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Cocó na fralda

Cocó na Fralda

Peripécias, pilhérias e parvoíces de meia dúzia de alminhas (e um cão).

Mudar de Vida #18: Bárbara Alves da Costa

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Foto: Paulo Miguel Martins 

 

Não seria estranho se a víssemos chegar montada num cavalo bravo, sem sela ou arreios, domando o bicho apenas com a força da sua natureza. Vendo-a ali, no campo, a conversar com a dona Gertrudes, a caminhar pelas ervas altas, apontando para os limites do terreno, fica difícil acreditar que nasceu em Lisboa, que foi jornalista, que teve outra vida antes desta, que lhe parece colada ao corpo, à alma, à existência inteira. 

Bárbara Alves da Costa tem 44 anos e é a prova de que todos podemos ser muitas coisas, muito mais do que uma só. Ela é cidade e informação e festas e amigos e viagens, mas também é campo e silêncio e contemplação e sossego. Talvez seja uma mistura de mãe, pai e avó. A mãe, nascida e criada na Avenida de Roma, sonhava com a vida no campo. O pai, nascido e criado no Areeiro, era urbano e "alucinado", baterista da banda "Jets", jornalista de investigação. A avó Corina (mãe do pai) era toda fantasia, amor e viagens pelo mundo inteiro. Lia histórias sentada no chão, acreditava que o mundo era mágico e garantia aos netos que tudo era possível, bastava acreditar. Acreditar e dar: "Quanto mais dás, mais recebes", era um dos seus lemas.

É neste caldo que Bárbara cresce, entre a realidade e a imaginação, entre Lisboa, Cascais e o mundo. Talvez por influência do pai (cresceu a vê-lo investigar temas como a droga ou a prostituição), estuda Comunicação e Marketing no ISCEM e, em 1995, vai para Nova Iorque fazer um ano (Marymount Manhattan College). Chegou em Setembro e em Dezembro levou o seu currículo à MTV da Broadway. Em Janeiro começava um estágio na MTV Latino News. "Se acreditares, tudo é possível", dizia-lhe a avó desde sempre. E mesmo longe, com um oceano entre elas, Bárbara conseguia ouvir aquela frase, tantas vezes repetida, como um mantra. Foi assim que, sem pensar duas vezes, foi entregar o currículo à ABC mal terminou o estágio na MTV. E, como se fosse uma das magias de que a avó lhe falava, começou a trabalhar no Good Morning America. 

Foi um ano do caraças. Não há adjectivo melhor. Foi do caraças mesmo. "Fui com três amigas da universidade e vivemos um ano em Nova Iorque. Dá para imaginar?" No final do ano, Bárbara recebeu uma proposta para ficar a trabalhar na MTV e não aceitou: "Sou Caranguejo e a família e os amigos são muito importantes. Não quis ficar. Voltei para Lisboa, terminei o ISCEM, fiz o Cenjor. Estagiei na LUSA, no Público e na TVI. Entretanto, uma das minhas melhores amigas manda o meu currículo para o CNL (Canal de Notícias de Lisboa) e eu vou abrir o CNL e fico lá até ao fim. Nessa altura, éramos um grupo de amigos todos a viver no mesmo prédio, em Xabregas. Foi épico. Quando aquilo acaba, o Nuno Santos vai-me lá buscar para o arranque da SIC Notícias."

Namorou com um jornalista da SIC e, depois de 3 anos a viverem juntos, casaram durante uma reportagem em Las Vegas. Estavam juntos havia 5 anos quando nasceu a Maria do Mar. Separaram-se pouco depois. Ficaram amigos mas a convivência já não era possível. Esteve três anos sozinha, viveu com a irmã, não quis envolvimentos apressados para colmatar algum vazio, até porque, com ela, há poucas hipóteses de nascer qualquer vazio. Entretanto, reencontrou um ex-namorado (de quando tinha 17 anos). O Pedro. Ele com um filho de três anos, ela com uma filha de três anos (tinham apenas 1 mês de diferença). "Durante um tempo íamos a casa um do outro sem que os miúdos nos vissem. Aproveitávamos quando eles já estavam a dormir. Não queríamos precipitar nada. Quando decidimos viver juntos foi o caos. Fomos para casa dele, que tinha dois quartos. Os miúdos começaram a dar-se como cão e gato. Dividiam o quarto como se fossem territórios inimigos. "Não passas em cima do tapete porque este lado é meu!" Foi um início muito duro. Quis acabar com aquilo, sugeri que vivesse cada um na sua casa mas o Pedro protestou. Dizia que isso não era uma família. Lutámos imenso para que os miúdos ultrapassassem o facto de terem deixado de ser filhos únicos. Estamos juntos há 10 anos mas os primeiros 4 foram mesmo uma prova de fogo. Quando íamos de férias todos juntos era um tormento. Só pensava: porquê?? Porque é que insistimos nisto? Depois íamos de férias os dois, para compensar."

Há 8 anos, Bárbara e Pedro compraram um monte no Alentejo. Tinha uma casa e umas ruínas e a ideia era terem ali um refúgio para os fins-de-semana e as férias. Sempre que iam para lá, a filha de Bárbara e o filho de Pedro davam-se bem. Havia espaço, muito espaço, e a liberdade tinha em ambos um efeito apaziguador. Era o lugar onde tudo corria bem, a uma hora e picos de Lisboa. Entretanto, Bárbara engravidou da Alice. Nesse ano, a sogra tinha um cancro, o sogro morreu com um cancro. A vida tornou-se mais triste e pesada, com tanta doença. Bárbara entrava todos os dias na SIC, em Carnaxide, às 8.30 da manhã. Saía cedíssimo de Cascais e levava a miúda ao colégio no Restelo. Não gostava de ser aquela mãe, o tipo de mãe que passa o dia inteiro longe da família. E estava grávida. Na SIC era feliz, claro, felicíssima a fazer reportagem. Mas sentiu que tinha de escolher. Um dia, ligou ao Pedro e disse: lhe: "Vou-me despedir." Ele, que a conhece de ginjeira e sabe que ela era mulher para isso, perguntou: "Hoje?" Ela gargalhou. "Hoje não. Mas prepara-te. Vamos fazer um Turismo Rural no monte. Vamos largar tudo e vamos viver para lá."

BAC.jpgFotos: Rita Ferro Alvim

 

Pedro, arquitecto de formação, começou a fazer contas sem ela saber. Um plano com pés e cabeça. Três meses depois do  telefonema em que ela o avisou de que se iria despedir, Bárbara pediu a demissão. Era Dezembro. Ainda tentaram candidatar-se aos fundos da União Europeia mas já era tarde. Então, meteram-se numa formação de jovens agricultores para se poderem candidatar ao processo todo. Ela grávida de 8 meses, a subir e a descer de tractores. Entretanto, houve uma reabertura do fundo ao qual se tinham tentado candidatar. "Tinham sobrado uns dinheiros e tínhamos um mês para apresentar uma candidatura detalhada. Era preciso descrever tudo ao mais ínfimo detalhe: uma memória descritiva desde que o cliente entrasse até que saísse. Um dossier com três produtos para cada item de cada assoalhada. Ou seja: tínhamos de apresentar 3 orçamentos para candeeiros, 3 orçamentos para camas, para sofás, para mesas de cabeceira, três orçamentos para tudo! Tivemos uma conversa com os miúdos em que lhes explicámos que eles iam ter de se orientar muito sozinhos naquele mês. E falei com as minhas melhores amigas para nos ajudarem. Entregámos o dossier no último dia, nos CTT de Cabo Ruivo, que eram os correios que fechavam mais tarde. Dois meses depois recebemos uma carta a dizer que o projecto estava aprovado."

E agora? A palavra aprovado trouxe consigo o susto. Quase como se só perante a palavra "aprovado" tivesse acordado os dois sonhadores para o passo que estavam efectivamente a dar. As escolas. A filha dela num colégio, o filho dele noutro. E o resto? O mobiliário para o turismo, as obras, tudo. "Fui às arrecadações da minha mãe e das avós, minhas e do Pedro. Comprámos camas, algumas cadeiras, lençóis, toalhas, essas coisas de hotelaria, alguns candeeiros. Tudo o resto é das avós e bisavós. Ligámos para os amigos para nos ajudarem a montar tudo. Estivemos a trabalhar de manhã à noite sem electricidade, sem água quente. A Terra do Sempre existe com os amigos. Fizemos sempre tudo com os nossos melhores amigos."

Em Junho abriu com um quarto. Depois foi abrindo mais outro. E outro. Em Outubro

 

Mudar de Vida #17: Raquel Ruiva

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"Senhoras e senhores... a miss Portugal é..." E Raquel Ruiva sonhava - acordada - que recebia, com os olhos a tremer de emoção, a coroa, o manto e o ceptro que lhe confirmavam a beleza. Sempre que a RTP emitia mais uma edição do concurso que elegia a mulher mais bela do país, Raquel não descolava o olhar e a atenção do ecrã e suspirava pelo dia em que seria ela a escolhida. 

Os anos foram passando e as ideias de viver da beleza foram ficando guardadas no baú das memórias que se contam aos filhos e netos e em entrevistas como a que deu origem a este texto. Raquel era boa aluna e decidiu seguir Gestão. Entrou no ISEG com média de 17,8 e a sua praxe foi andar com o notabilíssimo número escrito na testa. A maior parte dos colegas tinha dificuldade em entender que aquela rapariga, que tinha média para entrar na Universidade Nova (sempre tão desejada), tivesse optado pelo ISEG por questões ideológicas: "Como muitos jovens tinha ideologias mais à esquerda e por isso meti na cabeça que a Nova não era para mim. E como sou de vestir a camisola, passei a sentir que o ISEG era a minha casa e defendia-a com unhas e dentes. O meu desporto preferido da altura era picar-me com pessoas da Nova."

Depois do curso de Gestão, especializou-se em Marketing porque sempre se sentiu mais comercial do que financeira. E em 2002 entrou para a Deloitte, onde ficou 8 anos. Em 2008 foi para Angola, pela Deloitte: "Gostei muito de estar na Deloitte. Não se tem vida, é verdade, mas eu sabia que se temos de dar à perna é nesta fase da vida. Sempre tive essa consciência. E a Deloitte é uma daquelas empresas em que até podemos começar por não ganhar muito mas se fizermos a nossa parte podemos ter a devida compensação."

