Tive cancro e estou aqui #1
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Veio tudo ao mesmo tempo, como uma avalancha boa e má. Primeiro foi o nascimento do Tobias, o primeiro filho de Sílvia Bachmann. Era Junho de 2013. Amor em torrente, felicidade plena. Depois, uns cinco ou seis meses depois, um quisto na mama direita. O bebé a não querer mamar daquele lado, Sílvia a ficar preocupada, mas os médicos sem darem importância: isso é um quisto de leite. E era. Só que não parava de crescer.
Em Janeiro de 2014, nova avalancha: a mãe de Sílvia, que tinha resistido heroicamente a uma leucemia, não resistiu ao transplante. Sílvia, a viver em Hamburgo (Alemanha), veio para Portugal apenas a tempo de se despedir da mãe: “Estava tudo a correr tão bem... nada faria prever aquele desfecho...”.
Assim como nada faria prever o que se seguiu na sua vida. O seu quisto não parava de crescer e Sílvia teve de ser operada, em Maio de 2014. Duas semanas depois, chamaram-na ao hospital. Queriam falar com ela. “Percebi logo”. Quando, no hospital, ouviu a palavra cancro, deixou o seu bebé (que ainda não tinha um ano) resvalar do seu colo. Foi uma falta de forças que acabou por ser uma metáfora para o medo de lhe faltar. “Tenho um bebé tão pequenino que vai crescer sem mãe, que não vai saber quem eu sou.” E depois, à cabeça chegavam as ideias mais tolas: “Ele começou a andar com 10 meses... se calhar era o destino a prepará-lo para ser autónomo mais cedo, por ir ficar sem mãe”.
Não tinha havido engano. O quisto que lhe aparecera era, de facto, um quisto de leite. Mas por atrás dele crescia, traiçoeiro, um tumor maligno muito agressivo. O mal a crescer atrás do bem que é amamentar. A morte escondida atrás da vida.
Sílvia Bachmann pensou que ia morrer. Nos primeiros 15 dias, até virem os resultados dos múltiplos exames que fez, temeu o pior. Mas, dentro do azar, teve sorte. Não tinha metástases. O cancro estava contido ali, naquele pequeno e traiçoeiro tumor, escondido atrás de um quisto de leite.
Seguiram-se 16 ciclos de quimioterapia. Cabelo a cair, cabelo rapado, peruca. "Só usei peruca uns dias. Não me dei com aquilo. Passei a usar lenços e turbantes e tive orgulho na minha careca." Nada de enjoos, ou pouco. “Não me tirou a fome. Comia de 2 em 2 horas e engordei. Continuei a jogar futebol. Continuei a trabalhar.” Pior do que a quimio foram os ataques de ansiedade (“julgava que morria, que não respirava”), mas felizmente foram esporádicos, e muito pior ainda foram as desilusões com algumas pessoas que julgava serem amigos e por quem teria feito tudo. “Há muita gente que se afasta porque não consegue lidar com isto. Não quer ver, não quer ouvir. E então desaparece. É muito duro.”
Em Janeiro de 2015, Sílvia Bachmann fez mastectomia e reconstrução (na mesma cirurgia). A quimioterapia tinha resolvido o problema mas ninguém quis arriscar. Tirou tudo e está à espera do resultado dos exames genéticos para saber se faz mastectomia também do lado esquerdo, por prevenção.
De resto, é só ir controlando. E vivendo. Uma vida completamente diferente: “Muda tudo, claro. Por um lado não dou tanta importância a coisas sem importância. Por outro lado, vivo com medo. Tenho 32 anos, quero ver o meu filho crescer. Acredito que vai correr bem, tendo a ser uma optimista. Mas tenho medo, claro que tenho medo. Mas estou viva e quis dar esta entrevista porque acho importante falar-se de cancro. C-a-n-c-r-o. Com as letras todas. Porque ainda há medo, pudor, horror a dizer a palavra. E é preciso dizer. Assim como é preciso dizer que nem sempre mata. Claro que posso vir a morrer disto, pode tudo voltar, mas para já está tudo bem encaminhado e há efectivamente quem se salve. É importante deixar esta mensagem."
Esta entrevista faz parte de uma parceria entre o Cocó na Fralda, a Intimella e a Associação Portuguesa de Apoio à Mulher com Cancro da Mama (APAMCM).
A Intimella chegou a Portugal em Maio e está à venda em Farmácias, tendo lançado um conjunto de produtos inicial:

