-me ao colo para casa. Nesse instante, acordei para a realidade. Levar-me ao colo para casa??? Ah! Ah! Ah! Tem juízo nessa cabeça, Sara. O homem é matulão, não é um super-herói da Marvel. E pronto. O sonho terminou quando ele foi buscar mais gente à rua e acabei arrastada até casa por uma pequena multidão em esforço.

Nessa altura já tinha mais de 150 quilos porque a balança de casa dava erro sempre que subia lá para cima. Hoje não faço ideia. Nem quero saber. 

Sempre fui gorda. Nasci gorda. A minha mãe fazia questão de o recordar vezes sem conta, para gáudio dos presentes. O parto mais infernal de todos. O pequeno texugo que pesava 4,780kg e que quase a matou. Vagina rasgada, incontinência urinária, dores inconcebíveis, infecções na ferida que foi o meu nascimento. Acho que ela nunca me perdoou pelos estragos. A Sara que a fez engordar 35 quilos na gravidez, a Sara que já era faminta dentro da barriga, a Sara que lhe destruiu a forma, a Sara que lhe rasgou o corpo, destruindo a sexualidade, a feminilidade, o prazer. A vida. Cresci com o seu olhar de revolta. Mesmo quando não queria, olhava-me com reprovação. Havia sempre crítica na forma como me via, como me respondia, como me educava. Cresci sentindo-me repulsiva, intrusiva, destrutiva, um fardo. Depois veio a escola e os epítetos. Dos animais terrestres aos aquáticos. Vaca, bisonte, elefante, hipopótamo. Lontra, baleia, orca. Meti-me ainda mais para dentro, esqueci a possibilidade de ser "normal". Podia ter feito uma dieta, podia ter sido mais forte, podia ter começado a correr (como tantos que vejo, para cima e para baixo, da minha janela). Podia. Mas acho que, no meu mapa de possibilidades, essa nem sequer aparecia. Eu era assim desde que era feto. Preferi assumir e continuar a comer. Mais e mais. Cada vez mais.

Sentada no sofá, olho para mim como se me visse de um ponto exterior a mim. Camisa de dormir desapertada, pernas abertas, cabelo desgrenhado. Um corpo imenso, que ocupa os três lugares do sofá, um corpo disforme ao qual pertence uma alma também disforme. Falhei o objectivo de largar a auto-comiseração. Como não falhar? Como não sentir pena disto em que me transformei? Tenho a televisão ligada, não oiço o que dizem, não os vejo, não quero saber. Não me interessam as horas, os dias, os meses. Escuto o tic tac do relógio, que me esfrega o passar dos segundos, dos minutos e das horas nos ouvidos, e pergunto-me quanto tempo mais demorará este coração a parar. Tic tac. Tic tac. Quanto tempo terei ainda de aguentar até que ele pare de vez, exausto de trabalhar para tanto corpo, tanta massa, tanto desespero. Aqui fico. Até quando?

 

"Conta-me" é, como o nome indica - e não mente - uma rubrica de contos, escritos por mim

 

Conta-me #6 (para maiores de 18)

O pior de tudo são as noites. É o costume, não é? Imagino que lhe digam sempre isto. É um daqueles clichés. Mas é. O pior são as noites. Os fins de dia e as noites. Limpo o pó, limpo todos os dias, é ponto assente, há sempre pó que se acumula. Endireito os livros, os bibelôs, parece que nunca estão no sítio certo. Mas as noites custam por causa do silêncio. Saber que nas outras casas há conversas, discussões, gargalhadas. E eu ali com aquele silêncio, sem ter alguém com quem comentar as notícias. Quer dizer, ter até tenho, que falo muito sozinha. Pronto, agora é que me interna de vez. Falo tanto sozinha. Se não o fizer, ao fim-de-semana em que não vejo ninguém, fico com medo que a voz se cole na garganta e deixe de sair na segunda, quando torno a precisar dela. De maneira que falo. Falo muito com a televisão: "Olha, o Marcelo, benza-o Deus, isto é que é um presidente"; "Olha mais um que se explodiu... isto era rebentá-los a todos, acabar com esta gente que nem gente é, a aterrorizar assim todo o mundo, não estamos seguros em lado nenhum". No outro dia, veja bem, dei por mim a dar as boas noites à Clara de Sousa. Até me lembrei da minha avó que Deus tem. Ela é que cumprimentava os locutores, porque achava que eles falavam para ela. É... somos assim uma família de gente doida. Eu bem digo que um dia destes me interna...