Em 2009, Raquel recebeu um aliciante convite para ser Directora Financeira da Toyota em Angola. E foi também nesse ano que conheceu o Afonso, que viria a ser o seu marido, e que era administrador de uma empresa também em Angola. Foram dois anos e meio de pura loucura. "Éramos como dois putos a fazer Erasmus, mas com dinheiro. Ganhávamos muito bem, divertíamo-nos muito, tínhamos muitos amigos. Era uma vida de sonho. Tínhamos uma casa com duas empregadas. Era um luxo."

Em 2012 vieram para Portugal porque já não aguentavam as saudades de casa. Queriam ter filhos e sentiam que só fazia sentido constituir família por cá. A diversão tinha sido boa mas agora era tempo de falar a sério. De assentar. "Quando voltámos eu não tinha emprego. As pessoas achavam que éramos malucos por voltarmos para um país em crise, logo nós que estávamos tão bem. Mas ainda bem que o fizemos. Foi na altura certa. Muitos amigos não vieram nessa altura e depois já não conseguiram fazer a transição. Além disso, antes de voltarmos, fizemos um plano a 5 anos prevendo os piores cenários. Até os filhos que ainda não tínhamos estavam naquela folha de Excel!"

Depois de regressar e responder a alguns anúncios, ela arranjou emprego como responsável financeira de uma pequena empresa de restauração mas entretanto engravidou e o ambiente tornou-se tóxico: "Os sócios contradiziam-se e ir trabalhar num ambiente de guerra era tudo o que eu não queria, ainda para mais grávida. Deixei de trabalhar e dediquei-me a ser grávida. Depois, o Vicente nasceu e dediquei-me a ser mãe."

Entretanto, juntou-se com um grupo de amigas que tinham o ideal de se juntarem a trabalhar em projectos em part-time ao mesmo tempo que tinham os filhos consigo. Era uma espécie de cooperativa de mães. Elas trabalhavam e as crianças estavam por ali, a brincar, a dormir a sesta, todos juntos. Uma dessas mulheres estava ligada à alimentação e nutrição, até escreveu um livro sobre a alimentação paleo e todas se surpreendiam com as caixas que a Raquel tinha para guardar os alimentos. Façamos então uma paragem aqui, para introduzir outro tema.

Raquel Ruiva sempre viveu rodeada pela Tupperware. A mãe quando se viu desempregada começou a vender cremes, primeiro, Bimbys depois, e por fim Tupperware. Passado um mês, a mãe era chefe de grupo e passado um ano era coordenadora. Em casa da mãe sempre houve Tupperware, nunca fakeware. "O meu irmão vivia em Inglaterra e, quando veio com a minha cunhada para cá, sem emprego, ela ficou a trabalhar com a minha mãe e o meu irmão posteriormente também se juntou, apesar de ser financeiro de uma empresa. Por isso, sim, a Tupperware sempre fez parte da minha vida. Mas nunca profissionalmente." Até ao dia.

Foi quando as amigas lhe perguntavam que caixa era aquela ou onde é que tinha comprado aquela caixa tão boa que Raquel pensou "e se?" E de tanto pensar "e se?" avançou mesmo e criou a Caixa Mágica, no Facebook, para vender Tupperware. E a partir desse dia, vestiu a camisola, tal como quando se picava com os alunos da Nova, para defender o "seu" ISEG. Algumas pessoas próximas e até amigas ficaram chocadas. Primeiro acharam que era uma situação temporária, uma espécie de gracinha, de part-time. Mas quando perceberam que Raquel estava empenhada e que a sua vida nova era realmente esta afastaram-se. "Há um certo preconceito. Eu era financeira, fui quadro de grandes empresas, e em vez de retomar esse caminho (e tinha convites), optei por tornar-me vendedora de Tupperware. Foi como se, para alguns, me tivesse tornado noutra pessoa. Mas não. Eu sou a mesma. E gosto realmente disto. Porque não é só vender. Há marketing, há todo o trabalho de formação da minha equipa, há o contacto com os clientes."

Raquel começou por ser vendedora mas depressa se tornou chefe de grupo e agora é team leader. Faz gestão dos grupos e dá formação contínua. Neste momento tem mais de 90 pessoas a quem dá formação:  "Estes são artigos de qualidade superior que requerem explicação porque uns têm uma especificidade, outros têm outra. Uns são para guardar alimentos cozinhados, outros são para guardar alimentos crus. E podem revolucionar a forma de armazenar alimentos, podem ajudar a que durem incomparavelmente mais, preservando as suas propriedades. E é preciso adequar a formação ao tipo de pessoa que recruto para o vender."

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O brilho do seu olhar, enquanto fala da Tupperware, é indesmentível. Por muito que por vezes seja estranho dizer que é vendedora da Tupperware quando lhe perguntam a profissão durante um jantar, por muito que não seja propriamente o que sonhou escrever no item "Profissão" nos boletins de matrícula da escola dos filhos, por mais que ainda perdurem olhares de "mas-como-é-que-esta-mulher-se-meteu-nisto", Raquel gosta genuinamente do que faz. "E tenho tempo para mim, para os meus filhos, não tenho de sair às tantas e sacrificar todos ou quase todos os momentos em família por conta de uma carreira numa empresa de topo." Além disso, é bem paga. "Sim, estou neste momento a ganhar o mesmo que ganharia na área financeira", acrescenta. O que, pensando bem, não é despiciendo para se acrescentar. Raquel termina a frase dizendo: "Não trocava a Tupperware, não. Nem pensar."

Em 2018 conquistou um patamar importante nesta nova carreira. "Fui a rainha-chefe de 2018, ou seja, significa que fui a primeira do país no que diz respeito ao recrutamento de novos vendedores, à retenção de vendedores e ao crescimento." E sabem o que implicou ser a rainha-chefe de 2018? Ser chamada ao palco, numa cerimónia com pompa e circunstância, e receber uma coroa, um manto e um ceptro. Lembram-se do primeiro parágrafo? Pois bem. Raquel conseguiu até cumprir aquele sonho infantil. Não foi Miss Portugal. Mas foi a rainha da Tupperware. Dito assim pode dar vontade de rir ("o meu marido gozou um bocadinho") mas dentro do contexto foi realmente um momento que fez sentido. E que pode repetir-se por vários anos, que ela nunca achará demais. Afinal, quem não gosta de ser premiado pelo seu bom trabalho? Ainda para mais quando esse trabalho representa uma nova escolha, um novo caminho, uma nova vida.

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Mudar de Vida #16: Ricardo Teixeira

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Andar de mota e fazer surf eram as únicas coisas que queria da vida. Tinha 17 anos e os dias corriam leves e felizes. Para Ricardo Teixeira a praia só fazia sentido se fosse para aquele confronto com o mar, aquela dança solitária que o fazia sentir-se livre, temerário, vivo. Nunca o viam deitado na toalha ou em convívio com os amigos. Praia era surf, ponto final parágrafo. Para lá chegar, claro, ia de mota. E não devia andar devagar porque todos vaticinavam que ainda ia morrer num acidente. Ricardo ria-se, não ligava. Queria adrenalina, queria desafiar-se, tinha 17 anos e aos 17 anos não se pensa cá em morte.

Um dia, quando ia experimentar uma prancha nova, encontrou os amigos das motas e decidiram ir todos juntos para a praia. Na brincadeira, um atirou-lhe areia. Ele foi a correr atrás. O outro atirou-se à água. Ele seguiu-o. Estava longe de imaginar o que aconteceria depois. "Dei o chamado 'golpe de coelho' na cervical. Senti logo que tinha sido grave. Não deixa de ser irónico. Sempre tive medo de mergulhos porque o meu pai tinha-me contado, uns dez anos antes, que um amigo tinha dado um mergulho que tinha corrido mal. Fiquei de tal modo impressionado com aquilo que deixei de andar na ginástica onde já fazia mortais e piruetas. Ganhei medo. E depois - ironia das ironias - num mergulho absolutamente banal para o mar, aconteceu aquilo."

Aquilo foi uma tetraplagia. Ricardo recebeu a notícia da pior forma possível. "Estava no hospital e apareceu uma psicóloga que me acordou a dizer que precisava de falar comigo. Depois perguntou-me se os meus pais tinham possibilidades financeiras. Quando quis saber porquê respondeu: 'Porque o Ricardo nunca mais vai andar e vai precisar de uma cadeira eléctrica porque nem força nos braços vai ter para fazer a cadeira andar.' Foi uma forma simpática de dar a notícia a alguém que tinha 17 anos e só pensava em motas, surf e skate."

Mas Ricardo é feito de uma fibra diferente. Talvez seja da fibra das pranchas, que resistem à violência da ondulação. E nunca precisou de cadeira eléctrica. Durante estes 20 anos (que já passaram desde o acidente) andou sempre de cadeira manual. Só há três anos passou para a cadeira eléctrica porque comprou uma carrinha adaptada onde a cadeira entra (e serve de lugar para o condutor) e sai, tornando-o completamente autónomo. Mas voltemos atrás, para continuar a demonstrar por que razão a fibra deste homem é especial.

Desde os 13 anos que Ricardo tinha uma skate/surf shop em Alverca. Bom, não era propriamente uma loja, que nem seria legalmente possível por se tratar de um menor, mas era um canto na loja da mãe que ele geria, sozinho. Os pais não interferiam e ele fazia negócio. Ia fazer compras a grandes marcas sozinho e levava o cheque assinado pelos pais que tinham nele toda a confiança. Não se enganaram. Sempre soube fazer dinheiro do dinheiro, como no milagre da multiplicação (só que nunca foi milagre, mas sim jeito para o negócio e muito trabalho).

Depois do acidente, largou a loja e dedicou-se à compra e venda de acções. Não sabia nada sobre a Bolsa ou sobre mercados mas rapidamente aprendeu e garante que ganhou muito dinheiro. Quando apareceu a internet, meteu-se por aí com a facilidade com que sempre se meteu em tudo. Começou a desenvolver páginas para empresas (na altura os sites chamavam-se assim) e voltou a ter sucesso. "Aos 20 anos tinha a minha casa e vivia sozinho. O acidente não me impediu de nada. Era na minha casa que desenvolvia os sites."

