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Cocó na fralda

Cocó na Fralda

Peripécias, pilhérias e parvoíces de meia dúzia de alminhas (e um cão).

Mudar de Vida #14: Magda Lourenço

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A mãe teria gostado de ser artista mas não houve, em casa, abertura para isso. Acabou professora primária, tal como outras mulheres da família. Sem vestígio de vocação ou sequer interesse. Apenas para cumprir uma tradição, um caminho imposto. "A minha mãe não gostava de ser professora e acho que era infeliz. Depois, teve três filhos de seguida. Os meus irmãos e eu nascemos todos com um ano de intervalo. E acho que isso deu cabo dela de vez. Vivia deprimida, ansiosa, tinha fobias. Tinha alma de artista e pintava, era esse o seu escape. Infelizmente, não era essa a sua vida. Se fosse, talvez tudo tivesse sido diferente. Em casa, éramos três adultos e três crianças. Os meus pais, a minha avó e nós. Assim, de certo modo havia como que um adulto para cada criança. A minha mãe ocupava-se mais do meu irmão mais velho; a minha avó do meu irmão do meio; o meu pai de mim. O meu pai tinha sido militar e, por isso, tratava-me um bocado como se eu fosse um rapaz. Lembro-me muito bem de o ouvir dizer: 'Quando um homem não pode mais, ainda pode outro tanto!' Foi um ensinamento que me ficou para sempre. A vida é mesmo isso. Podemos sempre mais."

Magda Lourenço percebeu desde cedo o que pretendia para o seu futuro. Ou, pelo menos, aquilo que definitivamente não queria: "Pensei sempre: hei-de escolher o que quero fazer da minha vida. A minha mãe não escolheu e vive infeliz. Eu hei-de escolher, e ter um destino diferente."

E assim foi. Escolheu o que quis. Era boa aluna e entrou à vontade na Faculdade de Arquitectura. Os irmãos foram ambos para o Técnico, para Engenharia. Magda fez o curso ao mesmo tempo que trabalhava nos ateliers dos professores. "Sempre fui tão certinha que perdi a parte boa da faculdade. Não saía, não andava na festarola... bem me arrependo! Mentira, arrependo-me mas pouco... não sou de olhar para trás. Acabei o curso com uma boa média..." Quando pergunto qual a média hesita em dizer, fica embaraçada, tem receio de que pareça gabarolice. Não parece nada. É o que é (e é muito bom): 18 valores no projecto de fim de curso (15 valores de média final).

Tem graça falar do seu namoro com o holandês Reinier porque, depois de aqui se ter dito que ela era certinha, fica divertido imaginá-la envolvida justamente com o dono de um bar. E não um bar qualquer, mas o mítico Incógnito, um dos pontos altos da noite lisboeta dos anos 90. "A minha mãe ficou em choque. Eu com um estrangeiro, dono de um bar... mas enfim, a verdade é que estamos juntos há 28 anos."

Com o fim do curso de Arquitectura, Magda continuou a trabalhar no atelier em que já trabalhava durante o curso e gostava muito. Estava cumprido um dos seus objectivos de vida: ter uma profissão que a fizesse vibrar. Mas calhou que, certo dia, acompanhasse o namorado a uma feira de estética em Dusselforf, na Alemanha. "Além do Incógnito ele tinha aberto um solário no Colombo. E então fomos a esta feira gigante. Na altura eu estava grávida, encostei-me num stand de unhas de gel e a senhora começou a meter conversa comigo. Eu, que já tinha ficado fascinada com isso das unhas de gel numa viagem que tinha feito a Nova Iorque, até lhe disse que era bem capaz de ser uma oportunidade em Portugal e ela concordou. Saí dali a pensar naquilo e fui aprender a fazer."

Quando chegou a Portugal convenceu o Reinier a meter uma pessoa a fazer unhas de gel no espaço do solário. Deu-lhe formação e pronto. Estava lançada a semente. Mas, naquela altura, não passava de um extra. Uma gracinha. "Eu disse logo: isto agora é convosco. Eu vou para o atelier tratar dos meus projectos e vocês organizem-se." Entretanto, a funcionária teve uma proposta para ir trabalhar para uma discoteca e era Magda quem ia fazer unhas, depois de sair do atelier. Numa parte do dia era a Magda-arquitecta; na outra parte do dia era a Magda-esteticista. "Mas o número de clientes não parava de crescer, eu comecei a ver que aquilo tinha pernas para andar, e decidi abrir uma loja de unhas de gel no Colombo. Só que não havia lojas. E foi então que propus um quiosque, daqueles que hoje em dia são mais do que habituais nos centros comerciais. Desenhei o quiosque, registei o nome e pronto. Mas continuava a ser arquitecta, a achar que aquilo era só um extra. Só que não havia outros sítios onde fazer unhas de gel, a não ser em alguns cabeleireiros. E ao fim de três meses já não havia vagas para que as senhoras fossem fazer a manutenção. Chegavam a ficar com as unhas 4 semanas, à espera de vez. Até que não foi possível continuar a ignorar o 'monstro' que eu tinha criado e saí do atelier."

Se tivesse sido uma coisa abrupta talvez a incompreensão dos que estavam à volta fosse maior. Aliás, se na altura lhe dissessem que tinha de escolher entre a arquitectura e as unhas, escolheria sem dúvida a arquitectura. Mas a verdade é que tudo se foi passando em dois carris ao mesmo tempo. Paralelamente. Devagarinho. "Foi entrando em mim em doses homeopáticas, de forma muito diluída, quase imperceptível. Até que foi evidente qual dos dois carris eu tinha de seguir. E segui." 

Magda Lourenço, arquitecta, via-se assim diante de uma ideia de negócio pioneira em Portugal. Tinha zero formação em Gestão mas o bom senso dizia-lhe que devia agarrar as melhores localizações porque o problema de uma boa ideia é que virá sempre alguém reproduzi-la. "Eu sabia que o negócio das unhas ia explodir. Então, depois do Colombo seguiu-se o Vasco da Gama, o Almada Fórum, o Oeiras Parque, o Cascais Shopping." Nails 4 Us por todo o lado. Pareciam cogumelos. Nessa fase, Magda não tinha escritório. Tinha stock no carro ou na loja do marido, fazia em casa a contabilidade e as respostas ao email. A vida tornou-se louca. Lembra-se de estar com o bebé no carrinho e a fazer unhas, lembra-se de chegar a pedir ao filho de uma cliente que empurrasse um bocadinho o carro do bebé, para ela poder terminar o trabalho. Não tinha mãos a medir. "Cheguei a um ponto em que achei que estava a enlouquecer. Trabalhava 7 dias por semana, das 10 à meia-noite. Então decidi começar a abrir franchisings, para começar a delegar."

Uma mulher de armas. Self made woman, como se costuma dizer. O primeiro escritório que teve foi no Átrium Saldanha. "Nessa altura ainda não tinha técnicos para me arranjarem as máquinas. Era eu. Pedia à fábrica o desenho da máquina e depois era eu que arranjava tudo, seguindo o manual passo a passo."Lembro-me de ter um franchisado de Coimbra na loja com uma máquina avariada para arranjar e de eu dizer: 'está cheio de sorte que está cá o técnico. Espere só um bocadinho que eu vou levar-lhe e já a trago arranjada.' E lá ia eu para uma sala arranjar a máquina - não havia técnico nenhum mas eu não podia dar esse flanco!"

Chegaram a ser 30 lojas, entre franchisadas e não franchisadas. Mas depois foi preciso reordenar tudo, fechar algumas, resolver situações complicadas, pôr ordem na casa. Magda sempre soube fazê-lo muito bem, de resto. Abriu tudo o que tinha para abrir, inovou, rasgou, mas também soube reorganizar-se para não dispersar tanto o foco.

Toda esta mudança na sua vida aconteceu há 18 anos, a idade do seu filho mais velho. "Mas não foi bem um 'mudar de vida' tradicional porque eu nunca tive verdadeira consciência de que estava a mudar definitivamente. A vida tomou conta de mim. Fui indo atrás." Apesar de ser uma empresária de sucesso, Magda continua a trabalhar no duro. "Ainda há dois meses fui ter formação de unhas. Continuo a gostar imenso de fazer e tenho toda a compreensão do mundo para as clientes. Às vezes as miúdas que trabalham comigo ficam muito ofendidas com a arrogância de algumas clientes. Eu explico-lhes: 'eu fico ofendida quando aqueles de quem eu gosto me agridem. Agora... uma pessoa que não conheço de lado nenhum? Quero lá saber! Uma vez uma cliente olhou para mim e perguntou: 'Você não era arquitecta?' Eu respondi que sim. E ela: 'E não se sente diminuída por estar aqui a fazer unhas de gel?' Encolhi os ombros, ri-me e respondi a verdade: 'Não! Eu gosto muito disto!"

Magda Lourenço tem três filhos. Há 9 anos foi mãe de gémeos. De maneira que, na sua vida, continua a haver duas fases do dia: uma em que em que está rodeada por mulheres; e a outra, em que está rodeada por homens. Além de tudo o que faz - que é tanto - ainda cuida de si. Aos 48 anos exibe uma forma física invejável mas não é fruto do acaso ou uma dádiva dos céus. É trabalho, mesmo. Como todo o resultado da sua vida. "Treino há 30 anos religiosamente 4 vezes por semana: terças, quintas, sábados e domingos. Se estou de viagem corro. Se vou para destino onde não dá para correr levo a minha roda (roldana de treino) e a corda de saltar. Sempre." Além dos treinos, corre e não é pouco. Começou a correr há 18 anos, primeiro só na passadeira do ginásio, mas depois também na rua. Já perdeu a conta às corridas de 10 km e às meias-maratonas. "Maratonas mesmo foram 7. E uma ultra. O meu objectivo, de há uns tempos para cá, é correr sempre três maratonas por ano e... para 2020 (os meus cinquenta anos), quero fazer a Comrades (90km)." Não brinca. Lembram-se do ensinamento do pai? "Quando um homem não pode mais, ainda pode outro tanto"? Pois bem. Aí a têm. A levar a peito a frase que marcou a sua infância. 

Voltando ao tema desta rubrica, que é a mudança de vida, pergunto-lhe se tem saudades da arquitectura. A resposta é óbvia: "Não penso nisso. Não olho para trás. Olho para o hoje e para a frente. No início isto foi uma aventura maluca, mas ao fim destes anos todos acho que aqueles de quem eu gosto olham para isto com orgulho. Eu sinto-me orgulhosa do que construí."

O que se pode querer mais?