A verdade é que gostava de ter um homem com quem partilhar a vida. Nem sei bem como foi que aconteceu acabar assim sozinha. Nunca fui uma estampa mas, caramba, também não me acho assim um mono tão grande! Sou? Oh, diga a verdade... Nunca ia dizer se achasse, não é? Como é que fazia? Ah, sim, Marisa, tenho de ser sincero, é feia como a noite dos trovões, como é que esperava que alguém lhe pegasse? Ah ah ah. Já não lhe pagava a consulta hoje e nunca mais cá punha os pés! Mas agora fora de brincadeiras, vejo por aí com cada camafeu feliz de mão dada com alguém... e eu aqui sozinha. Saio de manhã para ir dar aulas, passo o dia com os miúdos, almoço com outros professores, durante algum tempo ainda procurava na sala de professores algum olhar, algum sinal de que podia ali nascer alguma coisa. Cheguei a fantasiar um clima com um colega, acreditei que ele olhava para mim da mesma maneira que eu olhava para ele. Chegava a casa e imaginava-nos juntos. Vai-se rir mas cheguei a pôr a mesa para dois. Com uma vela e tudo. Não foi uma vez nem duas. Foram muitas noites de mesa posta para dois. Ridícula. Depois, levantava a mesa, lavava a loiça, e a seguir fechava os olhos e chegava a sentir o calor da mão dele na minha, quando me enroscava no sofá a ver a novela. À noite, deitada, fingia que ele me tocava, que me queria, que me despia. Os meus dedos eram os dedos dele, entrava por mim como se não fosse eu, e quando atingia o auge do prazer, cansada, podia sentir a sua respiração ofegante, palavra de honra que sentia, o calor da sua respiração no meu pescoço, o corpo quente em cima do meu. A seguir invadia-me uma tristeza funda e abafava o choro na almofada, porque acordava do meu sonho e ali estava eu sozinha, como sempre.

Parei de fantasiar com ele quando começou a sair com uma colega nossa. Da primeira vez que os vi sairem da escola de mão dada pensei que o meu coração ia parar. Aquelas mãos eram as nossas. Aqueles risos deviam ser os nossos. Ele devia ser meu e eu dele. Os nossos corpos entendiam-se tão bem nos meus sonhos... Disparate. Eram só sonhos. Nada mais. Desde então não voltei a entregar-me a essas imaginações. São veneno. Mais vale assumir que é assim e assim será. Tenho 50 anos. Quem é que me vai pegar agora? Ainda se fosse divorciada, viúva... Mas solteira? Encalhada? Não. Ninguém me pegou até agora, não é agora que vão pegar. 

Vou-lhe contar uma coisa. Vai achar que sou perversa, uma tarada. Se calhar é mesmo desta que me interna. Tenho uma fantasia... oh, não conto. Tenho vergonha. Tenho tanta vergonha. Sim, eu sei. É para isso que cá estou, para contar estas coisas que me vão dentro e que o ajudam a ajudar-me. Mas vai achar que sou uma depravada e a crua verdade é que nada disto passa da minha cabeça para a realidade. Ok, eu conto, que se lixe. Imagino-me muitas vezes a entrar num táxi com uma saia e sem cuecas vestidas. E depois fantasio que abro as pernas e deixo o taxista ver-me, pelo espelho. A seguir, ele para o carro num ermo qualquer, abre a porta de trás e penetra-me com violência, uma violência que não é mais que um desejo animal. Pronto. Já contei. É a isto que cheguei. À vontade de ser tomada por um homem à bruta. Bati no fundo. No fundo da solidão mais funda.

Desculpe. Já lhe gastei quase os lenços todos de papel. 

Sim, já estou mais calma. Já passou. Tenho de agradecer a vida que tenho, deixar-me destes queixumes. Afinal, tenho saúde, tenho trabalho, tenho uma casinha para onde vou a seguir. Faço uma sopa de hortaliça, vejo os testes dos miúdos, levo a sopinha num tabuleiro para a sala, talvez beba um copo de vinho, e a seguir vejo a novela. O que é que quer? Gosto, pronto. Distrai-me. Depois deito-me, que amanhã o dia começa cedo. Durante o dia esqueço-me da solidão, porque estou rodeada de gente. O pior é à noite. Já tinha dito. Passo a vida a repetir-me, eu sei. Mas é que fora daqui tudo se repete também. Vá, não o maço mais. Até para a semana. 