Fez o 12º ano e entrou no ISCTE. Mas, ao mesmo tempo, foi a uma entrevista na Microsoft e ficou logo lá a dar assistência técnica a clientes. Como tinha um emprego durante o dia na Microsoft e tinha a sua empresa a carborar nas horas que sobravam, não chegou a ir para a faculdade. Na Microsoft fez um projecto sobre novas formas de teletrabalho, que deu nas vistas: New ways of Working. O Bill Gates teve conhecimento do projecto e ganhou um prémio a nível europeu e vários prémios nos Estados Unidos. 

Passado um ano, despediu-se da Microsoft, arranjou um escritório em Lisboa e chegou a ter 15 funcionários a trabalharem consigo, na construção de sites. Foi abrindo várias empresas dentro do mesmo ramo, vendeu uma delas ficando accionista e, em 2010, achou que as agências de publicidade precisavam de um grande apoio a nível digital e criou uma produtora chamada Digital Works (que abriu também um polo no Reino Unido).

Em 2007 Ricardo abriu também a Jump Master, uma empresa de investimentos imobiliários. "Aproveitei a crise e comprei apartamentos, prédios, escritórios. Uns vendia, outros ficavam." Continua a ter essa empresa e no ano passado vendeu a Digital Works (que teve durante 7 anos). "Estava farto de estar na mesma área. Vendi e pensei: e agora? Não quero ficar a viver dos rendimentos... Fui ler o meu ficheiro das ideias. Tenho um sócio noutra empresa de investimentos imobiliários e fomos almoçar. Considero-o como um filho mais velho. Estávamos a bater bolas e, às tantas, contei-lhe a minha ideia. Ele deu um pulo na cadeira: 'Vamos avançar! Sou teu sócio nessa!'"

A ideia era totalmente diferente de tudo o que já tinha feito: uma casa de... frangos assados. Mas uma casa de frangos diferente: bonita, moderna, com pinta. E com preocupações ambientais. Onde se pudesse comer mas que também tivesse serviço de entregas. Era preciso reinventar o mercado. Ricardo pôs-se em campo. Montou o Business Case e percebeu que podia ser rentável. "Fiz um documento extensíssimo. Queria acabar com os plásticos e com os alumínios... Não queria ter carvão, que é nocivo para a saúde. Era preciso reinventar as caixas, era preciso reinventar as grelhas. Comecei a definir que só me metia nisto se conseguisse dar a volta a tudo o que me parecia desactualizado e mau neste segmento. Fui ter com vários chefs para saber como ter um frango bom sem carvão e sem fumo, como ter bons molhos, e o Joe Best disse que queria entrar no projecto e ficou como consultor."

E assim nasceu o Bairrista. A 9 de Agosto do ano passado, porque acharam que ia estar pouca gente e que, assim, podiam ir-se preparando para maior fluxo de clientes. Nesse dia tiveram a visita de mais de cem pessoas e, no segundo dia, receberam duzentas. 

O que distingue o Bairrista das outras casas de frango? Bom, tudo. Para começar, o espaço é tão acolhedor que apetece comer lá dentro e, como não há fumos, não se corre o risco de sair de lá com... um perfume novo. A segunda diferença é mesmo essa, o facto de não haver fumo. "Conseguimo-lo com grelhadores ao contrário. Ou seja: em vez de estarem em baixo, com carvão e brasas, estão em cima. Em baixo temos água. Assim não há fumo e muito menos carvão, que só nos faz mal." Quanto aos frangos, são criteriosamente escolhidos. "Nunca tive um frango congelado. Recebemos frangos todos os dias frescos. São abatidos 24 horas antes." As batatas fritas também são diferentes. São fritas em gordura vegetal e, para ficarem secas e não ensopadas em gordura, passam por um secador mal acabam de fazer. Depois, a outra grande diferença tem a ver com o ambiente. Todas as caixas são em papel. Tão giras que as pessoas têm pena de as deitar fora.

Ricardo é casado e tem um filho que vai fazer 5 anos. Ao filho tem muito para ensinar, não apenas a mexer-se no mundo dos negócios, como também a viver a vida sem se deixar vencer pelas adversidades. Quando conversamos com o Ricardo rapidamente esquecemos que está sentado numa cadeira diferente da nossa. E quando estamos de pé ao lado dele nem nos lembramos que ele segue o caminho num plano mais abaixo. É como se estivesse exactamente ao mesmo nível do olhar. Porque ele é muito mais do que aquele mergulho e do que o mergulho lhe fez. Porque ele é tão grande como o tamanho dos seus sonhos. E se este homem sonha!

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*Mudar de Vida é uma rubrica que nasceu aqui no blogue em 2016 e que pretende contar histórias de pessoas que deram um rumo completamente diferente à sua vida profissional, com tudo o que isso implica em termos pessoais

Mudar de Vida #16: Sara Sousa Ferreira

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A culpa foi de um texto do livro de leitura, da Primária. Sara tinha 6 ou 7 anos quando deu com a história "O Tio Elói é Arquitecto". Quando chegou a casa disse, determinada, que já sabia o que ia ser quando crescesse: arquitecta. E assim ficou decidido. Bom, talvez a culpa não tenha sido do texto. Na verdade, talvez aquela história lhe tenha feito sentido porque a vocação para a área já lá estava. Porque o que é certo é que a vontade de seguir Arquitectura, ao invés de decrescer com a passagem do tempo, aumentou. E aumentou tanto que, no 9º ano, deixou a escola que ficava em frente à sua casa, na Póvoa de Santo Adrião, para ir para a António Arroio, o que a obrigava a levantar-se às 6h da manhã e a apanhar três transportes: camioneta da Póvoa até Entrecampos. Metro até ao Campo Pequeno. Autocarro até às Olaias. Nunca faltou às aulas, nunca desistiu do sonho. Quando chegou a altura de se candidatar à universidade, a decisão estava mais que tomada. Entrou para Arquitectura de Interiores, na Faculdade de Arquitectura de Lisboa, mas não quis. Então, entrou na Lusíada. Durante o percurso, um dos professores disse-lhe: "Se queres mesmo seguir isto tens de sair de Portugal". Ela achou que talvez fosse exagero. Não sabia ainda o que a vida lhe reservava. 

Começou a trabalhar ainda durante a faculdade, num atelier. Era para ter ido fazer um mestrado em Barcelona mas o fim de uma relação de 8 anos deixou-a sem forças para mudar de país e, por isso, ficou por cá. Trabalhou durante 11 anos consecutivos na sua área. Gostava do que fazia, apesar de trabalhar 16 horas por dia, por vezes mais. Continuava apaixonada pela Arquitectura, apesar de nunca ter tido um contrato: "Durante os 11 anos, estive sempre a recibos verdes. Falsos recibos verdes porque trabalhava como se fosse efectiva nas empresas. Anos a fio a recibos verdes. Sempre sem qualquer segurança contratual." 

Entretanto, chegou a crise da construção. Foi terrível. Os projectos pararam, as obras congelaram, o desemprego na área disparou. Calhou-lhe a si. Ficou desempregada. E foi nessa altura que recebeu uma proposta que a deixou de cara à banda. Uma empresa de recursos humanos contactou-a para que fosse gerente de uma loja de 800m2 de uma conhecida marca de retalho. Explicou que não era a sua área, que não tinha experiência, que nada sabia sobre o assunto. Insistiram, que queriam alguém que soubesse resolver conflitos, que pensasse fora da caixa, que justamente não estivesse dentro do ramo para o pensar de fora para dentro. E Sara pensou: por que não? Decidiu arriscar. E foi então que teve o primeiro contrato da sua vida. Sim, foi preciso sair da Arquitectura, com que sonhava desde os 6 ou 7 anos, foi preciso abandonar a área para a qual tinha estudado, para assinar um contrato de trabalho. 

Um ano depois, nova crise, tentaram emprateleirá-la, fizeram pressão psicológica. Ao mesmo tempo, teve um problema pessoal sério. Foi-se abaixo. Meteu baixa psiquiátrica, meteu os proprietários da empresa em tribunal, resolveu os assuntos, arrumou gavetas. Curou a alma. Entretanto casou e continuava desempregada. A construção ainda não tinha estabilizado, continuava sem conseguir arranjar emprego.

Um dia, uma amiga veio ter com ela. Tinha uma pulseira muito gira e, quando ela lhe contou quanto custara, Sara arregalou os olhos: "Quanto??? Credo, podias ter-me dito! Fazia-te uma igual!" A amiga não acreditou. E ela fez. Uma, duas, três, um colar, dois. As amigas andavam doidas com as suas criações. Sugeriram que fizesse uma página de facebook. E assim, no ano de 2012, nascia a Fio a Pavio. No dia 17 de Julho do mesmo ano, dia do aniversário da Sara, o marido ofereceu-lhe o registo da marca. Passado pouco tempo, Sara Sousa Ferreira começou a aparecer em revistas de nicho. Tinha criado uns maxi-colares que estavam a dar nas vistas. E é então, em Dezembro de 2013, que surge o convite para ir ao programa da TVI "Você na TV". Sara é bem capaz de ter sido das poucas pessoas com uma empresa para divulgar que recusou um convite tão apetecível: "Cada peça que eu faço é única. Troco dezenas de emails ou conversas com cada cliente, para tentar saber quais serão as cores e materiais que vou usar, para que cada peça faça sentido para cada cliente. Ora, estava no auge dos maxi-colares, cheia de encomendas e tive medo de ir ao programa e, depois, não conseguir corresponder às expectativas. Tive medo de não conseguir dar vazão a tanta encomenda."

As histórias que já se cruzaram com a sua fazem-na emocionar-se várias vezes durante a nossa conversa. Porque Sara é um vulcão emocional, sempre à beira de entrar em erupção. "Tive uma cliente que me encomendou um colar para oferecer à mãe que estava internada com cancro. A seguir enviou-me uma foto da mãe, de bata, com o maxi-colar que eu tinha feito. Fiquei tão comovida... Passado um tempo, manda-me mensagem a dizer que a mãe tinha falecido e acho que foi sepultada com o colar. Cada peça minha tem uma história. E eu adoro histórias. Adoro pessoas. Adoro afectos. Gosto muito de Arquitectura e hei-de ser arquitecta até ao fim dos meus dias mas a Arquitectura nunca me deu este retorno emocional, humano, que a Fio a Pavio me dá."

O pior é fazer a família compreender isto. Para os pais a filha passou de cavalo para burro. Sara compreende que tenha existido um grande investimento na sua formação e que até possa ter havido alguma incompreensão no início. Mas agora? Agora que já passaram seis anos, agora que passou por tratamentos de infertilidade e por uma gravidez de risco para conseguir ter os seus gémeos, algo que seria de todo impossível se tivesse persistido com o sonho da arquitectura, a trabalhar 16 horas por dia, num frenesim incessante e periclitante: "É mesmo isso que todos pensam de mim há anos (ou a grandessíssima maioria, vá): que passei de cavalo para burro. Olham para uma arquitecta que decidiu ficar em casa a enfiar missangas e a não ganhar subsídios e a não ter horários e pensam que fui de cavalo para burro. É isto que a família - e aqui dói a valer - vê. Não chega ter uma marca que aparece em horário nobre no telejornal da SIC pelas mãos da Joana Latino. A verdade é que nada do que faça para a família próxima chegará aos calcanhares de uma vida sem rumo onde trabalhava 12 horas no mínimo, a recibos verdes e sem retorno, apenas o estatuto de ser a senhora arquitecta. Eu sou muito mais eu com a Fio a Pavio, eu sou muito mais feliz com as minhas missangas despretensiosas do que com a hipocrisia e a falta de respeito dos ateliers. Eu não deixei de ser arquitecta. Apenas deixei de exercer."

Sara vive rodeada de cores, de objectos que põem as pessoas mais bonitas, mais felizes. Vive rodeada de histórias e de afectos, porque é essa a sua natureza, é esse o seu dom. Pode já não ser a senhora arquitecta mas isso é muito pouco quando comparado com a felicidade que lhe trazem todos os fios com que se liga ao mundo.  

 

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Mudar de Vida #15: Bruno Teixeira

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Trabalhou 18 anos de gravata a sufocar-lhe a garganta. Durante quase duas décadas, a banca foi a sua segunda casa, às vezes a primeira. Passou por alguns dos mais importantes bancos nacionais e chegou a chefiar 40 pessoas. Foi então que sentiu aquele vazio. Aquele aperto. Como se, de repente, a gravata o estrangulasse. Mais do que o possível. Mais do que o suportável. E percebeu que não podia continuar ali. "Estava a morrer por dentro".

Bruno Teixeira não foi sempre infeliz na banca. Sublinha que aprendeu muito com algumas pessoas com quem se cruzou, que lhe deram formação, que o ajudaram, que o ensinaram a crescer, a ser melhor. Dessas não esquece. Porque se há qualidade que se orgulha de ter é a de ser grato. Na verdade, também não esquece as outras, as que lhe mostraram exactamente que pessoa não queria ser, que caminho não queria seguir. O importante é não esquecer nunca. E levar lições de onde quer se passe.

Pouco tempo depois de sentir que já não pertencia ali, chegaram por parte da administração as propostas de rescisão amigável. Ainda pensou que talvez não estivesse a ser justo, talvez pudesse aguentar mais, talvez não fosse o momento. Mas, como acredita que nada acontece por acaso, nessa mesma altura não recebeu um prémio de produtividade que era suposto ter recebido. E pronto. Ao desalento que já o consumia juntou-se o sentimento de injustiça. Uma chama perto de um barril de pólvora. A decisão estava tomada. Era só preciso assinar. Nessas vésperas, pouco ou nada dormia. Ia à casa-de-banho dezenas de vezes, com a barriga às voltas. De noite, deitado na cama, conseguia escutar os diálogos entre o diabinho - que repetia que era uma loucura trocar o certo pelo nada - e o anjinho - que jogava a cartada do "vais livrar-te disto, podes fazer algo de que gostes realmente".

Quando o anjinho ganhou o braço-de-ferro e Bruno assinou a rescisão do contrato, o chefe perguntou-lhe se tinha alguma coisa em vista. Não tinha. Então perguntou-lhe se ficava mais 6 meses, só para fazer uma transição mais suave. Ele disse que sim porque, na verdade, ainda não tinha traçado qualquer plano para si. Só sabia que não podia continuar ali por se sentir a morrer devagarinho. "Como o medo é forte, comecei a disparar currículos para todos os lados: financeiras, consultoras, outros bancos... É tão forte a ideia que nos passam de termos de procurar um emprego estável que ficamos sempre com medo. E o medo mata sonhos. Pode matar o futuro. E depois é engraçado o que se passa com este sentimento. Porque se não tens medo és inconsciente mas se tens medo és maricas. Aprendi que a melhor forma de lidar com ele é respeitando-o. Conversar com o medo, de frente, e dizer: tu vais-me acompanhar mas não me vais dominar. E foi assim que comecei a minha aventura."

Como nenhuma das empresas para as quais tinha enviado currículo lhe respondeu, como nem a uma entrevista foi, começou a pensar na vida. O que fazer? Foi então que pensou no skate. "Comecei a andar de skate com 13 anos. Entretanto, uns amigos meus que eram comentadores de manobras e circuitos e campeonatos de skate na Fuel TV um dia convidaram-me para ir. Fui e gostaram de mim. Tanto que passei a ser comentador residente. E então pus-me a pensar: eu gosto tanto do skate e do que o skate representa... e se eu desse aulas? Se criasse uma escola? E foi então que comecei a planear tudo, nesses 6 meses em que o meu chefe me pediu para permanecer no banco."

Começou devagarinho, com os filhos de alguns amigos. Mas, como tudo o que é bom tem um rastilho rápido, depressa vieram outros. E mais. E hoje a Flow Skate School já conta com quase 100 alunos, dos 4 aos 50 anos. 

O que é que mudou na vida do Bruno? Tudo. "Sabes, o pior que te pode acontecer na vida é ficares na tua zona de conforto. Acomodado. Porque aí já não evoluis, já não cresces, já não sentes medo. E sim, é importante voltar a falar dele. Eu sinto medo todos os dias. De não fazer dinheiro suficiente, de não conseguir pagar as minhas contas. Mas depois penso: foca-te no teu trabalho que o dinheiro vem." E tem vindo. Mas muito mais importante que o dinheiro é a qualidade de vida que passou a ter. A possibilidade de se encostar a uma árvore a ler um livro, a olhar o céu, a usufruir da vida. Trabalho não lhe falta, mas passou a ter tempo. E o tempo é demasiado valioso para ter preço. 

Além da qualidade de vida, o que passou a reger os seus dias foi a vontade de ajudar a transformar vidas e o desejo de ser transformado também. Porque nesta vida de professor garante que é ele quem mais aprende todos os dias. Sobretudo quando, do outro lado, o feedback é tão positivo: "Às vezes chegam-me miúdos a dizer: 'na escola ninguém gosta de mim porque eu não sei jogar futebol.' E ao fim de umas aulas, quando já conseguem fazer manobras de skate que os outros não sabem fazer, ganham auto-estima, ganham um alento que não tinham. E ser agente desta mudança, fazer parte disto é incrível. O skate, de resto, é uma metáfora da vida. Até conseguires fazer aquela manobra vais ter que tentar, vais ter que cair, vais ter que te levantar, vais tentar de novo. Como na vida, quanto maior o obstáculo maior o prazer de lá chegar. Porque tens duas hipóteses quando esbarras com um obstáculo: ou voltas para trás ou enches o peito de ar e tentas. E eu gosto de os ensinar a tentar."

Bruno tem reflectido muito sobre estas enormes diferenças entre quem trabalha por conta de outrém e quem tem um trabalho próprio. "Quando tens um trabalho certo, quer trabalhes bem quer trabalhes mal, quer faças quer não faças, o dinheiro vai estar lá ao final do mês. É certo. Quando trabalhas por tua conta, a tua mente foca-se em aprimorares o teu negócio, em fazeres cada vez melhor, em não te deixares dormir à sombra. Sobre o dinheiro certo... não é o mais importante, se bem que compreendo que seja uma segurança. Mas há muita gente que só tem mesmo dinheiro. Não tem o resto. O que te define é o modo como tratas os outros, e o resto vem por acréscimo. O meu lema, todos os dias é: hoje veio alguém ter comigo e foi melhor para casa? Se sim, dia cheio. Se não, amanhã será um novo dia para procurar fazê-lo."

Trabalhou 18 anos de gravata a sufocar-lhe a garganta. Fato, gravata, vida "arrumada", dinheiro certo no final do mês, um tom de pele amarelecido que quase sempre tem quem está obrigado a um horário fixo, luz artificial e ar condicionado. Hoje trabalha de calções e t-shirt, calça uns ténis, o skate debaixo do braço e a pele bronzeada de quem vive ao ar livre, a desfrutar da luz natural e da vida cá fora. E nunca teve tanta certeza de que fez a escolha certa.

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Mudar de Vida #14: Magda Lourenço

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A mãe teria gostado de ser artista mas não houve, em casa, abertura para isso. Acabou professora primária, tal como outras mulheres da família. Sem vestígio de vocação ou sequer interesse. Apenas para cumprir uma tradição, um caminho imposto. "A minha mãe não gostava de ser professora e acho que era infeliz. Depois, teve três filhos de seguida. Os meus irmãos e eu nascemos todos com um ano de intervalo. E acho que isso deu cabo dela de vez. Vivia deprimida, ansiosa, tinha fobias. Tinha alma de artista e pintava, era esse o seu escape. Infelizmente, não era essa a sua vida. Se fosse, talvez tudo tivesse sido diferente. Em casa, éramos três adultos e três crianças. Os meus pais, a minha avó e nós. Assim, de certo modo havia como que um adulto para cada criança. A minha mãe ocupava-se mais do meu irmão mais velho; a minha avó do meu irmão do meio; o meu pai de mim. O meu pai tinha sido militar e, por isso, tratava-me um bocado como se eu fosse um rapaz. Lembro-me muito bem de o ouvir dizer: 'Quando um homem não pode mais, ainda pode outro tanto!' Foi um ensinamento que me ficou para sempre. A vida é mesmo isso. Podemos sempre mais."

Magda Lourenço percebeu desde cedo o que pretendia para o seu futuro. Ou, pelo menos, aquilo que definitivamente não queria: "Pensei sempre: hei-de escolher o que quero fazer da minha vida. A minha mãe não escolheu e vive infeliz. Eu hei-de escolher, e ter um destino diferente."