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Mudar de Vida #13/ Mulheres do Caraças #6: Marta Jordão

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Sempre foi gorda. Não usa eufemismos para se descrever. Não diz forte, cheiinha, rechonchuda. Diz gorda mas o modo como o diz é desprovido de tristeza ou daquela amargura que muitos ex-gordos têm ao falar do período em que tinham peso a mais. Marta garante que não se sentia mal por ter um formato fora dos padrões ditos normais. Era uma miúda bem disposta, sociável, com uma auto-estima considerável, que corria, brincava, fazia ginástica, e tudo o que os outros faziam. "Claro que quando começaram as bocas não gostei. Baleia assassina, balofa, coisas assim. Mas passava-me depressa."

Marta Jordão era uma aluna razoável. Como adorava moda, decidiu fazer um curso profissional de Coordenação e Produção de Moda no Magestil. Ainda fez umas coisas mas a seguir achou que queria ser empresária na área da moda e foi então estudar à noite Gestão de Marketing no Instituto Português de Administração de Marketing (IPAM). Durante o dia trabalhava em telecomunicações, em retenção e fidelização de clientes. Sempre arranjou empregos facilmente, apesar de ser grande. Sempre teve namorados, "magros e giros". Nunca se sentiu discriminada ou preterida. No último ano do curso, engravidou (vivia há três anos com o José Maria, com quem ainda vive). Se já era gorda, mais gorda ficou depois da gravidez. 

Chegou aos 136 quilos (na balança do médico eram 141). Continuava de bem com a vida mas a filha, que também começou a ter problemas de excesso de peso, já não estava a lidar tão bem com a situação. "Na primária batiam-lhe, chamavam-lhe os nomes do costume, baleia, badocha, gorda, e quando eu a ia buscar o gozo ainda era maior. Então, percebi que ela tinha de mudar a alimentação, para ficar com um corpo que não lhe trouxesse os problemas que, a mim, nunca me trouxe. Mas como podia mandá-la emagrecer e cortar-lhe a 'ração' se eu, a mãe, continuava a enfardar tudo e gorda como um texugo? Percebi que tinha de ser um exemplo e que ia ser uma missão para as duas."

Então, a 27 de Julho de 2016, Marta fez jum sleeve gástrico, ou seja, submeteu-se a uma cirurgia para lhe retirarem 80% do estômago, nomeadamente a parte onde é produzida a grelina, também conhecida como "hormona da fome". "Fui sozinha, de autocarro, estava um sol maravilhoso quando entrei no Pulido Valente." A operação correu bem e, no dia seguinte, teve guia de marcha para casa.

No dia 30 de Julho sentia dores nas costas. Parecia uma dor lombar. Tinha calor, muito calor. Mas, como era verão, desvalorizou. Levantou-se mais de 10 vezes para tomar duche. "Sentia-me a ferver. Sentia-me estranha, como se eu não fosse bem eu. Às tantas, tive um rasgo de lucidez, quando percebi que algo não estaria bem comigo porque estava a atirar água para cima de mim no sofá, encharcando tudo à volta, como uma louca." Ligou ao marido, que disse que dentro de uma hora estaria em casa, mas ela compreendeu que o assunto era emergente. "Tenho de ir para o hospital AGORA." Chamou os bombeiros e, já em Santa Maria, lembra-se de ver toda a gente em grande aflição à sua volta e... mais nada. Apagou-se. "Acordei dois dias depois, nos Cuidados Intensivos. Estive muito perto de bater a bota. Basicamente o que aconteceu foi que fiquei com duas fístulas no estômago (dois buraquinhos) que provocaram uma peritonite e uma septicemia, ou seja, uma infeccção generalizada. O médico que me operou para limpar tudo disse à minha família que eu estava por um fio."

Passados uns dias, foi mandada para casa mas com consulta marcada para breve, para ver os pontos. Quando chegou à consulta, no dia 9 de Agosto, a enfermeira estranhou-a: "Não a sinto bem. Sinto-a a respirar de forma estranha." Chamou o médico que a mandou para as urgências. Quando lhe retiraram três pontos da barriga começou a sair um líquido cor-de-laranja. "Comeu sopa?" Tinha comido. Já não saiu do Serviço de Observação (SO). A comida continuava a sair do estômago e alojar-se no espaço abdominal. 

Marta ficou internada de 9 de Agosto a 24 de Novembro de 2016. Três longos meses. "Fiquei com a barriga aberta para ir saindo a porcaria toda. Tinha um grau de infecção enorme. Depois, como sou uma mulher de sorte, apanhei uma super bactéria hospitalar e tive de ficar em isolamento. Tudo isto com uma filha com 10 anos que tinha de gerir à distância: se já tomou banho, se cortou as unhas, se estudou, se foi à ginástica... já para não falar nas saudades... depois das visitas ficava sempre de rastos." Nesses três meses, aconteceu-lhe de tudo: "A seguir tive uma trombo-embolia pulmonar. Aí foi tramado porque não dá para nos mexermos, temos umas meias de bailarina... felizmente não foi necessário pôr um dreno para tirar líquido do pulmão porque era pouco e o médico não quis arriscar porque estava muito perto da pleura. Mas não me livrei de um dreno posto a sangue frio para sair pus por detrás do pâncreas, tal era a infecção que eu tinha... enfim. Quando me vêm falar mal das pessoas da saúde tenho vontade de partir para a violência. Comigo foram sempre impecáveis. Fui tão massacrada e eu bem via como lhes custava causar-me sofrimento. Além disso, que diabo! Têm uma vida tramada, sempre a limpar a porcaria de toda a gente. Às vezes estão mal dispostos? Pudera! Vão todos os dias trabalhar para o inferno!"

Durante o internamento, e quando não podia comer nem beber, ganhou o vício da água. "Tinha de ter umas 10 garrafas de água para estar sempre a bochechar. Se não as tinha entrava literalmente em pânico. A boca sabia-me a metal, da prótese que me tinham metido, de maneira que delirava com seven up ou ginger ale. E sonhava com enguias fritas, carapaus fritos, coisas crocantes." Os amigos foram fundamentais. Marta emociona-se sempre que pensa neles e em tudo o que fizeram por ela. "Tenho pessoas fantásticas na minha vida. Pessoas que me traziam tudo o que eu pedia, que estiveram sempre lá para mim, nunca se cansaram de mimar."

Em Novembro, quando saiu do hospital, Marta não dava um passo. Além dos 30 quilos que já tinham ido embora, tinha perdido muita massa muscular e, por isso, foi de ambulância para casa do irmão mais velho, que podia dar-lhe mais assistência. "Estive um mês em casa dele. Fazia fisioterapia todos os dias. O meu irmão puxava muito por mim mas eu estava de gatas. Ia de andarilho à casa de banho mas com imensa dificuldade. De tal maneira que, quando queria fazer xixi a meio da noite tinha de lhe ligar para ele vir comigo."

Nesse mês em casa do irmão, começou por comer apenas líquidos, depois uma fase de purés, e por fim comida come: arroz caldoso, maizenas, fruta madura. Já não tinha dreno, nessa fase, e há um dia em que Marta acordou com uma picada na barriga, na cicatriz do dreno, que foi começando a inchar. "Cocei e começou a sair papaia..." Tinha-se partido a prótese e ficou mais 27 dias internada. Isto já em Janeiro de 2017. Tudo isto podia ter sido evitado se, na altura do primeiro internamento, a prótese desenhada à medida pelo imagiologista Carlos Noronha e mandada fazer na Coreia, tivesse sido codificada pelo Infarmed em tempo útil. Mas levou seis meses a ser codificada e, por isso, só a 21 de Janeiro é que Marta a recebeu. Tudo foi ao sítio num instante, com essa prótese à medida. Dois meses depois, em Março, Marta foi ao bloco para tirar a prótese e respirar finalmente de alívio.

Depois disto, foi viver um dia atrás do outro, sempre colocando objectivos diante do nariz para ir conseguindo concretizá-los. "Primeiro ir ao café era um desafio, a seguir ir levar a miúda ao colégio era uma aventura ainda maior... passo a passo. O primeiro grande objectivo era ir ver o concerto do Bruno Mars em Abril de 2017. E fui." Começou a caminhar junto ao rio, a frequentar o ginásio, em Junho voltou ao trabalho (trabalha na área comercial da Rodoviária de Lisboa). Foi perdendo peso. Até chegar aos 85 quilos para o seu 1,78m. Ainda tem muita pele para remover cirurgicamente. Só em pele devem ser uns quilinhos. Pena não dar para casacos! 

Sente-se uma outra pessoa. Se é verdade que antes não se sentia mal, não é menos verdade que hoje se sente mesmo muito bem. Mas, sobretudo, aprendeu muito com o mau bocado que passou para chegar até aqui: "Não aturo merdas. Não me chateio. Deixei de me preocupar com coisas menores. Estive quase a morrer, agora quero é aproveitar a vida ao máximo." Ah, e a filha também mudou a alimentação e já não tem vestígios de obesidade. Mede 1,70m aos 11 anos, melhorou a auto-estima e praticamente já não tem que aturar as bocas do costume - praticamente porque há sempre miúdos parvos que gostam de chatear. Missão cumprida. Foi tramado para a cumprir, mas está feito. E que bem feito! É por tudo o que atrás se contou que Marta Jordão se inclui nas duas rubricas ao mesmo tempo. "Mudar de Vida" porque a mudança de hábitos alimentares, e estilo de vida, e formato, e saúde foram brutais. "Mulheres do Caraças" por tudo o que passou, sempre de cara alegre e com a sua energia de sempre.

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Mãe e filha, juntas numa missão de sucesso 

 

Mudar de Vida #12: Marta Metrass

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Vivia ligada à corrente. A correr. Ao telefone. A deitar-se tarde. A acordar cedo. A esquecer o almoço. A beber cafés uns atrás dos outros. Eléctrica. Mas feliz, sublinhe-se. Não sabia ser de outra forma. Quem trabalha em publicidade sabe que ou é assim ou não é. Marta Metrass começou por estagiar na UAU (eventos e espectáculos) porque apesar de ter feito a licenciatura em Dança sempre teve um fraquinho pela parte da organização e não se via nada a ser professora (e bailarina, em Portugal, não era propriamente fácil). Daí saltou para a Publicis onde foi TV, Foto e Radio Producer. Quatro anos em stress, a organizar tudo, a fazer 50 coisas ao mesmo tempo. Seguiu-se a Garage Films, onde foi directora de pós-produção. Chegou a fazer seis filmes publicitários ao mesmo tempo, acompanhava todo o processo desde que acabavam de filmar até ao momento em que chegava à televisão para ser emitido. Adorava. Nunca sabia se ia dormir essa noite, se tinha fins-de-semana, se conseguia fazer aquele programa combinado com as amigas. Mas só sabia viver assim. No limite. Tinha, porém, um escape: o yoga. Fazia yoga às 6.30 da manhã, antes do telemóvel começar a tocar. Precisava daquele tempo para si. Daquele equilíbrio entre corpo e mente. Depois disso, sentia-se pronta para comer o mundo.