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Edward Hopper 

Conta-me #5

O corredor comprido. Vozes desconexas. O perturbante perfume do éter. Batas brancas e diagnósticos incompreensíveis. Luzes. O bater do coração. E o medo. 

O medo.
«Um brinde a nós, o sexo forte». Marta, a mais extravagante das cinco. Sempre gostou de provocar, contar anedotas porcas ao pé de velhinhas católicas. Dizem que um dia apalpou um padre, mas no grupo nunca se chegou verdadeiramente a saber se teve atrevimento para tanto. Os copos bateram uns nos outros com estrépito, ameaçando a integridade do cristal. «Olhem, os gajos da coleira já estão a rosnar». Referia-se aos empregados de mesa, irrepreensivelmente aprumados, de colete e Iaço ao pescoço. As gargalhadas do grupo das quintas-feiras despenteavam-lhes a sobriedade. «É espantoso como os tipos se sentem importantes e finos só por terem um fato engomado! Depois saem daqui e vão de autocarro para casa, a contar as gorjetas». As amigas não resistiam à sua rebeldia indomável. E riam. Margarida ria sempre muito às quintas. E a essa hora, a essa fatídica hora, ria também. Como podia rir? Como podia não ter sentido?

Nessa manhã, Margarida Rebelo acordou à hora do costume. O rádio aos gritos, como sempre. O marido a segredar-lhe «São horas», como todos os dias. Levantou-se a praguejar, frases desordenadas sobre o Euromilhões que não havia
meio de lhe sair e a tristeza de passar toda uma vida a trabalhar para os outros. Enfim, uma manhã idêntica às demais.

João dormia destapado, um pé a sair da cama. A mãe gostava de o ver dormir. Ficava muitas vezes assim, na ombreira da porta, com a caneca do café quente na mão, a escutar a sua respiração profunda. Parecia-lhe impossível que aquele matulão de um metro e oitenta tivesse realmente nascido de si. Comovia-a olhá-lo, como fazia 18 anos antes, quando ele era só uma nesga de gente. Nessa manhã, Margarida não o espreitou. Estava atrasada e não o espreitou. Não há dia que passe sem que se arrependa. 

"Minha senhora, vai ter de ser forte". Palavras desprovidas de sentido. As pernas fracas. Forte? "O seu filho está em coma". O bater do coração. O medo. E agora?

E agora?

"Sabem qual é a diferença entre uma loira e um mosquito?" A Marta, de novo. Talvez a pessoa com maior habilidade para contar anedotas. Tinha a magia de transformar uma graçola desenxabida numa piada de chorar a rir. "O mosquito quando leva uma pancada pára de chupar!" Na mesa ao lado há quem se volte ostensivamente, mostrando desagrado, homens de fato e gravata que fecham negócios, homens de fato e gravata que parecem nunca ter esboçado um sorriso sequer. Marta não controla as gargalhadas vibrantes. Os copos cansam-se dos brindes, tantos brindes. "Ao sexo forte", à felicidade, ao Euromilhões, à amizade. E as barrigas magoam de tanto riso, como no áureo tempo da faculdade, em que eram conhecidas como "As Cinco". Só quando estão juntas conseguem alcançar a leveza conferida pela irresponsabilidade. Só durante os almoços das quintas-feiras experimentavam esse desatinado prazer do regresso à juventude.

A impossibilidade. A impotência. Em coma? O corredor comprido. Luzes. O odioso cheiro do éter. O Pedro a chegar de lágrimas nos olhos. Os dois abraçados na mesma incredulidade. Como é que ele está? O bater descompassado de dois corações. O medo.

João tinha escolhido o horário da tarde na faculdade. Os pais tentaram dissuadi-lo, "E durante a manhã, o que é que vais fazer? Dormir?" mas ele teimou que não, estudaria de manhã com a cabeça fresca - sabia usar expressões que convenceriam os pais e "cabeça fresca" era uma delas - e depois ocuparia toda a tarde com as aulas. Foi assim no primeiro mês. Do segundo em diante passou a dormir todas as manhãs, a chegar atrasado às primeiras aulas, a sair todas as noites. A mãe sossegava o pai: "Deixa-o. Está na idade."

Nesse dia, João dormiu até tarde, como habitualmente. Acordou em sobressalto, passou fugazmente por baixo do chuveiro, vestiu uma t-shirt e umas calças de ganga, pegou na mota e arrancou à pressa, a mão a acenar à dona Ana. Foi a última vez que a porteira do prédio viu o seu Joãozinho. "Vá com cuidado, menino. Vá com cuidado!", gritara-lhe ela, no segundo imediatamente anterior a vê-lo a sumir-se.