E assim foi. Escolheu o que quis. Era boa aluna e entrou à vontade na Faculdade de Arquitectura. Os irmãos foram ambos para o Técnico, para Engenharia. Magda fez o curso ao mesmo tempo que trabalhava nos ateliers dos professores. "Sempre fui tão certinha que perdi a parte boa da faculdade. Não saía, não andava na festarola... bem me arrependo! Mentira, arrependo-me mas pouco... não sou de olhar para trás. Acabei o curso com uma boa média..." Quando pergunto qual a média hesita em dizer, fica embaraçada, tem receio de que pareça gabarolice. Não parece nada. É o que é (e é muito bom): 18 valores no projecto de fim de curso (15 valores de média final).

Tem graça falar do seu namoro com o holandês Reinier porque, depois de aqui se ter dito que ela era certinha, fica divertido imaginá-la envolvida justamente com o dono de um bar. E não um bar qualquer, mas o mítico Incógnito, um dos pontos altos da noite lisboeta dos anos 90. "A minha mãe ficou em choque. Eu com um estrangeiro, dono de um bar... mas enfim, a verdade é que estamos juntos há 28 anos."

Com o fim do curso de Arquitectura, Magda continuou a trabalhar no atelier em que já trabalhava durante o curso e gostava muito. Estava cumprido um dos seus objectivos de vida: ter uma profissão que a fizesse vibrar. Mas calhou que, certo dia, acompanhasse o namorado a uma feira de estética em Dusselforf, na Alemanha. "Além do Incógnito ele tinha aberto um solário no Colombo. E então fomos a esta feira gigante. Na altura eu estava grávida, encostei-me num stand de unhas de gel e a senhora começou a meter conversa comigo. Eu, que já tinha ficado fascinada com isso das unhas de gel numa viagem que tinha feito a Nova Iorque, até lhe disse que era bem capaz de ser uma oportunidade em Portugal e ela concordou. Saí dali a pensar naquilo e fui aprender a fazer."

Quando chegou a Portugal convenceu o Reinier a meter uma pessoa a fazer unhas de gel no espaço do solário. Deu-lhe formação e pronto. Estava lançada a semente. Mas, naquela altura, não passava de um extra. Uma gracinha. "Eu disse logo: isto agora é convosco. Eu vou para o atelier tratar dos meus projectos e vocês organizem-se." Entretanto, a funcionária teve uma proposta para ir trabalhar para uma discoteca e era Magda quem ia fazer unhas, depois de sair do atelier. Numa parte do dia era a Magda-arquitecta; na outra parte do dia era a Magda-esteticista. "Mas o número de clientes não parava de crescer, eu comecei a ver que aquilo tinha pernas para andar, e decidi abrir uma loja de unhas de gel no Colombo. Só que não havia lojas. E foi então que propus um quiosque, daqueles que hoje em dia são mais do que habituais nos centros comerciais. Desenhei o quiosque, registei o nome e pronto. Mas continuava a ser arquitecta, a achar que aquilo era só um extra. Só que não havia outros sítios onde fazer unhas de gel, a não ser em alguns cabeleireiros. E ao fim de três meses já não havia vagas para que as senhoras fossem fazer a manutenção. Chegavam a ficar com as unhas 4 semanas, à espera de vez. Até que não foi possível continuar a ignorar o 'monstro' que eu tinha criado e saí do atelier."

Se tivesse sido uma coisa abrupta talvez a incompreensão dos que estavam à volta fosse maior. Aliás, se na altura lhe dissessem que tinha de escolher entre a arquitectura e as unhas, escolheria sem dúvida a arquitectura. Mas a verdade é que tudo se foi passando em dois carris ao mesmo tempo. Paralelamente. Devagarinho. "Foi entrando em mim em doses homeopáticas, de forma muito diluída, quase imperceptível. Até que foi evidente qual dos dois carris eu tinha de seguir. E segui." 

Magda Lourenço, arquitecta, via-se assim diante de uma ideia de negócio pioneira em Portugal. Tinha zero formação em Gestão mas o bom senso dizia-lhe que devia agarrar as melhores localizações porque o problema de uma boa ideia é que virá sempre alguém reproduzi-la. "Eu sabia que o negócio das unhas ia explodir. Então, depois do Colombo seguiu-se o Vasco da Gama, o Almada Fórum, o Oeiras Parque, o Cascais Shopping." Nails 4 Us por todo o lado. Pareciam cogumelos. Nessa fase, Magda não tinha escritório. Tinha stock no carro ou na loja do marido, fazia em casa a contabilidade e as respostas ao email. A vida tornou-se louca. Lembra-se de estar com o bebé no carrinho e a fazer unhas, lembra-se de chegar a pedir ao filho de uma cliente que empurrasse um bocadinho o carro do bebé, para ela poder terminar o trabalho. Não tinha mãos a medir. "Cheguei a um ponto em que achei que estava a enlouquecer. Trabalhava 7 dias por semana, das 10 à meia-noite. Então decidi começar a abrir franchisings, para começar a delegar."

Uma mulher de armas. Self made woman, como se costuma dizer. O primeiro escritório que teve foi no Átrium Saldanha. "Nessa altura ainda não tinha técnicos para me arranjarem as máquinas. Era eu. Pedia à fábrica o desenho da máquina e depois era eu que arranjava tudo, seguindo o manual passo a passo."Lembro-me de ter um franchisado de Coimbra na loja com uma máquina avariada para arranjar e de eu dizer: 'está cheio de sorte que está cá o técnico. Espere só um bocadinho que eu vou levar-lhe e já a trago arranjada.' E lá ia eu para uma sala arranjar a máquina - não havia técnico nenhum mas eu não podia dar esse flanco!"

Chegaram a ser 30 lojas, entre franchisadas e não franchisadas. Mas depois foi preciso reordenar tudo, fechar algumas, resolver situações complicadas, pôr ordem na casa. Magda sempre soube fazê-lo muito bem, de resto. Abriu tudo o que tinha para abrir, inovou, rasgou, mas também soube reorganizar-se para não dispersar tanto o foco.

Toda esta mudança na sua vida aconteceu há 18 anos, a idade do seu filho mais velho. "Mas não foi bem um 'mudar de vida' tradicional porque eu nunca tive verdadeira consciência de que estava a mudar definitivamente. A vida tomou conta de mim. Fui indo atrás." Apesar de ser uma empresária de sucesso, Magda continua a trabalhar no duro. "Ainda há dois meses fui ter formação de unhas. Continuo a gostar imenso de fazer e tenho toda a compreensão do mundo para as clientes. Às vezes as miúdas que trabalham comigo ficam muito ofendidas com a arrogância de algumas clientes. Eu explico-lhes: 'eu fico ofendida quando aqueles de quem eu gosto me agridem. Agora... uma pessoa que não conheço de lado nenhum? Quero lá saber! Uma vez uma cliente olhou para mim e perguntou: 'Você não era arquitecta?' Eu respondi que sim. E ela: 'E não se sente diminuída por estar aqui a fazer unhas de gel?' Encolhi os ombros, ri-me e respondi a verdade: 'Não! Eu gosto muito disto!"

Magda Lourenço tem três filhos. Há 9 anos foi mãe de gémeos. De maneira que, na sua vida, continua a haver duas fases do dia: uma em que em que está rodeada por mulheres; e a outra, em que está rodeada por homens. Além de tudo o que faz - que é tanto - ainda cuida de si. Aos 48 anos exibe uma forma física invejável mas não é fruto do acaso ou uma dádiva dos céus. É trabalho, mesmo. Como todo o resultado da sua vida. "Treino há 30 anos religiosamente 4 vezes por semana: terças, quintas, sábados e domingos. Se estou de viagem corro. Se vou para destino onde não dá para correr levo a minha roda (roldana de treino) e a corda de saltar. Sempre." Além dos treinos, corre e não é pouco. Começou a correr há 18 anos, primeiro só na passadeira do ginásio, mas depois também na rua. Já perdeu a conta às corridas de 10 km e às meias-maratonas. "Maratonas mesmo foram 7. E uma ultra. O meu objectivo, de há uns tempos para cá, é correr sempre três maratonas por ano e... para 2020 (os meus cinquenta anos), quero fazer a Comrades (90km)." Não brinca. Lembram-se do ensinamento do pai? "Quando um homem não pode mais, ainda pode outro tanto"? Pois bem. Aí a têm. A levar a peito a frase que marcou a sua infância. 

Voltando ao tema desta rubrica, que é a mudança de vida, pergunto-lhe se tem saudades da arquitectura. A resposta é óbvia: "Não penso nisso. Não olho para trás. Olho para o hoje e para a frente. No início isto foi uma aventura maluca, mas ao fim destes anos todos acho que aqueles de quem eu gosto olham para isto com orgulho. Eu sinto-me orgulhosa do que construí."

O que se pode querer mais?

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Mudar de Vida #13/ Mulheres do Caraças #6: Marta Jordão

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Sempre foi gorda. Não usa eufemismos para se descrever. Não diz forte, cheiinha, rechonchuda. Diz gorda mas o modo como o diz é desprovido de tristeza ou daquela amargura que muitos ex-gordos têm ao falar do período em que tinham peso a mais. Marta garante que não se sentia mal por ter um formato fora dos padrões ditos normais. Era uma miúda bem disposta, sociável, com uma auto-estima considerável, que corria, brincava, fazia ginástica, e tudo o que os outros faziam. "Claro que quando começaram as bocas não gostei. Baleia assassina, balofa, coisas assim. Mas passava-me depressa."

Marta Jordão era uma aluna razoável. Como adorava moda, decidiu fazer um curso profissional de Coordenação e Produção de Moda no Magestil. Ainda fez umas coisas mas a seguir achou que queria ser empresária na área da moda e foi então estudar à noite Gestão de Marketing no Instituto Português de Administração de Marketing (IPAM). Durante o dia trabalhava em telecomunicações, em retenção e fidelização de clientes. Sempre arranjou empregos facilmente, apesar de ser grande. Sempre teve namorados, "magros e giros". Nunca se sentiu discriminada ou preterida. No último ano do curso, engravidou (vivia há três anos com o José Maria, com quem ainda vive). Se já era gorda, mais gorda ficou depois da gravidez. 

Chegou aos 136 quilos (na balança do médico eram 141). Continuava de bem com a vida mas a filha, que também começou a ter problemas de excesso de peso, já não estava a lidar tão bem com a situação. "Na primária batiam-lhe, chamavam-lhe os nomes do costume, baleia, badocha, gorda, e quando eu a ia buscar o gozo ainda era maior. Então, percebi que ela tinha de mudar a alimentação, para ficar com um corpo que não lhe trouxesse os problemas que, a mim, nunca me trouxe. Mas como podia mandá-la emagrecer e cortar-lhe a 'ração' se eu, a mãe, continuava a enfardar tudo e gorda como um texugo? Percebi que tinha de ser um exemplo e que ia ser uma missão para as duas."

Então, a 27 de Julho de 2016, Marta fez jum sleeve gástrico, ou seja, submeteu-se a uma cirurgia para lhe retirarem 80% do estômago, nomeadamente a parte onde é produzida a grelina, também conhecida como "hormona da fome". "Fui sozinha, de autocarro, estava um sol maravilhoso quando entrei no Pulido Valente." A operação correu bem e, no dia seguinte, teve guia de marcha para casa.

No dia 30 de Julho sentia dores nas costas. Parecia uma dor lombar. Tinha calor, muito calor. Mas, como era verão, desvalorizou. Levantou-se mais de 10 vezes para tomar duche. "Sentia-me a ferver. Sentia-me estranha, como se eu não fosse bem eu. Às tantas, tive um rasgo de lucidez, quando percebi que algo não estaria bem comigo porque estava a atirar água para cima de mim no sofá, encharcando tudo à volta, como uma louca." Ligou ao marido, que disse que dentro de uma hora estaria em casa, mas ela compreendeu que o assunto era emergente. "Tenho de ir para o hospital AGORA." Chamou os bombeiros e, já em Santa Maria, lembra-se de ver toda a gente em grande aflição à sua volta e... mais nada. Apagou-se. "Acordei dois dias depois, nos Cuidados Intensivos. Estive muito perto de bater a bota. Basicamente o que aconteceu foi que fiquei com duas fístulas no estômago (dois buraquinhos) que provocaram uma peritonite e uma septicemia, ou seja, uma infeccção generalizada. O médico que me operou para limpar tudo disse à minha família que eu estava por um fio."

Passados uns dias, foi mandada para casa mas com consulta marcada para breve, para ver os pontos. Quando chegou à consulta, no dia 9 de Agosto, a enfermeira estranhou-a: "Não a sinto bem. Sinto-a a respirar de forma estranha." Chamou o médico que a mandou para as urgências. Quando lhe retiraram três pontos da barriga começou a sair um líquido cor-de-laranja. "Comeu sopa?" Tinha comido. Já não saiu do Serviço de Observação (SO). A comida continuava a sair do estômago e alojar-se no espaço abdominal. 

Marta ficou internada de 9 de Agosto a 24 de Novembro de 2016. Três longos meses. "Fiquei com a barriga aberta para ir saindo a porcaria toda. Tinha um grau de infecção enorme. Depois, como sou uma mulher de sorte, apanhei uma super bactéria hospitalar e tive de ficar em isolamento. Tudo isto com uma filha com 10 anos que tinha de gerir à distância: se já tomou banho, se cortou as unhas, se estudou, se foi à ginástica... já para não falar nas saudades... depois das visitas ficava sempre de rastos." Nesses três meses, aconteceu-lhe de tudo: "A seguir tive uma trombo-embolia pulmonar. Aí foi tramado porque não dá para nos mexermos, temos umas meias de bailarina... felizmente não foi necessário pôr um dreno para tirar líquido do pulmão porque era pouco e o médico não quis arriscar porque estava muito perto da pleura. Mas não me livrei de um dreno posto a sangue frio para sair pus por detrás do pâncreas, tal era a infecção que eu tinha... enfim. Quando me vêm falar mal das pessoas da saúde tenho vontade de partir para a violência. Comigo foram sempre impecáveis. Fui tão massacrada e eu bem via como lhes custava causar-me sofrimento. Além disso, que diabo! Têm uma vida tramada, sempre a limpar a porcaria de toda a gente. Às vezes estão mal dispostos? Pudera! Vão todos os dias trabalhar para o inferno!"

Durante o internamento, e quando não podia comer nem beber, ganhou o vício da água. "Tinha de ter umas 10 garrafas de água para estar sempre a bochechar. Se não as tinha entrava literalmente em pânico. A boca sabia-me a metal, da prótese que me tinham metido, de maneira que delirava com seven up ou ginger ale. E sonhava com enguias fritas, carapaus fritos, coisas crocantes." Os amigos foram fundamentais. Marta emociona-se sempre que pensa neles e em tudo o que fizeram por ela. "Tenho pessoas fantásticas na minha vida. Pessoas que me traziam tudo o que eu pedia, que estiveram sempre lá para mim, nunca se cansaram de mimar."

Em Novembro, quando saiu do hospital, Marta não dava um passo. Além dos 30 quilos que já tinham ido embora, tinha perdido muita massa muscular e, por isso, foi de ambulância para casa do irmão mais velho, que podia dar-lhe mais assistência. "Estive um mês em casa dele. Fazia fisioterapia todos os dias. O meu irmão puxava muito por mim mas eu estava de gatas. Ia de andarilho à casa de banho mas com imensa dificuldade. De tal maneira que, quando queria fazer xixi a meio da noite tinha de lhe ligar para ele vir comigo."

Nesse mês em casa do irmão, começou por comer apenas líquidos, depois uma fase de purés, e por fim comida come: arroz caldoso, maizenas, fruta madura. Já não tinha dreno, nessa fase, e há um dia em que Marta acordou com uma picada na barriga, na cicatriz do dreno, que foi começando a inchar. "Cocei e começou a sair papaia..." Tinha-se partido a prótese e ficou mais 27 dias internada. Isto já em Janeiro de 2017. Tudo isto podia ter sido evitado se, na altura do primeiro internamento, a prótese desenhada à medida pelo imagiologista Carlos Noronha e mandada fazer na Coreia, tivesse sido codificada pelo Infarmed em tempo útil. Mas levou seis meses a ser codificada e, por isso, só a 21 de Janeiro é que Marta a recebeu. Tudo foi ao sítio num instante, com essa prótese à medida. Dois meses depois, em Março, Marta foi ao bloco para tirar a prótese e respirar finalmente de alívio.

Depois disto, foi viver um dia atrás do outro, sempre colocando objectivos diante do nariz para ir conseguindo concretizá-los. "Primeiro ir ao café era um desafio, a seguir ir levar a miúda ao colégio era uma aventura ainda maior... passo a passo. O primeiro grande objectivo era ir ver o concerto do Bruno Mars em Abril de 2017. E fui." Começou a caminhar junto ao rio, a frequentar o ginásio, em Junho voltou ao trabalho (trabalha na área comercial da Rodoviária de Lisboa). Foi perdendo peso. Até chegar aos 85 quilos para o seu 1,78m. Ainda tem muita pele para remover cirurgicamente. Só em pele devem ser uns quilinhos. Pena não dar para casacos! 

Sente-se uma outra pessoa. Se é verdade que antes não se sentia mal, não é menos verdade que hoje se sente mesmo muito bem. Mas, sobretudo, aprendeu muito com o mau bocado que passou para chegar até aqui: "Não aturo merdas. Não me chateio. Deixei de me preocupar com coisas menores. Estive quase a morrer, agora quero é aproveitar a vida ao máximo." Ah, e a filha também mudou a alimentação e já não tem vestígios de obesidade. Mede 1,70m aos 11 anos, melhorou a auto-estima e praticamente já não tem que aturar as bocas do costume - praticamente porque há sempre miúdos parvos que gostam de chatear. Missão cumprida. Foi tramado para a cumprir, mas está feito. E que bem feito! É por tudo o que atrás se contou que Marta Jordão se inclui nas duas rubricas ao mesmo tempo. "Mudar de Vida" porque a mudança de hábitos alimentares, e estilo de vida, e formato, e saúde foram brutais. "Mulheres do Caraças" por tudo o que passou, sempre de cara alegre e com a sua energia de sempre.

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Mãe e filha, juntas numa missão de sucesso 

 

Mudar de Vida #12: Marta Metrass

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Vivia ligada à corrente. A correr. Ao telefone. A deitar-se tarde. A acordar cedo. A esquecer o almoço. A beber cafés uns atrás dos outros. Eléctrica. Mas feliz, sublinhe-se. Não sabia ser de outra forma. Quem trabalha em publicidade sabe que ou é assim ou não é. Marta Metrass começou por estagiar na UAU (eventos e espectáculos) porque apesar de ter feito a licenciatura em Dança sempre teve um fraquinho pela parte da organização e não se via nada a ser professora (e bailarina, em Portugal, não era propriamente fácil). Daí saltou para a Publicis onde foi TV, Foto e Radio Producer. Quatro anos em stress, a organizar tudo, a fazer 50 coisas ao mesmo tempo. Seguiu-se a Garage Films, onde foi directora de pós-produção. Chegou a fazer seis filmes publicitários ao mesmo tempo, acompanhava todo o processo desde que acabavam de filmar até ao momento em que chegava à televisão para ser emitido. Adorava. Nunca sabia se ia dormir essa noite, se tinha fins-de-semana, se conseguia fazer aquele programa combinado com as amigas. Mas só sabia viver assim. No limite. Tinha, porém, um escape: o yoga. Fazia yoga às 6.30 da manhã, antes do telemóvel começar a tocar. Precisava daquele tempo para si. Daquele equilíbrio entre corpo e mente. Depois disso, sentia-se pronta para comer o mundo.

Foi na Garage que conheceu o Hugo. Um ano e meio depois, casaram. E a seguir nasceu o primeiro filho, o Vicente. "Mas eu continuei com a mesma vida, a mesma loucura. Um dia, aconteceu uma coisa que me fez mudar tudo. Fez-se um clique aqui dentro. Estava em casa com o Vicente, que teria uns dois anos e meio, e atendi a chamada de um cliente, daqueles mesmo muito exigentes. O meu filho chamava-me e eu andava basicamente pela casa a fugir dele, a ver se o meu cliente não ouvia a sua voz. Quando ele começou a tornar-se mesmo muito insistente, fechei-me na cozinha e deixei-o do lado de fora, aos murros à porta e a chorar. Eu só queria terminar aquela chamada, que era importante, mas quando desliguei e lhe peguei ao colo, para o consolar, senti-me a pior mãe do mundo e percebi que aquela já não era a vida que eu queria. Eu queria acompanhar a vida do meu filho, queria vê-lo crescer... e não era nada disso que estava a acontecer."