Foi na Garage que conheceu o Hugo. Um ano e meio depois, casaram. E a seguir nasceu o primeiro filho, o Vicente. "Mas eu continuei com a mesma vida, a mesma loucura. Um dia, aconteceu uma coisa que me fez mudar tudo. Fez-se um clique aqui dentro. Estava em casa com o Vicente, que teria uns dois anos e meio, e atendi a chamada de um cliente, daqueles mesmo muito exigentes. O meu filho chamava-me e eu andava basicamente pela casa a fugir dele, a ver se o meu cliente não ouvia a sua voz. Quando ele começou a tornar-se mesmo muito insistente, fechei-me na cozinha e deixei-o do lado de fora, aos murros à porta e a chorar. Eu só queria terminar aquela chamada, que era importante, mas quando desliguei e lhe peguei ao colo, para o consolar, senti-me a pior mãe do mundo e percebi que aquela já não era a vida que eu queria. Eu queria acompanhar a vida do meu filho, queria vê-lo crescer... e não era nada disso que estava a acontecer."

O clique foi tal e qual como se de um interruptor se tratasse. Num momento estava ligado. No momento seguinte desligou-se. Uma epifania. E Marta sentou-se com o marido a pensar em alternativas. Pensaram mudar de país e, numa primeira fase, Marta enviou currículos para o Rio de Janeiro, mas para fazer exactamente a mesma coisa. Chegou a ir a entrevistas, no Rio, e quando regressou ligaram-lhe a dizer que tinha ficado. Contavam com ela para começar assim que possível. E foi então que se fez luz, de novo. "Eu quero mudar de vida e não de país para fazer a mesma vida! E então pensámos em mudar tudo mesmo, o paradigma por inteiro. Bali começou por estar em primeiro plano, poque foi a nossa primeira viagem juntos e adorámos - foi lá que pedi o Hugo em casamento -, mas depois tivemos receio, já havia tanta coisa em Bali... talvez a Tailândia. E assim foi. Fomos de férias para Ko Phangan e voltámos a Portugal só para despachar tudo e rumar a uma nova vida na Tailândia."

Marta despediu-se. Hugo, que era freelancer, despediu-se também, de uma forma diferente. Venderam tudo. Carro, mota, recheio da casa e uma auto-caravana que tinham ido comprar à Alemanha. "Foi o que mais me custou. Fizemos férias tão giras naquela caravana que vendê-la foi mesmo a única coisa que me fez impressão."

Estiveram quatro anos em Ko Phangan. A ideia inicial era abrir um resort mas preferiram começar por um projecto mais pequeno. Montaram uma hamburgueria gourmet. "Foi um sucesso. Esteve sempre nos primeiros 5 lugares do Tripadvisor, no meio de centenas de restaurantes. O Hugo cozinhava, eu servia às mesas. Depois, eu saí porque começámos a sentir que não era saudável estarmos 24 sobre 24 horas juntos. Começaram a desafiar-me para dar aulas de dança e eu, que sempre achei que não tinha jeito para ser professora, resisti um bocado mas depois lá acedi. E descobri a minha vocação. Descobri que adoro dar aulas, quem diria! Passei a ensinar crianças e adultos, criei aulas extra-curriculares de dança jazz e dança criativa, organizava espectáculos a cada dois meses e meio e, pelo meio, decidi tirar um curso de yoga. E, claro, fiquei rendida."

Se Marta já se refugiava no yoga nos tempos em que vivia ligada à corrente, não é difícil imaginar o impacto que teve nesta nova etapa da sua vida. "Para mim o yoga é meditação em movimento. É muito sentimento, é filosofia. É mente, é coração, é respiração. É uma viagem que abarca tudo e que até junta a dança, minha formação de base." Durante o curso compreendeu que dar aulas era-lhe mesmo natural e, por isso, começou a dar aulas de yoga em todo o lado. De repente, sem se aperceber muito bem como, estava na mesma lufa-lufa de que tinha fugido. Passava os dias inteiros ao lado da praia mas sem pôr os pés na areia e menos ainda no mar. Não tinha mãos a medir. Ainda havia um caminho de mudança que era preciso fazer.

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Quando nasceu o segundo filho, Gustavo, sentiram vontade de mudar, de novo. Pensaram voltar para Portugal mas nenhum dos dois queria regressar para a mesma vida. Cogitaram ir viver para o Alentejo ou para o Algarve mas ambas as opções os mantinham longe dos amigos (que era do que mais sentiam falta) e não permitiam vidas muito auspiciosas. Entretanto, enquanto viviam esta nova onda de dúvidas, Marta tinha marcado um retiro para fazer em Bali. Mas o vulcão entrou em erupção e, como o bebé era muito pequeno, estiveram quase para cancelar a viagem. Mas ela sentia que não podia tomar nenhuma decisão sem ir a Bali. Algo lhe dizia que era lá que estava a resposta para as novas dúvidas.

Tinha razão. No momento em que desceram do avião e puseram os pés no aeroporto, o cheiro a insenso como que os hipnotizou. "É isto. Nós vamos viver aqui. Foi ali que fizemos a nossa primeira viagem juntos, foi ali que pedi o Hugo em casamento, fazia todo o sentido. Passámos um mês de férias a ver casas, alugámos casa por um ano, inscrevemos o Vicente na escola, voltámos a Ko Phangan, vendemos tudo, e estamos a viver em Bali há 3 meses."

Neste momento, Marta Metrass é professora credenciada pela Yoga Alliance de 500h (RYT500h), sendo que já tinha um registo de Experienced Yoga Teacher 200h (E-RYT 200h), dá aulas em três sítios diferentes, mas tem tempo para desfrutar da vida em Bali. "Há uma vida intensa, todos os dias o pôr-do-sol é celebrado, há música ao vivo, tudo a tomar banho no mar mesmo quando já é de noite, porque a temperatura mantém-se quente, as pessoas são simpatiquíssimas e educadas, super espirituais... estamos rendidos. Depois dos 4 anos que passámos na Tailândia, este era o caminho certo. Estou em crer que vamos passar aqui o resto da vida. Ou então até nos fazer sentido! O que importa é mesmo isso: que faça sentido. E o maior sentido que podia dar à minha vida era o de ter tempo para mim, para o meu marido, para ver os meus filhos crescerem, para desfrutar da vida!"

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 Podem encontrá-la AQUI ou na página de Instagram marta_yogadancelove

Mudar de Vida #11: Sofia Craveiro

E por falar em "Mudar de Vida", aqui está mais uma história!

SIC, be my guest. 😉

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Na sua primeira vida, foi engenheira. Sofia Craveiro licenciou-se em 2001 em Engenharia do Ambiente, e especializou-se em gestão de resíduos. Durante 15 anos trabalhou na gestão de resíduos urbanos e industriais, e na fase final da carreira dedicou-se aos resíduos industriais perigosos. Sempre gostou do que fez, sempre que mudou de empresa foi por ter vontade de abraçar novos desafios, sempre se sentiu bem na escolha da sua vida profissional. Até que foi mãe. E as coisas começaram a mudar. "Sentia-me cansada. Queria ter mais tempo para a minha filha, trabalhar sem estar dependente de horários e não me via a fazer o que fazia para o resto da vida."

Em conversa com um antigo chefe, desabafou sobre a sua vontade de ter uma vida diferente, de acompanhar a filha, de não ser escrava do tempo. O antigo chefe, que era também um amigo, aconselhou-a a não se precipitar, a preparar tudo primeiro, a fazer um plano B e, se o plano B resultasse, então logo mudava de vida. E foi o que ela fez.

O que podia fazer sem ser engenharia do ambiente? A resposta foi fácil e imediata. "Cresci com a minha mãe a costurar, fazer tricot, crochet e a bordar. Quando foi o 25 de Abril, esteve fechada em casa e bordou uma toalha que ainda tem - a sua toalha do 25 de Abril. O meu interesse pela costura de repente apareceu em força, fiz um workshop incentivada por umas amigas e fui continuando a aprender. Até aos dias de hoje, adoro dar, mas também ter aulas. Às tantas pensei: isto vai ser a minha vida. E comecei a tratar de tudo para essa mudança. Fui montando o meu plano B."

Quando a empresa onde trabalhava a dispensou, por redução de pessoal, já Sofia tinha a sua alternativa montada. Só foi mais complicado porque aconteceu tudo ao mesmo tempo: o diagnóstico de carcinoma na tiróide e sete dias depois o despedimento. Mas Sofia Craveiro aguentou-se e acreditou que era uma porta a fechar-se para se abrir outra, com um novo sentido, numa nova etapa. Uma espécie de reset seguido de restart. "O plano B passou rapidamente a plano A e com o dinheiro da indemnização abri a Companhia das Agulhas, uma escola de costura e malha."

Talvez alguns dos que estavam por perto não imaginassem que esta escola tinha pernas para andar. Como assim, uma engenheira larga tudo para se dedicar à agulha e ao dedal? Mas isso lá vai dar para viver? Redondo engano. Hoje, na Companhia das Agulhas trabalham três designers de moda, uma especialista em costura, duas professoras de tricot, uma professora de macramé, uma professora de tecelagem, uma professora de feltragem, uma de bordado e arraiolos. Além da própria Sofia e da "outra" Sophia, que ajuda na parte administrativa da empresa. A escola tem aulas de segunda a sexta, de manhã, à tarde e à noite e aos sábados durante o dia. Por vezes também existem aulas ao sábado à noite e ao domingo. E aulas privadas, para ajudar em questões concretas de alguns clientes. Nas férias há sempre as semanas intensivas de aulas para os miúdos - "Temos cá umas miúdas espectaculares de 14 anos que frequentam as aulas como actividade extra-curricular. É giro porque fazem cá os presentes de aniversário e de Natal, bem como o seu guarda roupa e dão uma dinâmica muito gira à escola."

Além disto, a Companhia das Agulhas lançou uma revista, está a actualizar o site com vista a vender também material de costura, malha e não só. "O nosso curso de iniciação à costura tem o material todo incluído para que os nossos alunos não passem por aquela frustração inicial de irem a uma retrosaria e não fazerem ideia do que comprar. Mas depois há os outros cursos e faz sentido vendermos online todos os materiais, pelo que estamos a tratar disso também." E ainda está nos planos aumentar as instalações, pois precisa de mais espaço.

Sofia Craveiro sente-se profundamente feliz nesta nova fase da sua vida (que já não é tão nova assim - a Companhia das Agulhas abriu em Setembro de 2015). Não sente saudades da Engenharia do Ambiente mas não rejeita o seu passado nem o seu percurso: "Foi muito importante na minha vida, fez e continua a fazer todo o sentido. De resto, acho que a gestão que hoje faço é resultado também do que aprendi nas empresas em que trabalhei."

Quanto aos objectivos da escola, diz que são vários e têm sido todos cumpridos: "O primeiro de todos era que fosse uma escola completa. A escola onde eu gostava de ter aprendido quando era eu a aluna. Porque temos tudo. Não é preciso andar a fazer workshops diferentes em sítios diferentes. Está cá tudo. Outro dos objectivos óbvios era o de trazer para os dias de hoje as artes de antigamente. E cultivar esta ideia de que se formos nós próprios a fazermos as coisas elas tendem a durar mais, porque são feitas com amor e não são descartáveis. Outro dos objectivos foi o de chamar a atenção das novas gerações, o que também tem sido conseguido, com as nossas alunas mais novas que passam a palavra e a paixão a outras. Além disto, há um lado ambiental - ou não fosse eu engenheira do ambiente de formação - e solidário. Criámos o Taleigo Amigo, um projecto em parceria com a AMI - Assistência Médica Internacional, que nasceu em 2017 e vai continuar em 2018. O Taleigo é um saco feito com restos de tecido, retalhos esquecidos ou que iriam parar ao lixo por não servirem para mais nada, e roupa sem uso. Contactámos ateliers de costura de norte a sul do país, mais as ilhas, divulgámos amplamente nas redes sociais e toda a gente aderiu e promoveu o Taleigo. Juntos, conseguimos produzir e doar mais de 300 taleigos, que depois foram vendidos pela AMI a 5€/cada, o que permitiu fazer cabazes de Natal para famílias que a AMI apoia. No que respeita ao ambiente, ainda não estamos satisfeitas, queremos aumentar a consciência de quem nos segue, sentimos que o devemos fazer e estamos a preparar umas novidades para 2018."

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Mudar de Vida #10: Paulo Duarte

Paulo Duarte nasceu a 26 de Outubro de 1979, em Portimão. Filho único, mãe e pai ligados à hotelaria, Paulo cresceu a querer ser veterinário, especializado em cetáceos. A família era católica pouco praticante, tirando a avó Constança, uma alentejana de Odemira que estava sempre a rezar: "Foi uma mulher que me marcou muitíssimo. Era uma velhinha viúva (o meu avô morreu quando eu tinha 4 anos), de lenço na cabeça, que não sabia ler nem escrever mas tinha um humor extraordinário. Teve 11 filhos, morreram 8 e impressionou-me sempre muito a sua força, a sua serenidade e a sua alegria, apesar de toda a perda que já tinha sofrido. Quando lhe dizia “ó vó, está sempre a rezar?”, ela respondia: 'então, filho, é o que eu sei fazer!'".

Paulo era um miúdo tímido, sofreu bullying durante 4 anos numa altura em que ainda não havia nome para a perseguição gratuita dos colegas, apenas por ser diferente, por preferir ficar a ler do que a jogar à bola. Na adolescência, tornou-se o oposto do que sempre tinha sido. Passou a ser extrovertido, popular, fez grandes amigos que ainda mantém.

A morte de uma grande amiga, aos 15 anos, num acidente com um carrinho de choque, aliada ao fervilhar de dúvidas típico da adolescência fez o primeiro clique: afinal, quem é Deus? Quem é esta entidade que tem o poder de tirar a vida à minha amiga? "Houve como que uma explosão de questões. Acabei a integrar um grupo de jovens. Fiz a Primeira Comunhão com 16 anos e também a Profissão de Fé. O Crisma aos 18." Nessa altura, uma passagem do Evangelho ficou a bailar-lhe na consciência: "A messe é grande e os operários são poucos." Sempre que a lia ou escutava sentia como que uma agitação interior que não sabia explicar. Mas era cedo. Tinha ainda muito por onde se distrair. No 11º e 12º anos meteu-se em tudo o que havia para fazer: ginástica acrobática de competição, teatro, era delegado de turma. Nessa altura de grande hiperactividade, concorreu à TAP mas foi eliminado por roer as unhas. "Percebi mais tarde que até esse tique me tinha ficado do período do bullying. Fiquei tão incomodado com aquela rejeição por causa das unhas roídas que me decidi a acabar com a mania! E acabei!"

Mesmo sem ter entrado para a TAP, as notas sofreram com a sua multiplicação de interesses e Paulo acabou por não conseguir entrar para o curso de Medicina Veterinária. Optou por Ergonomia.

Mudou-se de Portimão para Lisboa, alugou um quarto, adaptou-se à faculdade como peixe na água, fez novos amigos, envolveu-se na associação de estudantes. Também continuou na sua busca pela espiritualidade e acabou por entrar num grupo de universitários católicos (GRATIS: Grupo Reunido na Amizade e Todos Invocando o Senhor). João Delicado, o amigo que conheceu no GRATIS, falou-lhe então do CUPAV (Centro Universitário Padre António Vieira), dos jesuítas, e Paulo começou a ir à missa no Campo Pequeno. Simultaneamente, o bichinho dos aviões tinha-se-lhe colado à pele e, no segundo ano do curso, concorreu à Portugália (PGA). Passou todas as provas e acabou por ser um dos 20 selecionados: "Seguiram-se dois meses de curso e, depois, disponibilidade total. O curso passou a ser mais um hobby. Foram três anos maravilhosos." Quando recorda esse tempo em que andou nas nuvens Paulo Duarte tem um brilho especial no olhar.

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Foi numas férias da Portugália que decidiu participar numa peregrinação organizada pelo CUPAV. "A ideia que tinha de uma peregrinação era velhos de joelhos. E foi com surpresa que me deparei com 200 pessoas da minha idade, a rir, a rezar, a cantar, a partilhar coisas da vida. No ano seguinte, aproveitei de novo as férias e fiz parte da organização. Lembro-me de haver um momento de profunda comoção. Chorei uma tarde inteira e a ideia de vir a ser jesuíta, de vir a ser padre começou a ganhar forma e espaço. Lembro-me de pensar: 'tenho uma vida óptima, ganho bem, faço o que gosto, estou a viajar... o que é que se passa?'"

Para perceber o que se passava, Paulo Duarte foi fazer o Discernimento, um exercício tipicamente inaciano (Santo Inácio de Loyola foi o fundador da Companhia de Jesus) que permite compreender se existe, de facto, uma vocação e ajudar na tomada de decisão. E quando finalmente decidiu, tinha ainda pela frente dois difíceis momentos: contar aos pais e despedir-se da Portugália. "2003 foi o verão mais quente da minha vida. Quando disse aos meus pais que ia ingressar na Companhia de Jesus entraram em choque. E eu senti-me perdido com a reacção deles. Mas, por outro lado, foi importante para perceber que aquilo era mesmo o que eu queria. Porque, se não fosse Deus e a minha vocação, perante a desilusão e tristeza do olhar dos meus pais eu teria desistido." Os pais sentiam que perdiam o filho único, como se a vida religiosa fosse uma espécie de buraco negro por onde se desaparece sem deixar rasto. "Foi muito difícil para eles, muito difícil para mim." Hoje esse sentimento de perda está sanado. Os pais aprenderam a sentir orgulho da escolha do seu único filho e da força da sua entrega. Mas foi preciso dar-lhes tempo.

Na Portugália, entregou a carta de despedimento à chefe. Ela ficou incrédula (ele acabara de se tornar efectivo). “Vais para a TAP?” Paulo sorriu: “Não, vou para outra companhia. Para a Companhia de Jesus.» O seu último voo, foi uma chacota. «Chamavam-me: “Ó bispo, anda cá!” Quando ia servir o comandante, ele exclamou: “Tu não podes servir-me! Um padre jesuíta a servir-me?” Eu respondi: “Eu vou entregar a minha vida aos outros, acho que também o posso servir a si!”.»

Depois das despedidas, o futuro padre entrou para o noviciado, em Coimbra, onde ficou dois anos, só saindo para passar o Natal com a família e apenas mais 3 ou 4 dias de férias no Verão. Paulo, então já estudante de Filosofia na Universidade Católica, fez os votos de pobreza, castidade e obediência, num importantíssimo passo de entrega da sua vida. Uma festa linda e comovente. Constança morreu nesse mesmo dia (1 de Novembro de 2005), no final da cerimónia. "Esperou por mim e partiu." Da avó só quis a aliança (que traz pendurada num fio, sempre encostada ao seu peito) e a chave de ferro grande e pesada da sua casa, lugar de tantas memórias de infância.

Fez o curso de Filosofia e, paralelamente, começou a ter aulas de dança. Sentia que o corpo precisava expressar todas as transformações por que a alma passava. Antes de se tornar padre, Paulo esteve ainda três anos em Madrid, a estudar Teologia e fez o mestrado em Teologia Fundamental, em Paris. A par e passo com o estudo, fez muito trabalho prático, de acompanhamento pastoral: deu apoio a mulheres vítimas de violência doméstica, a emigrantes ilegais, refugiados. 

O dia da Ordenação (5 Julho de 2014, em Coimbra) foi dos mais felizes da sua vida. Dias depois, rumou a Fátima, onde foi confessar centenas de pessoas. As suas penitências espantavam quase todos: "Hoje vai chegar a casa, vai olhar para o espelho e dar a si própria um grande abraço" ou "a sua penitência são 2 dias de descanso" ou ainda "vai fazer um jantar especial e dizer que gosta muito de si". Para quê mandar rezar avé Marias e Pai Nossos a quem só precisa de um pouco de amor próprio e capacidade de se livrar das culpas?

Foi também com este profundo sentido de fé na renovação do ser humano, e na conversão do mal em bem, que Paulo Duarte fez a sua homilia, na primeira missa que celebrou em Portimão. Começou a missa da forma mais peculiar que os fiéis já devem ter escutado: "Bem-vindos a bordo, welcome a board". Quis que se percebesse, desde o primeiro minuto, que estava ali um padre diferente. Citou Marguerite Yourcenar – "Quando se gosta da vida gosta-se do passado, porque ele é o presente tal como sobreviveu na alma humana" - e pediu aos presentes que nunca reneguem a sua história, ainda que ela tenha episódios negros, porque são todos parte de nós. Tal como a pérola, que é a forma de alguns moluscos reagirem às impurezas: "Das nossas impurezas podem nascer pérolas."

Paulo é hoje professor e padre num colégio perto do Porto. Lidar com os miúdos tem sido uma fonte de energia permanente. Vive a sua vocação de uma forma muito especial, com uma alegria e um sentido de missão inegáveis. Quanto aos tempos em que vivia outra vida, a cruzar os céus, sente saudades e tem aquele brilhozinho no olhar que não engana. Mas, na verdade, ele continua em contacto com as alturas, só que agora de uma forma muito mais profunda.

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Mudar de Vida #9: Rui Gomes

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Foi a gestão que os pais faziam do pouco dinheiro que tinham que o levou a seguir a área financeira. Aquela espécie de milagre da multiplicação sempre o fascinou. Queria aprender a fazer o mesmo. Como não era um aluno brilhante, não entrou na universidade pública. E, por respeito aos pais (que, apesar de tudo, não produziam notas no quintal), Rui Gomes, nascido em Espinho mas criado em Valadares, começou a trabalhar de dia para pagar os estudos noturnos na faculdade privada. Foi vendedor numa imobiliária, fez biscates em restaurantes, trabalhou num escritório de seguros, e depois vieram os gabinetes de contabilidade.