Na 2ª circular, trânsito parado. À uma da tarde, três filas de automóveis estáticos, cabeças de fora dos vidros em busca de razões, sirenes ao fundo.

À saída do restaurante, Margarida a tentar caçar o telemóvel, submerso no interior da mala. Uma mão às apalpadelas, carteira, caixinha das pinturas, agenda, chaves do carro, chaves de casa, escova do cabelo. O telemóvel submerso, o toque abafado e incessante, a mão num desespero de escavadora.

Em Benfica, a porteira a varrer o terraço, a cumprimentar a vizinhança, a comentar a vida alheia, "Sabia que o sr. Mário já não está com aquela rapariga, a Adelaide?", "Não me diga...", "Digo, digo. Aqui para nós, que ninguém nos ouve, também parece que ela era assim a modos que um bocado nervosa...", "Ah, sim?", "Não lhe contaram o que é que ela fez na semana passada?"

"Minha senhora, vai ter de ser forte." Palavras. Palavras avulsas, vazias de significação. As pernas fracas. Forte? "O seu filho está em coma." O bater do coração. O medo. E agora?

E agora?

Margarida a alcançar o telemóvel, teimoso. "Está? Sou sim".

Pedro numa reunião no escritório. A sala cheia, dez homens parecidos com os engravatados do restaurante onde Margarida e as amigas regressavam à juventude, projectos, discussões, cafés em cima da mesa.

Os carros a passar devagarinho, os olhares curiosos e mórbidos à procura de sangue, João inerte no asfalto, a mota debaixo de uma camioneta, um homem de mãos a agarrar a cabeça. Ambulâncias, bombeiros, polícia.

"Dona Margarida Rebelo?" "Sou sim", "Fala do Hospital de Santa Maria, vou pedir-lhe que tenha calma". Margarida em pânico, o coração num disparo, o medo. "O que foi? O meu filho, onde está o meu filho? O que aconteceu ao meu João?"

A dona Ana apoiada na vassoura, à conversa com a porteira do prédio ao lado.

Pedro a receber um telefonema, "Eu disse-lhe que não me passasse chamadas, Cláudia". Cláudia a morder o lábio num pedido de desculpa. "Desculpe, Dr. É a sua mulher. E está muito nervosa."

As cinco amigas a grande velocidade para o hospital, Margarida aos soluços, o riso transformado em lágrimas, a alegria convertida em drama, no maior de todos os dramas imagináveis, a juventude metamorfoseada em velhice. Margarida subitamente envelhecida, engelhada, carcomida, senil.

O corredor comprido. Vozes desconexas. O perturbante perfume do éter. Batas brancas e diagnósticos incompreensíveis. Luzes. O bater do coração. E o medo.

O medo.

"Minha senhora, vai ter de ser forte." Palavras desprovidas de sentido. As pernas fracas. Forte? "O seu filho está em coma". O bater do coração. O medo. E agora?

E agora?

A impossibilidade. A impotência. Em coma? O corredor comprido. Luzes. O odioso cheiro do éter. O Pedro a chegar de lágrimas nos olhos. Os dois abraçados na mesma incredulidade. Como é que ele está? O bater descompassado de dois corações. O medo.

Durante dois dias, a esperança. Um fio ténue e invisível a permitir a sobrevivência. Durante dois dias, a fé. Durante dois dias, a luta de uma mãe e de um pai pelo regresso do filho. Margarida falou com ele quase ininterruptamente. Deu-lhe a mão. Afagou-lhe os cabelos. Pediu-lhe que ficasse. João não pôde ficar.

Já passou um ano mas a dor mantém-se intacta. E agora? Como existir depois de perder um filho? Para quê existir?

Naquela manhã, Margarida não o espreitou enquanto dormia. À hora do acidente, Margarida ria e brindava e tudo isso lhe parece agora demasiado grotesco. Como é que pôde não sentir? Como é possível que uma mãe não sinta no peito a dor instantânea da perda? A dor da dor de um filho?
Os dias teimam em passar, apesar de tudo. Dizem que a vida continua. Talvez. Se quisermos chamar vida à existência pura e simples. Se quisermos chamar vida ao acordar, ao respirar, ao levar um pé à frente do outro. Margarida e Pedro costumam dizer que não vivem. Subsistem. É essa a resposta de ambos para a pergunta que persiste ainda hoje, um ano depois. E agora?

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