O clique foi tal e qual como se de um interruptor se tratasse. Num momento estava ligado. No momento seguinte desligou-se. Uma epifania. E Marta sentou-se com o marido a pensar em alternativas. Pensaram mudar de país e, numa primeira fase, Marta enviou currículos para o Rio de Janeiro, mas para fazer exactamente a mesma coisa. Chegou a ir a entrevistas, no Rio, e quando regressou ligaram-lhe a dizer que tinha ficado. Contavam com ela para começar assim que possível. E foi então que se fez luz, de novo. "Eu quero mudar de vida e não de país para fazer a mesma vida! E então pensámos em mudar tudo mesmo, o paradigma por inteiro. Bali começou por estar em primeiro plano, poque foi a nossa primeira viagem juntos e adorámos - foi lá que pedi o Hugo em casamento -, mas depois tivemos receio, já havia tanta coisa em Bali... talvez a Tailândia. E assim foi. Fomos de férias para Ko Phangan e voltámos a Portugal só para despachar tudo e rumar a uma nova vida na Tailândia."

Marta despediu-se. Hugo, que era freelancer, despediu-se também, de uma forma diferente. Venderam tudo. Carro, mota, recheio da casa e uma auto-caravana que tinham ido comprar à Alemanha. "Foi o que mais me custou. Fizemos férias tão giras naquela caravana que vendê-la foi mesmo a única coisa que me fez impressão."

Estiveram quatro anos em Ko Phangan. A ideia inicial era abrir um resort mas preferiram começar por um projecto mais pequeno. Montaram uma hamburgueria gourmet. "Foi um sucesso. Esteve sempre nos primeiros 5 lugares do Tripadvisor, no meio de centenas de restaurantes. O Hugo cozinhava, eu servia às mesas. Depois, eu saí porque começámos a sentir que não era saudável estarmos 24 sobre 24 horas juntos. Começaram a desafiar-me para dar aulas de dança e eu, que sempre achei que não tinha jeito para ser professora, resisti um bocado mas depois lá acedi. E descobri a minha vocação. Descobri que adoro dar aulas, quem diria! Passei a ensinar crianças e adultos, criei aulas extra-curriculares de dança jazz e dança criativa, organizava espectáculos a cada dois meses e meio e, pelo meio, decidi tirar um curso de yoga. E, claro, fiquei rendida."

Se Marta já se refugiava no yoga nos tempos em que vivia ligada à corrente, não é difícil imaginar o impacto que teve nesta nova etapa da sua vida. "Para mim o yoga é meditação em movimento. É muito sentimento, é filosofia. É mente, é coração, é respiração. É uma viagem que abarca tudo e que até junta a dança, minha formação de base." Durante o curso compreendeu que dar aulas era-lhe mesmo natural e, por isso, começou a dar aulas de yoga em todo o lado. De repente, sem se aperceber muito bem como, estava na mesma lufa-lufa de que tinha fugido. Passava os dias inteiros ao lado da praia mas sem pôr os pés na areia e menos ainda no mar. Não tinha mãos a medir. Ainda havia um caminho de mudança que era preciso fazer.

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Quando nasceu o segundo filho, Gustavo, sentiram vontade de mudar, de novo. Pensaram voltar para Portugal mas nenhum dos dois queria regressar para a mesma vida. Cogitaram ir viver para o Alentejo ou para o Algarve mas ambas as opções os mantinham longe dos amigos (que era do que mais sentiam falta) e não permitiam vidas muito auspiciosas. Entretanto, enquanto viviam esta nova onda de dúvidas, Marta tinha marcado um retiro para fazer em Bali. Mas o vulcão entrou em erupção e, como o bebé era muito pequeno, estiveram quase para cancelar a viagem. Mas ela sentia que não podia tomar nenhuma decisão sem ir a Bali. Algo lhe dizia que era lá que estava a resposta para as novas dúvidas.

Tinha razão. No momento em que desceram do avião e puseram os pés no aeroporto, o cheiro a insenso como que os hipnotizou. "É isto. Nós vamos viver aqui. Foi ali que fizemos a nossa primeira viagem juntos, foi ali que pedi o Hugo em casamento, fazia todo o sentido. Passámos um mês de férias a ver casas, alugámos casa por um ano, inscrevemos o Vicente na escola, voltámos a Ko Phangan, vendemos tudo, e estamos a viver em Bali há 3 meses."

Neste momento, Marta Metrass é professora credenciada pela Yoga Alliance de 500h (RYT500h), sendo que já tinha um registo de Experienced Yoga Teacher 200h (E-RYT 200h), dá aulas em três sítios diferentes, mas tem tempo para desfrutar da vida em Bali. "Há uma vida intensa, todos os dias o pôr-do-sol é celebrado, há música ao vivo, tudo a tomar banho no mar mesmo quando já é de noite, porque a temperatura mantém-se quente, as pessoas são simpatiquíssimas e educadas, super espirituais... estamos rendidos. Depois dos 4 anos que passámos na Tailândia, este era o caminho certo. Estou em crer que vamos passar aqui o resto da vida. Ou então até nos fazer sentido! O que importa é mesmo isso: que faça sentido. E o maior sentido que podia dar à minha vida era o de ter tempo para mim, para o meu marido, para ver os meus filhos crescerem, para desfrutar da vida!"

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 Podem encontrá-la AQUI ou na página de Instagram marta_yogadancelove

Mudar de Vida #11: Sofia Craveiro

E por falar em "Mudar de Vida", aqui está mais uma história!

SIC, be my guest. 😉

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Na sua primeira vida, foi engenheira. Sofia Craveiro licenciou-se em 2001 em Engenharia do Ambiente, e especializou-se em gestão de resíduos. Durante 15 anos trabalhou na gestão de resíduos urbanos e industriais, e na fase final da carreira dedicou-se aos resíduos industriais perigosos. Sempre gostou do que fez, sempre que mudou de empresa foi por ter vontade de abraçar novos desafios, sempre se sentiu bem na escolha da sua vida profissional. Até que foi mãe. E as coisas começaram a mudar. "Sentia-me cansada. Queria ter mais tempo para a minha filha, trabalhar sem estar dependente de horários e não me via a fazer o que fazia para o resto da vida."

Em conversa com um antigo chefe, desabafou sobre a sua vontade de ter uma vida diferente, de acompanhar a filha, de não ser escrava do tempo. O antigo chefe, que era também um amigo, aconselhou-a a não se precipitar, a preparar tudo primeiro, a fazer um plano B e, se o plano B resultasse, então logo mudava de vida. E foi o que ela fez.

O que podia fazer sem ser engenharia do ambiente? A resposta foi fácil e imediata. "Cresci com a minha mãe a costurar, fazer tricot, crochet e a bordar. Quando foi o 25 de Abril, esteve fechada em casa e bordou uma toalha que ainda tem - a sua toalha do 25 de Abril. O meu interesse pela costura de repente apareceu em força, fiz um workshop incentivada por umas amigas e fui continuando a aprender. Até aos dias de hoje, adoro dar, mas também ter aulas. Às tantas pensei: isto vai ser a minha vida. E comecei a tratar de tudo para essa mudança. Fui montando o meu plano B."

Quando a empresa onde trabalhava a dispensou, por redução de pessoal, já Sofia tinha a sua alternativa montada. Só foi mais complicado porque aconteceu tudo ao mesmo tempo: o diagnóstico de carcinoma na tiróide e sete dias depois o despedimento. Mas Sofia Craveiro aguentou-se e acreditou que era uma porta a fechar-se para se abrir outra, com um novo sentido, numa nova etapa. Uma espécie de reset seguido de restart. "O plano B passou rapidamente a plano A e com o dinheiro da indemnização abri a Companhia das Agulhas, uma escola de costura e malha."

Talvez alguns dos que estavam por perto não imaginassem que esta escola tinha pernas para andar. Como assim, uma engenheira larga tudo para se dedicar à agulha e ao dedal? Mas isso lá vai dar para viver? Redondo engano. Hoje, na Companhia das Agulhas trabalham três designers de moda, uma especialista em costura, duas professoras de tricot, uma professora de macramé, uma professora de tecelagem, uma professora de feltragem, uma de bordado e arraiolos. Além da própria Sofia e da "outra" Sophia, que ajuda na parte administrativa da empresa. A escola tem aulas de segunda a sexta, de manhã, à tarde e à noite e aos sábados durante o dia. Por vezes também existem aulas ao sábado à noite e ao domingo. E aulas privadas, para ajudar em questões concretas de alguns clientes. Nas férias há sempre as semanas intensivas de aulas para os miúdos - "Temos cá umas miúdas espectaculares de 14 anos que frequentam as aulas como actividade extra-curricular. É giro porque fazem cá os presentes de aniversário e de Natal, bem como o seu guarda roupa e dão uma dinâmica muito gira à escola."

Além disto, a Companhia das Agulhas lançou uma revista, está a actualizar o site com vista a vender também material de costura, malha e não só. "O nosso curso de iniciação à costura tem o material todo incluído para que os nossos alunos não passem por aquela frustração inicial de irem a uma retrosaria e não fazerem ideia do que comprar. Mas depois há os outros cursos e faz sentido vendermos online todos os materiais, pelo que estamos a tratar disso também." E ainda está nos planos aumentar as instalações, pois precisa de mais espaço.

Sofia Craveiro sente-se profundamente feliz nesta nova fase da sua vida (que já não é tão nova assim - a Companhia das Agulhas abriu em Setembro de 2015). Não sente saudades da Engenharia do Ambiente mas não rejeita o seu passado nem o seu percurso: "Foi muito importante na minha vida, fez e continua a fazer todo o sentido. De resto, acho que a gestão que hoje faço é resultado também do que aprendi nas empresas em que trabalhei."