Desde miúdo sempre praticou desporto. Participava nos Jogos Juvenis mas, quando deixou de ter idade para concorrer, inscreveu-se nos Desportos Tradicionais. "Uma das modalidades era Andas. Daquelas Andas altas, que se seguram com as mãos. E eu andava mesmo muito bem naquilo. Comecei a entrar em corridas, e representar a freguesia de Valadares e rapidamente comecei a ficar em primeiro."

Um dia, quando ainda estagiava nos seguros (já lá vão 17 anos), enviou o currículo para uma empresa de animação em Lisboa a dizer que sabia andar de Andas. Nem queria acreditar quando recebeu a resposta: "Pagavam-me 1200 euros por uma semana a trabalhar 4 horas por dia. Ora, eu recebia 600 euros por mês. Perguntaram-me se fazia Andas de animação, eu disse que sim, mas era mentira. Só fazia de competição. Lá experimentei algumas coisas, como meter fita-cola nas pernas... digamos que tive algumas experiências dolorosas para aprender a fazer aquilo. Mas fiz. E, no final, pensei: "Isto é muito melhor do que estar num gabinete de seguros... Depois desse trabalho surgiram muitos outros."

Mas ainda era apenas um hobbie. Nem sequer lhe passava pela cabeça viver disso. Afinal, quem é que vive de andar em cima de Andas? Começou a trabalhar no gabinete de contabilidade e gostava. Era um grupo de gente jovem, muito divertido. "Eu sei que ninguém associa a palavra diversão à profissão de contabilista mas aquele grupo era mesmo giro. Foi uma experiência profissional muito boa. Nem havia a típica relação patrão/colaboradores. Sentíamos que trabalhávamos todos para o mesmo fim. Aprendi muito."

Foi uma fase louca: durante o dia a trabalhar em Contabilidade, à noite na faculdade a estudar Gestão, ao fim-de-semana a fazer animação. "Era uma vida hiper-lotada." Pelo meio, foi fazendo cursos. De teatro, de palhaço. Queria saber mais sobre aquele hobbie que o encantava. Queria ser melhor.

Em 2004, decidiu abandonar o curso. Faltavam-lhe duas cadeiras. Os pais, que não tinham estudado e viam no filho o orgulho da família, sentiram um baque: "Foi frustrante para eles, eu sei. O meu pai, mais conservador, disse que era uma ideia absurda. 'Estás mesmo quase a acabar o curso, não faças isso!' A minha mãe sentia que eu estava a deitar pela janela uma oportunidade de 'ser alguém', de ter um trabalho sério, de ter um diploma. Quando vesti pela primeira vez o traje académico vi no olhar dela aquela satisfação, aquela felicidade. E agora eu ia abandonar isso tudo para ser actor? Para ser palhaço?"

Nessa altura, Rui já tinha casado (casou aos 25 anos). Ana, a mulher, apoiou-o. Acreditou que ele conseguiria vencer, mesmo numa área tão volátil como a da representação/animação. Compreendeu que ele, ao contrário de si, não era propriamente bicho de gaiola. "Ela é licenciada em Recursos Humanos e gosta do rigor dos horários, da concentração durante esse período, de sair e desligar para, no dia seguinte, voltar. Eu estava a sufocar um bocadinho. A Contabilidade ainda por cima tem a desvantagem de ser um trabalho sempre inacabado. É por isso que eu gosto de projectos pequenos. Damos tudo e depois fecha-se essa porta, para abrir uma nova de seguida. Portas sempre diferentes mas que dão origem a coisas concretas com princípio, meio e fim. Estava um bocado farto de ser contabilista. Na altura sentia que financeiramente a animação tinha um peso grande na minha vida. Sabia que deixar o gabinete ia fazer com que não ganhasse tão bem mas tinha 26 anos. Se não desse logo voltava atrás. Não era um salto mortal sem rede. Não existia muito esse peso. E então, em Agosto de 2007, três anos depois de ter deixado o curso, deixei também o gabinete."

Terminou o curso semi-profissional de Teatro (4 horas diárias durante 6 meses), que tinha começado quando ainda trabalhava no gabinete. E, no final, um pequeno grupo em que ele se incluía decidiu criar uma companhia de teatro, a Estaca Zero. E, um mês depois de se ter despedido, teve a sorte de ser logo contratado para um projecto relativamente grande em Estremoz: "Ciência na Rua", promovido pela Ciência Viva. 

Entretanto, abriram as candidaturas para a Operação Nariz Vermelho. Rui já fazia trabalhos como palhaço em eventos infantis e candidatou-se. Passaram meses sem dizerem nada até que, em Novembro, chamaram-no para ir à entrevista. E foi então que achou que não queria ir por ali. "Pensei que não queria trabalhar em hospitais, não queria esse peso para mim. Achei que ia chegar a casa infeliz. Não queria." O seu amigo Jorge Rosado, também palhaço, ligou-lhe no dia da entrevista, a convencê-lo a ir. "Estavam lá dos maiores actores do Porto. A verdade é que entrar para a ONV dava a qualquer actor um suporte financeiro estável, que é raro nesta profissão. Eu olhava para aquela gente consagrada e só pensava: 'não vou ser eu, um palhacinho das festas, que vou ser admitido.' E, na verdade, sentia que aquela não era bem a minha cena. Estava feliz, estava a ganhar relativamente bem... mas lá fui. A entrevista foi com a Beatriz Quintela (a mentora, então presidente do projecto e Dra da Graça) e com o Mark Mekelburg (Dr. P.P.P. Pipoca). Ela perguntou-me o que tinha feito no último ano, eu expliquei que tinha deixado de ser contabilista para me dedicar a ser actor e palhaço. A Bia quis saber se eu ganhava mal como contabilista, e eu respondi que não, pelo contrário. Só que não era muito feliz."

Contra todas as suas expectativas, passou para a fase seguinte. Deu por si a pensar que estava a vestir um fato maior que ele. Que havia tanta gente tão melhor que ele que não tinha sido seleccionada. Havia quase um sentimento de culpa, de embaraço. Quando chegou a altura de fazer um workshop em Lisboa, veio de novo sem esperanças de ficar. O primeiro dia era para verificar a disponibilidade artística de cada um e, no último dia, era suposto que cada concorrente fizesse uma performance de 3 ou 4 minutos para a equipa residente da ONV escolher os melhores.

A esta distância, Rui consegue perceber que toda a sua renitência e o convencer-se de que não era aquilo que desejava realmente não passava de medo. "Agora consigo perceber isso. Eu sabia que os outros eram muito melhores que eu, mais experientes, mais actores. E tinha medo. Medo de falhar, medo de me sentir humilhado. Defendia-me com o 'não quero' mas na verdade eu queria. E muito."

O workshop correu muito bem e alguns membros da equipa foram ter com ele para lhe dizer que estavam a gostar muito da sua prestação. "No domingo tinha de fazer uma performance mas, com aquela ideia fixa de que não ia ficar, não preparei nada.  Não sentia o peso da culpa por não me ter preparado. Só o senti no domingo de manhã, que foi o dia mais frustrante da minha vida. Ver os meus colegas todos com coisas muito boas, muito pensadas, estruturadas, artisticamente muito bem conseguidas e eu... nada. Chegou a minha vez e o que tinha era uma coreografia de um palhaço peruano que conhecia. Na altura pouca gente conhecia aquilo mas sempre que fazia em eventos era um sucesso. O pior é que aquilo funcionava em ambiente de festa mas num ambiente de pessoas que desenvolvem conteúdos artísticos de valor aquilo era muito mau. Estava a fazer a performance e a sentir claramente 'isto não é adequado para este momento'. Agora, estar a fazer isto diante da Beatriz Quintela, que já me tinha dito que eu era fixe, foi horrível. Percebi que ia defraudar as expectativas e pensei: 'sou mesmo o animador de festinhas infantis, o palhacinho...' Senti o estigma. E senti que tinha lixado a minha oportunidade."

Enquanto esperavam pela avaliação dos membros do júri, iam ouvindo os seus comentários. E não eram coisas boas de ouvir. A certa altura, um alemão da equipa (Harry Rothermel ou Dr. Batota) levantou-se, chegou perto do Rui e atirou, bem à bruta: "O que tu fizeste ali foi uma merda e por mim nunca entrarás neste projecto." A sentença doeu-lhe mas sabia que o alemão estava certo. Percebeu que Beatriz Quintela estava chateada mas era a única a lutar por ele. O seu nome foi o último a ser escolhido e foi a Bia quem apostou nele: "Será a minha escolha pessoal." Na sala houve um sentimento de injustiça muito grande. Não só dos actores que não foram escolhidos como dos doutores palhaços residentes, que acharam que estava a entrar um tipo com pouco valor. "Eu também senti que estava a tirar o lugar a quem merecia mais do que eu."

A fase seguinte foi já em ambiente hospitalar. A ideia era fazer dois ou três serviços, em dupla, acompanhados pelos doutores palhaços séniores. A ideia era improvisar e ver como corria. Rui fez dupla com Julieta Rodrigues (hoje Dra Foguete) e não podia ter corrido melhor. "O primeiro serviço onde fomos foi aos Queimados. A primeira criança que vi não tinha pele na cara, só carne viva e um líquido a escorrer. Foi forte mas não me deixei abalar. A Julieta, que já fazia teatro de rua, estava no terreno dela e eu, habituado às festas infantis, também. Quando terminámos estava apaixonado. Eu quero mesmo isto. Vou poder trabalhar para estes miúdos e todos os dias vou poder aprender mais, com gente com imenso valor, e a ter formação permanente. É isto que eu quero!"

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Dois ou três dias depois, a resposta. "Nunca me hei-de esquecer: estava na garagem com o meu pai quando ligou o Mark. Foi, sem dúvida, um dos momentos mais felizes da minha vida." Rui comove-se ao relembrar mas diz que não chorou nesse instante. "Andava pela garagem aos saltos a gritar: Entrei! Entrei! Entrei!" Logo a seguir, ligou para o seu amigo Jorge Rosado, para saber se ele também já tinha recebido o telefonema do Mark. Ainda não tinha recebido. Nunca chegou a receber. E foi assim que a felicidade ganhou uma nuvem que a ensombrou: "Fiquei realmente triste por ele. Ele queria muito mais do que eu, pelo menos quando todo o processo de selecção começou. Foi por causa dele que eu fui à entrevista, e acho que nunca lhe disse isto mas devo-lhe esta fatia grossa de coisas boas que chegaram à minha vida a partir daí."

Ser um doutor palhaço mudou tudo. "Mais do que uma experiência profissional, tem sido uma experiência de vida. As pessoas que tenho conhecido, a queda de preconceitos que eu tinha por um questão de educação, e até a forma como passei a ver a vida. Relativizar os problemas que, na maior parte das vezes, nem chegam a ser problemas. Viver intensamente. Aprender sempre. Criar! Há definitivamente um Rui antes e um Rui depois da entrada na Operação Nariz Vermelho." 

A escolha do nome - Dr. Boavida - foi imediata. "Isto sim, é Boa Vida. É acordar todos os dias feliz porque vou fazer o que quero. É ter, além do mais, formação artística regular. É não ter horários rígidos. Além de continuar a pertencer àquela companhia de teatro criada depois do curso (Estaca Zero), criei a minha própria companhia: Centelha Criativa. Umas vezes tenho muito trabalho, outras menos. Umas vezes ganho muito, outras não. Mas não trocaria a minha liberdade por nenhuma regularidade financeira. Ainda assim, há três anos concluí as duas cadeiras que me faltavam do curso de Gestão. Senti que tinha de fechar esse ciclo da minha vida. Nesta segunda vida que tenho, o amor pelo que faço é tão grande que eu faria tudo o que faço de graça. Sem me pagarem. Felizmente pagam-me, porque preciso de dinheiro para viver. Mas não seria contabilista sem que me pagassem. Percebes a diferença?"

Rui Gomes é um homem grato. Aos pais, à passagem pela Contabilidade, à descoberta das Andas, ao amigo Jorge Rosado, à Beatriz Quintela que acreditou nele, ao alemão bruto que o pôs no lugar quando merecia (e de quem é hoje amigo), a todos aqueles com quem aprende, todos os dias. É sobretudo grato à vida, que lhe permitiu fazer esta inversão de marcha que fez dele a pessoa que hoje é. Uma pessoa que vale a pena conhecer, acrescento eu.

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Mudar de Vida #8: Eduardo Botelho

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 Foto: Raquel Brinca, HUG

 

Queria ser gestor de empresas, quem sabe ter o seu próprio negócio, uma carreira de sucesso. Eduardo Botelho, 30 anos, foi um muito bom aluno na Universidade Nova de Lisboa. Tinha 20 anos acabados de fazer e já havia várias empresas a convidarem-no para ir a entrevistas de emprego. "Nem tive de pensar muito. Como as entrevistas eram chatas, era porreiro aceitar logo e despachar o assunto. Assim, ainda não tinha acabado o curso e já tinha emprego garantido na KPMG."

A forma como ele diz isto não contém um pingo de vaidade. Di-lo a rir-se, encolhendo os ombros, um certo gaguejar embaraçado, quase como se tanto desejo por si não fosse mais que uma surpresa divertida. "Acabei a licenciatura em 2008, tive um mês de férias, e em Setembro comecei na KPMG. Ao fim de três meses estava a sair. O meu trabalho era verificar faturas  e fazer contagem de inventários, para confirmar se as empresas seguiam os procedimentos contabilísticos correctos. Confesso que era muito chato. Decidi sair, voltar para a Universidade Nova, e fazer um mestrado. Mas como entretanto me tinha habituado a ganhar dinheiro, o que tinha sido bom, fui dar aulas à noite numa escola secundária, enquanto fazia o mestrado durante o dia."

No segundo ano de mestrado, Eduardo candidatou-se a dar aulas na faculdade e ficou. Gostou muito. Tanto que decidiu não procurar mais nada. Ia ficar por ali, pelo menos um ano. Mas as empresas continuavam a tentá-lo. Ele ia sempre dizendo que não, mas havia umas mais insistentes que outras. Acabou a ir a uma entrevista para a Jerónimo Martins, onde conheceu o responsável pela multinacional Daymon. Não ficou na primeira, acabou a assinar pela segunda. "Fiquei na área de relação com os fornecedores, o que me obrigava a viajar muito, a ir a feiras internacionais, foi muito bom. Num ano devo ter feito umas 10 viagens de trabalho e era mesmo interessante. Mas ao fim de um ano voltei a sair porque, feito o balanço, gostava mais de dar aulas."

Ficou durante três anos a dar aulas na Universidade Nova, até que decidiu candidatar-se ao doutoramento: "A única maneira de se ficar efectivamente na carreira docente, no ensino superior, é com o doutoramento. E então passei um ano inteiro dedicado a isso: a pedir cartas de recomendação, a estudar para os testes da candidatura... e acabei por ficar na minha primeira opção: no IESE de Barcelona." E lá foi. O Eduardo, a mulher e o filho de ambos, João da Ega, com 4 meses. A mulher, que é professora de Português, e estava então a gozar a licença de maternidade, foi sem nenhum emprego em vista mas acabou a dar aulas de português a estrangeiros. O Eduardo, que tinha uma bolsa, além de não pagar pelo doutoramento ainda recebia mais de dois ordenados mínimos (de Portugal) por mês, fora outros privilégios como não pagar impostos e ter o filho na creche pública.

No primeiro ano correu tudo muito bem. Mas no segundo adensou-se a parte da investigação. "Começou a ficar muito chato. São estudos em que temos sempre que especificar mais e mais, até chegar quase ao nível celular das coisas. Tinha uma vida muito boa mas o trabalho em si era tão teórico e exigia tantos testes e estatísticas que comecei a desinteressar-me."

Paralelamente a todo este percurso houve sempre o futebol. Sempre adorou assistir, em casa ou nos estádios, sempre jogou, aos 17 anos tirou o curso de árbitro e chegou a exercer, nos Juvenis, jogou futsal federado, escreveu no site de um amigo, no site Bola na Rede (bolanarede.pt) e, já em Barcelona, começou a jogar nos Lusitanos. "Conheci o cônsul português, que é o treinador dos Lusitanos, e propus criar uma newsletter do consulado em Barcelona. Ele queria uma coisa simples com os eventos do mês relacionados com Portugal mas eu quis fazer uma coisa mais a sério e então acabou por ter 15 páginas, com histórias de portugueses por lá e informações úteis. Eu escrevia, a minha mulher editava e o cônsul escrevia o editorial. No segundo ano de Doutoramento dei por mim a escrever uma vez por semana a crónica para a Bola na Rede, uma vez por semana a crónica para os Lusitanos e a revista do Consulado. Já trabalhava tanto nisto como no Doutoramento. E era onde me sentia mais feliz."

Um dia, em Julho de 2016, decidiu que não ia continuar o Doutoramento. "Até podia ter continuado e, paralelamente, começado à procura de emprego mas achei desonesto. Eles estavam a pagar-me e era imoral arrastar aquilo por minha própria comodidade. Comuniquei que não ia continuar e, em Outubro, vi um anúncio do António Tadeia no facebook a dizer que queria contratar 5 jovens jornalistas porque ia iniciar uma coisa nova. Mandei o meu currículo, mas sem esperança. Afinal, não era jornalista, tinha o curso de Gestão, estava a fazer o Doutoramento, tinha sido professor universitário... era pouco provável que ele me chamasse."

Mas chamou. Em Novembro veio de avião de Barcelona para Lisboa, de propósito para a entrevista. Eduardo tinha conseguido a atenção do jornalista. Afinal, o que é que levava um tipo altamente qualificado na sua área, disputado pelas empresas de topo, a fazer o Doutoramento em Barcelona, a abandonar tudo para se tornar jornalista desportivo? "Cheguei lá e, enquanto esperava, deram-me uma folha para preencher. Tinha de dizer quem era o meu jornalista de referência. Não escrevi nada, achei que não valia a pena estar a inventar, e tinha também que fazer uma notícia. A minha folha era a 101 e pensei: 'vim aqui perder tempo, este tipo já entrevistou 100 pessoas antes de mim, de certeza com muito mais provas dadas do que eu, que não dei nenhuma...'. A entrevista supostamente teria a duração de 5 minutos. Havia duas perguntas a que tinha que responder. A primeira era a razão pela qual se candidatava, a segunda era "o que tem de diferente dos outros?". Eduardo respondeu durante 10 minutos à primeira questão. Quando ia responder à segunda, António Tadeia interrompeu-o: "Não é preciso dizer-me o que tem de diferente dos outros."

Foi-se embora, voltou a Barcelona para empacotar as coisas, veio para Portugal para as férias de Natal. Na segunda semana de Dezembro, recebeu um telefonema. Tinha sido um dos escolhidos para integrar a nova equipa de uma nova plataforma online sobre futebol chamada Bancada. Contavam com ele no dia 2 de Janeiro de 2017. Era preciso mudar de vida, de cidade, de país. Eduardo tinha então dois filhos, um deles acabado de nascer.

A mulher compreendeu-o. Talvez tenha achado que, já que ali estava, não devia abandonar o Doutoramento, mas se isso lhe passou pela cabeça nunca o revelou. Talvez lhe bastasse que fosse feliz.Já o pai perdeu um pouco a paciência com ele. "Mas o mundo tem de ser perfeito para te encaixares nele?" E, de seguida, enviou-lhe uma lista com as 20 melhores empresas para trabalhar. Eduardo lembra-se de se ter rido daquilo. "O que é a melhor empresa para se trabalhar? É aquela onde há uns puffs e uma mesa de matraquilhos gira mas onde depois, na prática, ninguém tem tempo para se sentar nem um segundo? É aquela onde se progride na carreira ficando todos os dias até à 1h da manhã mesmo que não seja a trabalhar, só para mostrar empenho? Não será a melhor empresa para trabalhar aquela onde somos felizes, onde fazemos o que gostamos, o que queremos?"

Assim, a melhor empresa para trabalhar é esta, onde agora está a fazer jornalismo desportivo. É verdade que ganha cerca de metade do que ganhava quando estava no Doutoramento, onde "apenas" estudava. É verdade que há muito mais pressão, prazos, notícias que é preciso publicar depressa porque a actualidade é voraz, turnos que por vezes implicam noitadas. "É por vezes desgastante, cansativo mas estou contente. Sempre gostei de escrever [Eduardo tem um livro de versos publicado chamado "O Verso dos Dias", carregado de humor], sempre gostei de futebol, mas creio que nunca considerei a possibilidade de ser jornalista desportivo. Um dia perguntaram ao Robert de Niro o que o tinha levado a ser actor e ele respondeu que tinha sucumbido a um desejo. Acho que foi o que me aconteceu. Sucumbi a um desejo. Creio que iria sucumbir mais cedo ou mais tarde e, sendo assim, mais vale que seja mais cedo. Se me perguntar se daqui a 20 anos estarei a fazer a mesma coisa... não saberei responder. Já percebi que não vale a pena fazer planos. Para já estou a desfrutar!"

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Mudar de Vida #7: Miguel Lambertini

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A primeira vez que pensou em mudar de vida tinha 23 anos. Acabado de sair da Católica, licenciado em Comunicação Social, pensou que talvez estivesse a falhar uma vocação. Mas, nessa altura, achou que já era tarde para mudar. Foi preciso chegar aos 36 anos, ter um filho e ver morrer um amigo para perceber que nunca é tarde para mudar de vida ou, se quiseremos ceder a um certo cliché piroso, nunca é tarde para se ser feliz. 