Quanto aos objectivos da escola, diz que são vários e têm sido todos cumpridos: "O primeiro de todos era que fosse uma escola completa. A escola onde eu gostava de ter aprendido quando era eu a aluna. Porque temos tudo. Não é preciso andar a fazer workshops diferentes em sítios diferentes. Está cá tudo. Outro dos objectivos óbvios era o de trazer para os dias de hoje as artes de antigamente. E cultivar esta ideia de que se formos nós próprios a fazermos as coisas elas tendem a durar mais, porque são feitas com amor e não são descartáveis. Outro dos objectivos foi o de chamar a atenção das novas gerações, o que também tem sido conseguido, com as nossas alunas mais novas que passam a palavra e a paixão a outras. Além disto, há um lado ambiental - ou não fosse eu engenheira do ambiente de formação - e solidário. Criámos o Taleigo Amigo, um projecto em parceria com a AMI - Assistência Médica Internacional, que nasceu em 2017 e vai continuar em 2018. O Taleigo é um saco feito com restos de tecido, retalhos esquecidos ou que iriam parar ao lixo por não servirem para mais nada, e roupa sem uso. Contactámos ateliers de costura de norte a sul do país, mais as ilhas, divulgámos amplamente nas redes sociais e toda a gente aderiu e promoveu o Taleigo. Juntos, conseguimos produzir e doar mais de 300 taleigos, que depois foram vendidos pela AMI a 5€/cada, o que permitiu fazer cabazes de Natal para famílias que a AMI apoia. No que respeita ao ambiente, ainda não estamos satisfeitas, queremos aumentar a consciência de quem nos segue, sentimos que o devemos fazer e estamos a preparar umas novidades para 2018."

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Mudar de Vida #10: Paulo Duarte

Paulo Duarte nasceu a 26 de Outubro de 1979, em Portimão. Filho único, mãe e pai ligados à hotelaria, Paulo cresceu a querer ser veterinário, especializado em cetáceos. A família era católica pouco praticante, tirando a avó Constança, uma alentejana de Odemira que estava sempre a rezar: "Foi uma mulher que me marcou muitíssimo. Era uma velhinha viúva (o meu avô morreu quando eu tinha 4 anos), de lenço na cabeça, que não sabia ler nem escrever mas tinha um humor extraordinário. Teve 11 filhos, morreram 8 e impressionou-me sempre muito a sua força, a sua serenidade e a sua alegria, apesar de toda a perda que já tinha sofrido. Quando lhe dizia “ó vó, está sempre a rezar?”, ela respondia: 'então, filho, é o que eu sei fazer!'".

Paulo era um miúdo tímido, sofreu bullying durante 4 anos numa altura em que ainda não havia nome para a perseguição gratuita dos colegas, apenas por ser diferente, por preferir ficar a ler do que a jogar à bola. Na adolescência, tornou-se o oposto do que sempre tinha sido. Passou a ser extrovertido, popular, fez grandes amigos que ainda mantém.

A morte de uma grande amiga, aos 15 anos, num acidente com um carrinho de choque, aliada ao fervilhar de dúvidas típico da adolescência fez o primeiro clique: afinal, quem é Deus? Quem é esta entidade que tem o poder de tirar a vida à minha amiga? "Houve como que uma explosão de questões. Acabei a integrar um grupo de jovens. Fiz a Primeira Comunhão com 16 anos e também a Profissão de Fé. O Crisma aos 18." Nessa altura, uma passagem do Evangelho ficou a bailar-lhe na consciência: "A messe é grande e os operários são poucos." Sempre que a lia ou escutava sentia como que uma agitação interior que não sabia explicar. Mas era cedo. Tinha ainda muito por onde se distrair. No 11º e 12º anos meteu-se em tudo o que havia para fazer: ginástica acrobática de competição, teatro, era delegado de turma. Nessa altura de grande hiperactividade, concorreu à TAP mas foi eliminado por roer as unhas. "Percebi mais tarde que até esse tique me tinha ficado do período do bullying. Fiquei tão incomodado com aquela rejeição por causa das unhas roídas que me decidi a acabar com a mania! E acabei!"

Mesmo sem ter entrado para a TAP, as notas sofreram com a sua multiplicação de interesses e Paulo acabou por não conseguir entrar para o curso de Medicina Veterinária. Optou por Ergonomia.

Mudou-se de Portimão para Lisboa, alugou um quarto, adaptou-se à faculdade como peixe na água, fez novos amigos, envolveu-se na associação de estudantes. Também continuou na sua busca pela espiritualidade e acabou por entrar num grupo de universitários católicos (GRATIS: Grupo Reunido na Amizade e Todos Invocando o Senhor). João Delicado, o amigo que conheceu no GRATIS, falou-lhe então do CUPAV (Centro Universitário Padre António Vieira), dos jesuítas, e Paulo começou a ir à missa no Campo Pequeno. Simultaneamente, o bichinho dos aviões tinha-se-lhe colado à pele e, no segundo ano do curso, concorreu à Portugália (PGA). Passou todas as provas e acabou por ser um dos 20 selecionados: "Seguiram-se dois meses de curso e, depois, disponibilidade total. O curso passou a ser mais um hobby. Foram três anos maravilhosos." Quando recorda esse tempo em que andou nas nuvens Paulo Duarte tem um brilho especial no olhar.

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Foi numas férias da Portugália que decidiu participar numa peregrinação organizada pelo CUPAV. "A ideia que tinha de uma peregrinação era velhos de joelhos. E foi com surpresa que me deparei com 200 pessoas da minha idade, a rir, a rezar, a cantar, a partilhar coisas da vida. No ano seguinte, aproveitei de novo as férias e fiz parte da organização. Lembro-me de haver um momento de profunda comoção. Chorei uma tarde inteira e a ideia de vir a ser jesuíta, de vir a ser padre começou a ganhar forma e espaço. Lembro-me de pensar: 'tenho uma vida óptima, ganho bem, faço o que gosto, estou a viajar... o que é que se passa?'"

Para perceber o que se passava, Paulo Duarte foi fazer o Discernimento, um exercício tipicamente inaciano (Santo Inácio de Loyola foi o fundador da Companhia de Jesus) que permite compreender se existe, de facto, uma vocação e ajudar na tomada de decisão. E quando finalmente decidiu, tinha ainda pela frente dois difíceis momentos: contar aos pais e despedir-se da Portugália. "2003 foi o verão mais quente da minha vida. Quando disse aos meus pais que ia ingressar na Companhia de Jesus entraram em choque. E eu senti-me perdido com a reacção deles. Mas, por outro lado, foi importante para perceber que aquilo era mesmo o que eu queria. Porque, se não fosse Deus e a minha vocação, perante a desilusão e tristeza do olhar dos meus pais eu teria desistido." Os pais sentiam que perdiam o filho único, como se a vida religiosa fosse uma espécie de buraco negro por onde se desaparece sem deixar rasto. "Foi muito difícil para eles, muito difícil para mim." Hoje esse sentimento de perda está sanado. Os pais aprenderam a sentir orgulho da escolha do seu único filho e da força da sua entrega. Mas foi preciso dar-lhes tempo.

Na Portugália, entregou a carta de despedimento à chefe. Ela ficou incrédula (ele acabara de se tornar efectivo). “Vais para a TAP?” Paulo sorriu: “Não, vou para outra companhia. Para a Companhia de Jesus.» O seu último voo, foi uma chacota. «Chamavam-me: “Ó bispo, anda cá!” Quando ia servir o comandante, ele exclamou: “Tu não podes servir-me! Um padre jesuíta a servir-me?” Eu respondi: “Eu vou entregar a minha vida aos outros, acho que também o posso servir a si!”.»

Depois das despedidas, o futuro padre entrou para o noviciado, em Coimbra, onde ficou dois anos, só saindo para passar o Natal com a família e apenas mais 3 ou 4 dias de férias no Verão. Paulo, então já estudante de Filosofia na Universidade Católica, fez os votos de pobreza, castidade e obediência, num importantíssimo passo de entrega da sua vida. Uma festa linda e comovente. Constança morreu nesse mesmo dia (1 de Novembro de 2005), no final da cerimónia. "Esperou por mim e partiu." Da avó só quis a aliança (que traz pendurada num fio, sempre encostada ao seu peito) e a chave de ferro grande e pesada da sua casa, lugar de tantas memórias de infância.

Fez o curso de Filosofia e, paralelamente, começou a ter aulas de dança. Sentia que o corpo precisava expressar todas as transformações por que a alma passava. Antes de se tornar padre, Paulo esteve ainda três anos em Madrid, a estudar Teologia e fez o mestrado em Teologia Fundamental, em Paris. A par e passo com o estudo, fez muito trabalho prático, de acompanhamento pastoral: deu apoio a mulheres vítimas de violência doméstica, a emigrantes ilegais, refugiados. 

O dia da Ordenação (5 Julho de 2014, em Coimbra) foi dos mais felizes da sua vida. Dias depois, rumou a Fátima, onde foi confessar centenas de pessoas. As suas penitências espantavam quase todos: "Hoje vai chegar a casa, vai olhar para o espelho e dar a si própria um grande abraço" ou "a sua penitência são 2 dias de descanso" ou ainda "vai fazer um jantar especial e dizer que gosta muito de si". Para quê mandar rezar avé Marias e Pai Nossos a quem só precisa de um pouco de amor próprio e capacidade de se livrar das culpas?

Foi também com este profundo sentido de fé na renovação do ser humano, e na conversão do mal em bem, que Paulo Duarte fez a sua homilia, na primeira missa que celebrou em Portimão. Começou a missa da forma mais peculiar que os fiéis já devem ter escutado: "Bem-vindos a bordo, welcome a board". Quis que se percebesse, desde o primeiro minuto, que estava ali um padre diferente. Citou Marguerite Yourcenar – "Quando se gosta da vida gosta-se do passado, porque ele é o presente tal como sobreviveu na alma humana" - e pediu aos presentes que nunca reneguem a sua história, ainda que ela tenha episódios negros, porque são todos parte de nós. Tal como a pérola, que é a forma de alguns moluscos reagirem às impurezas: "Das nossas impurezas podem nascer pérolas."

Paulo é hoje professor e padre num colégio perto do Porto. Lidar com os miúdos tem sido uma fonte de energia permanente. Vive a sua vocação de uma forma muito especial, com uma alegria e um sentido de missão inegáveis. Quanto aos tempos em que vivia outra vida, a cruzar os céus, sente saudades e tem aquele brilhozinho no olhar que não engana. Mas, na verdade, ele continua em contacto com as alturas, só que agora de uma forma muito mais profunda.

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