Miguel Lambertini foi um aluno mediano. Nunca chumbou mas também nunca figurou no quadro de honra. Dispersava-se e, sobretudo, gostava de ser o palhaço da turma. Fazer rir ajudava-o a enturmar-se, já que a sua timidez crónica não lhe permitia integrar-se de outra forma. Sempre que havia peças de teatro, ele estava lá. O palco curava-lhe o acanhamento e os aplausos e as gargalhadas faziam-no vibrar. Mas era uma brincadeira. Nada mais do que isso.

No 10º ano, com a passagem de um colégio para a escola pública, sentiu o apelo pela liderança e pela política. Participou activamente em campanhas da JSD, candidatou-se a presidente da Associação de Estudantes da Escola Secundária Vergílio Ferreira e ganhou. Com a vitória ganhou também confiança. "Afinal, eu era visto como o betinho que vinha do colégio. E conseguir convencer pessoas tão diferentes de que o meu projecto era interessante foi um desafio!" Daí para a política do país foi um passinho. Fez parte das listas do PSD à Junta de Freguesia de Carnide e esteve três anos a trabalhar na assembleia de fregueisa, ao mesmo tempo que fazia o curso de comunicação social na Católica. Também em simultâneo, recebeu o convite da Câmara Municipal de Lisboa (CML) para trabalhar como assessor de imprensa. "Foi muito giro. É um trabalho que permite um contacto muito próximo com as pessoas."

A escolha do curso não foi nenhuma paixão de infância ou uma vocação epifânica de adolescência. A irmã oito anos mais velha também tinha seguido por aí e Miguel achava interessantes as suas disciplinas práticas de rádio e televisão e toda a parte multimedia. Comunicar fazia-lhe sentido. E, claro, não haver matemática envolvida também. Em paralelo, nas férias, foi monitor nos campos de férias da EDP. Fez dezenas de peças de teatro e espectáculos e sentia-se sempre feliz com o resultado. Mas era apenas um hobbie. Nada mais do que isso.

Quando terminou o curso, a faculdade obrigava os finalistas a um estágio. Miguel, sabendo que um amigo trabalhava na produção do Herman SIC, pensou que não podia haver lugar que lhe fizesse mais sentido. E conseguiu. "Claro que eu não sonhava que estagiar na produção de um programa daqueles é basicamente ser escravo, mas pronto. Foi extenuante, muito fisico, mas privar com o Herman e com o resto da equipa fez-me ter o tal primeiro clique. Pensei: eu gostava de fazer isto que esta malta faz. Andei anos a esconder isto de mim próprio, a não dar importância, a empurrar para um cantinho e afinal é algo que me imagino a fazer para o resto da vida." Mas tinha acabado de passar quatro anos numa universidade privada. "Os meus pais a investir e eu ia renegar tudo? Ia chegar a casa e dizer 'afinal vou ser actor'? Não dava..." Por isso, pensou de novo que talvez fosse só uma paixão passageira. Nada mais do que isso.

 

Mudar de Vida #6: Susana Amira

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Estão a ver um automóvel a fazer inversão de marcha, chiando os pneus, e seguindo depois viagem pela via contrária? Assim é esta história. Ou, se quisermos outro paralelismo, menos rodoviário: estão a ver a água e o fogo? A protagonista deste “Mudar de Vida” começou por ser água. Hoje é fogo. Assim mesmo, sem tirar nem pôr. Susana Moraes, 39 anos, mudou de tal maneira de vida que até o nome levou uma volta. Hoje é conhecida por Susana Amira (princesa, em árabe).

Comecemos então pela água, que foi o início de tudo. Susana Moraes, nascida e criada em Lisboa, sempre foi uma menina atinada, boa aluna, adolescente sem devaneios. Quando chegou o momento de escolher um curso (porque o “canudo” era uma inevitabilidade a que nem lhe passaria pela cabeça escapar), não soube bem o que fazer. Era boa a tudo, e quando se é bom a tudo fica difícil fazer escolhas. A maior parte das amigas seguiu para Gestão, ela optou por Economia por pensar que talvez fosse mais abrangente e lhe desse mais oportunidades. Além disso, tinha o sonho de acabar com a pobreza e a exclusão social (quem nunca?) e, por isso, especializou-se em Economia Social. “A minha ideia era destruir o sistema por dentro”, explica com uma gargalhada de quem já perdeu a inocência há muito.

Assim, quando terminou o curso, Susana começou a trabalhar em gabinetes de consultoria na área social, onde fazia estudos para caracterizar as populações desfavorecidas e encontrar medidas para quebrar esse ciclo de pobreza. Estava tudo a correr como previsto: ia mesmo mudar o mundo e combater a miséria e a injustiça social.

Só que não. Os levantamentos que fazia não tinham repercussão prática, acabavam por não evoluir para uma real mudança, e foi então que as suas convicções de que ia fazer a diferença começaram a esmorecer. Se calhar não ia. Se calhar não valia a pena. E foi então que a menina inocente virou mulher.

Acabou, em 2001, a aceitar emprego na área financeira, algo que sempre havia rejeitado, cruzes canhoto! Onde? Num dos centros nervrálgicos da finança: a Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM). Ali encontrou um ambiente "composto por números e gráficos". O oposto do que sonhara. Passou por vários departamentos, teve muitas funções. Não nega que "em termos intelectuais era estimulante". No final, fazia parte de alguns grupos internacionais que supervisionavam a bolsa e que a obrigavam a viagens mensais. "Era o que mais gostava. Não só pelas viagens como por ir aos centros de decisão, e ficar a conhecer formas diferentes de trabalhar. Todos os meses tinha uma reunião em Paris, Bruxelas, Londres, Amesterdão, etc. Isso foi muito bom."

Paralelamente, Susana tinha uma paixão por dança oriental e pela cultura árabe que nem consegue precisar a origem. Sempre disse que havia de ir a Marrocos com o primeiro ordenado e assim foi. Em 1999 foi pela primeira vez a Marrocos e foi como se tivesse chegado a casa. "Os mercados, os cheiros, os sabores, as músicas... era como um regresso a algo que me fazia todo o sentido." Nessa altura, porém, não havia em Portugal muita informação sobre onde aprender danças orientais. Foi só em 2002 que encontrou uma escola e foi aprender a dançar. "Apaixonei-me logo na primeira aula. Não sei explicar mas senti que aquilo fazia parte de mim."

Continuou sempre a dançar, como hobbie. Mas a paixão, em vez de esmorecer, crescia. Inscreveu-se num curso de árabe na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas e esteve dois anos a aprender Língua e Cultura Árabe. "O meu maior interesse era perceber as letras das músicas que dançava para melhor as interpretar." Em 2008 concorreu para um casting de um professor egípcio que ia fazer espectáculos em Portugal e foi seleccionada. A família ia ver os espectáculos dela com a complacência que os comuns têm pelos excêntricos: "Lá está ela com esta mania dos árabes. De onde virá isto?" Susana sorri ao lembrar: "Eles foram ver e acharam muita piada. Acharam o máximo. Mas - claro - só acharam tudo isso porque eu era uma Economista a trabalhar na CMVM."

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Em 2010 dá-se o clique fatal. Susana Moraes vai pela segunda vez ao Egipto (já tinha viajado também para a Tunísia, a Jordânia, para Marrocos várias vezes). Objectivo da viagem: ter aulas intensivas de dança. 16 dias. E é nesse ano também que uma das suas colegas a convida para fazer parte de um grupo de dança profissional e para dar aulas. Ela, completamente apaixonada, aceitou. "Ou seja, em 2010 eu era a senhora doutora durante o dia, e era a dançarina à noite. É preciso sublinhar que a área financeira é uma área muito conservadora. A maior parte das pessoas veste fato e gravata ou tailleur cinzento. De maneira que eu fazia isto no maior secretismo, como se fosse uma coisa errada ou proibida. Sentia-me cada dia mais prisioneira na CMVM porque sentia-me mais feliz do que nunca a dançar, porque sentia que tinha finalmente descoberto a minha vocação, e porque tinha a certeza de que era por ali o meu caminho."

Foi assim que a decisão foi tomando forma. "Pensei: não quero passar mais 10 anos da minha vida aqui, quando tenho lá fora algo que eu adoro. Sempre fui muito romântica e sempre acreditei que se fizermos as coisas com amor e com verdade dá tudo certo. Ora, se eu sentia aquela paixão tão grande, tinha de lutar para conseguir concretizá-la." Num acesso de coragem (dirão uns), de loucura (dirão outros), Susana Moraes chegou a acordo e saiu da CMVM. E da água surgiu o fogo. E a Susana Moraes dava lugar à renascida Susana Amira. 

Na família, a decisão foi acolhida com choque e escândalo. Falaram-lhe do perigo de trocar o certo pelo incerto. "Estavam preocupadíssimos, e eu percebi. Era legítimo. Mas tive de lhes dizer: errei na minha vocação, mas mereço ser feliz agora."

Susana não lastima os anos de "erro". Na verdade, não é assim que os vê. "Foi um processo por que tive de passar. Foi útil. Ainda hoje é, quando tenho de gerir a minha vida de profissional por conta própria. Fez sentido e não me arrependo. Tornou-me na pessoa que sou hoje e as coisas acontecem no momento em que têm de acontecer. Foi complicado ter a aceitação da família. Acho que hoje estão todos conformados e apoiam-me incondicionalmente. Mas sim, acho que ainda têm uma secreta esperança de que isto me passe e eu volte a ter um emprego 'sério'."

A mudança de vida trouxe-lhe instabilidade financeira mas uma felicidade e realização que nunca havia sentido. Sim, o facto de não ter filhos ajudou. "Se calhar, se tivesse filhos, não poderia fazer isto. Ou então fazia na mesma, porque era quase um grito cá dentro. Como se finalmente estivesse a ser fiel a mim mesma. Talvez fosse importante passar essa mensagem aos meus filhos. Mas também seria aterrador a perspectiva de falhar, tendo pessoas a depender de mim. É uma incógnita, mas também não importa muito." O que importa é que, ainda que sem dependentes a cargo, Susana deu o passo. Do certo para o incerto. Do sério para o excêntrico. Da água para o fogo.

Hoje dá aulas em várias escolas e tem cerca de 50 alunas. Vê-la a dançar, a interpretar, a vestir o fato que a transforma é como assistir à transformação de uma crisálida em borboleta. "A dança oriental está muito ligada ao feminino, ao resgatar da essência feminina. E eu quero, com a dança, dar o meu pequeno contributo para que as mulheres se aceitem como são, para que gostem de ser femininas, que se permitam. É uma redescoberta do corpo e uma partilha do feminino. Quando as minhas alunas aprendem a dançar e vestem aqueles vestidos cheios de brilhos sentem-se poderosas. Aparecem-me muitas vezes mulheres com uma baixa auto-estima, maltratadas, cheias de fragilidades e a dança é extremamente terapêutica. Além disso, é uma excelente forma de fazer exercício físico e de nos divertirmos."

Susana Amira já fez muitos espectáculos e tornou-se a única bailarina portuguesa a participar numa grande produção de Hollywood sobre a vida do faraó Tutankamon. "Vi um casting na internet, enviei vídeos e fotos e fui seleccionada. As filmagens decorreram em Marrocos e eu ali estive, ao lado do Ben Kigsley! Foi uma experiência incrível!"

A qualidade do seu trabalho foi distinguida com o Prémio de Excelência Artística 2014 atribuído pelas Instituições de Artes, CEMD e Literarte. E não só. Em 2015 foi seleccionada para integrar o prestigiado Ballet Internacional Munique Neith de Barcelona, dirigido pela bailarina Munique Neith. 

"A minha paixão é cada vez maior. À medida que vou amadurecendo torno-me melhor bailarina. A dança é uma expressão de sentimentos, é onde me liberto, é onde me sinto livre. À medida que vou amadurecendo tenho mais experiências para partilhar através da dança. Mais histórias, mais feridas, mais alegrias. A dança é muito mais do que técnica. É alma. Ora, a minha alma é muito mais cheia agora e estou hoje muito mais à vontade para a entrega que a dança implica. E é essa entrega que pode arrepiar e emocionar quem assiste. É essa a magia. A magia que me fez trocar uma vida por outra e todos os dias agradecer por isso."

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Website:www.susanaamira.com

Facebook: https://www.facebook.com/susanaamiradancaoriental/

Vídeo: https://www.youtube.com/watch?v=9-hIm57Vtb0

 

 

 

 

Mudar de Vida #5: Ana Tulha

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De psicóloga a maquilhadora. Um caminho cheio de curvas, cruzamentos, entroncamentos.

 

As memórias mais antigas que tem de si são a desenhar. Lápis de cor, canetas, pincéis. No papel ficava o que via ou o que lhe passava pela imaginação. Por isso, quando começaram as incontornáveis perguntas das tias "então e o que é que a menina quer ser quando for grande?" a resposta pendia sempre para as artes: pintora, arquitecta, ilustradora. Artista, pronto. Artista de papel e lápis, artista de deixar correr a tinta ao sabor da criatividade. 

Durante o secundário, foi sempre pondo um pé em tudo o que eram experiências artísticas. A escola abriu um grupo de artes circenses e ela aprendeu a fazer malabarismo. Mas também havia teatro, capoeira, percursão. "Conheci então um malabarista que trabalhava como palhaço enquanto fazia a sua licenciatura em Engenharia do Ambiente. Um dia o André perguntou-me se eu era capaz de fazer na cara aquilo que fazia no papel. Eu disse que sim. E em pouco tempo estava a ser solicitada para fazer pinturas faciais em festas infantis, algo que conciliei sempre, desde os 17 anos até ao fim do percurso académico."

E o percurso académico? Artes, só podia. Mas não, porque a vida também é feita de surpresas. No final do 12º ano, surgiu a dúvida. Um excelente professor de Psicologia lançou a semente. "E agora? O que me imagino a fazer no resto da minha vida?" O meio artístico parecia-lhe escorregadio, instável, inseguro. Psicologia talvez lhe abrisse portas mais certas. Esperou pelo último dia para se inscrever. Com média de 15 valores, entrou em Design Gráfico e Psicologia. Optou pela Psicologia.

Parece estranho, mas não é assim tanto. Afinal, as Artes não estão assim tão distantes da Psicologia. Em Artes, tudo o que é produzido tem sempre que ver com o artista, com quem ele é, com o que viveu, com o que apreendeu do que viveu. Com a sua personalidade, com a sua alma. Ora, o que pode ser mais próximo com isso do que a Psicologia, que nos mostra quem somos, que nos permite alcançar e compreender os nossos medos, as nossas emoções, os nossos sentimentos?

Ana Tulha viveu apaixonadamente a licenciatura. Quando surgiu o estágio curricular ficou num sítio muito conceituado: "Fiquei com os comportamentos desviantes numa clínica de desintoxicação, uma comunidade terapêutica de alcoólicos,  toxicodependentes e utentes com as mais diversas perturbações mentais, com cerca de 100 pessoas em regime de internamento, alguns em internamento compulsivo." Ana ficou com os adolescentes e acabou a adorar esse semestre em que lá trabalhou. Tanto que acabou por ter a melhor nota de estágio: 18 valores.

Quando o curso terminou, esteve cerca de 6 meses à procura de trabalho. Enquanto não aparecia, ia fazendo o que nunca deixou de fazer: pinturas faciais. Depois, foi trabalhar naquilo que era o seu sonho: comportamentos desviantes. "Adorava o filme do Silêncio dos Inocentes. Acho que queria ser a Clarice", ri Ana, ao relembrar. Mas depois veio a vida real. E lidar com o mal acabou a fazer-lhe mossa. "Fui fazer avaliação psicológica em contexto forense. É uma área interessantíssima, basta ver o espólio literário e cinematográfico que há sobre o assunto. Mas trabalhar com estas pessoas não é fácil. Trabalhava directamente com o Ministério Público e colaborava em casos de divórcios complicados, análise de competências parentais e suspeitas de abusos sexuais. Estive um ano a trabalhar com vítimas e agressores. A analisar perfis psicológicos, a elaborar relatórios que iriam constituir meio de prova. Ou seja, que iriam interferir com a vida das pessoas."

Ana tem dificuldade em dizer mas nem precisa. Sente-se em cada frase que a sensibilidade que a caracteriza chocava com aquela realidade feia. Ela, que sempre se ligou ao belo, era agora confrontada com o feio, com o pior do que o ser humano é capaz. "Tive a oportunidade de estar numa área tão apetecível e não quero parecer mal agradecida. Eu tinha estofo para aquilo mas optei por trazer para casa outro tipo de vivência. Se quer saber a verdade, acho que ainda não me perdoei por ter virado as costas àquilo. Eu era profiler, que é incrível. Mas acho que preferi viver rodeada de coisas boas."

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Depois desse trabalho (pelo qual era paga com sucessivos atrasos), fez uma pós-graduação em Psicologia Forense e quando saiu recebeu o convite para voltar a trabalhar na comunidade terapeutica onde tinha feito o estágio. Esteve lá quase dois anos. Ao mesmo tempo, fez um mestrado que terminou com 16 valores. Saiu da comunidade terapêutica por uma reestruturação que lhe deu funções em que não se revia. Dedicou-se à formação. Mas o trabalho era escasso, não era a tempo inteiro. Ana sentia-se desmerecida. Tinha o chamado currículo de peso, com 9 páginas, estudo e experiência. Tinha tudo o que era preciso para trabalhar na sua área. Tudo menos trabalho. E dinheiro, porque os pagamentos eram feitos a perder de vista. Começou a entristecer. A definhar. Levou um ano entre perceber que não estava bem e tomar uma decisão que mudasse o estado das coisas.

Um dia, abriu o jornal à procura de qualquer coisa. Viu que a área de estética parecia ter muita saída: "Tinha uma amiga a fazer um curso numa escola de estética e eu fui fazer também. Durou um ano e meio. Gostei muito."

Para a família foi um baque. Como assim a primeira pessoa a licenciar-se na família era agora esteticista? Como assim o curso de Psicologia não serviu para ter emprego? Como assim arranjar pés dos outros, com um canudo na mão? "Nunca vou esquecer a cara que a minha avó fez. Foi um balde de água fria. 'Ó filha, mas tu vais limpar unhas?' Os meus pais creio que perceberam que eu tinha de arranjar soluções. E também não quiseram mostrar desilusão."

Na mesma semana em que começou o curso de Cosmetologia foi chamada para uma entrevista para um Instituto de Ensino Superior, para dar formação na área da saúde. Estava com tão pouca fé que foi à entrevista vestida como não iria, sequer, ao encontro para esta conversa. Uma t-shirt com um urso panda e umas leggings. Ficou. No curso e no instituto. Tinha aulas e dava aulas, ao mesmo tempo. Trabalhava de manhã e ia para a escola à tarde. No fundo, fazia o malabarismo que nunca deixou de fazer - oscilando entre mundos distintos: o sério e o divertido; o institucional e o informal; o pesado e o leve. "Comecei a mentalizar-me de que se calhar nao tenho de ter uma coisa só, um caminho apenas. Posso ter dois caminhos, aparentemente antagónicos, mas que se conjugam na minha vida. Foi quando comecei a aceitar este circo que começou a minha recuperação, o meu crescimento pessoal."

Terminado o curso de estética, começou a trabalhar numa clínica muito conhecida. De manhã dava aulas de Psicologia da Saúde, à tarde ia para o centro de estética fazer tratamentos de beleza. Sentiu na pele o que é ser tratada como uma "mera" esteticista. Sentiu os olhares de superioridade. Ela que até já tinha sido uma profiler, como a Clarice, do Silêncio dos Inocentes.

Diziam-lhe que era óptima terapeuta, mas péssima comercial. A ideia na clínica era que cada funcionária vendesse o maior numero de produtos aos clientes. E não quer mais isto, mais aquilo, mais o outro? Ana Tulha não o fazia, por respeito aos clientes, por falta de jeito, talvez. E foi convidada a sair.

Mas desta vez, e já aceitando "o circo" que a vida lhe foi oferecendo, não se foi abaixo. E percebeu que a área das Artes, que sempre foi a sua primeira escolha mas da qual tinha fugido por considerar insegura e instável, era afinal a área que sempre lhe tinha fornecido a rede que a amparava das quedas que os empregos "sérios" a obrigavam a dar. E pronto. Com a aceitação veio o resto. A imperativa necessidade de gerir o caos da vida de freelancer obrigou-a a ser muito organizada e a saber planear cada passo.  O investimento em formação mais específica levou-a até às pessoas certas e trouxe trabalho, muito mais trabalho. E dinheiro – muito mais do que alguma vez tinha ganho enquanto profissional com 9 páginas de cúrriculo. Ana começou a ter convites para fazer trabalhos em caracterização e efeitos especiais, continuando a fazer formação na área. Aprendeu e evoluiu muito. Faz maquilhagem de todo o tipo, mas sobretudo artística. É freelancer, trabalha em eventos, festas temáticas, espectáculos. "Hoje faço pessoas felizes, de uma forma mais rápida do que quando trabalhava em Psicologia. Ok, pode ser uma felicidade mais fugaz. Sim, é uma felicidade que não é profunda. Mas é agora. É já. E a vida é agora. É já."

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Algumas fotos dos seus trabalhos:

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