Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Cocó na fralda

Cocó na Fralda

Peripécias, pilhérias e parvoíces de meia dúzia de alminhas (e um cão).

Um médico na trouxa da cegonha

Eu até podia não ter tido a ideia de fazer um programa de rádio em que acompanhasse uma grávida desde o início da gravidez até ao fim.
Eu até podia ter tido a ideia e não ter encontrado uma rádio que achasse graça e quisesse avançar com o programa.
Eu até podia ter feito o programa na Antena 1 (onde fiz), ele até se podia chamar A Viagem da Cegonha (como chamou), mas podia não ter sido a Ana Rodrigues a grávida que acompanhei. Ou podia ela ter escolhido outro obstetra.
Eu até podia não ter engravidado três meses depois de ter começado a fazer o programa.
Eu até podia ter engravidado e continuado com o meu obstetra de sempre, não fora ele ter-me desiludido cinco vezes em pouco tempo.
Eu podia ter procurado outro médico mas, depois das entrevistas que fiz ao médico da Ana, para o programa de rádio, senti-me próxima o suficiente para lhe ligar com dúvidas e sustos. E ele, claro, solícito e impecável como é, disse que me via, aconselhou-me, ligou no dia seguinte a perguntar como estava.

Se não tivesse valido a pena por mais nada (e valeu, valeu muito a pena por tudo e mais alguma coisa), o programa A Viagem da Cegonha teria valido a pena pelo Dr. Fernando Cirurgião, médico como já não existe outro, trazido na trouxa da cegonha juntamente com uma amiga nova, uma "sobrinha" linda e até uma filha feita por embalo de um programa sobre gravidez.

Que médico é este? Passo a explicar:
Ele seria capaz de acalmar a mais neurótica das neuróticas em crise. Fala devagar, baixo sem ser em surdina, e porém com firmeza. Ele dá segurança e a gente tem a certeza que sabe exactamente do que fala.
Ele parece não ter mais nenhuma consulta depois da nossa e quando nos recebe parece que fomos os primeiros a chegar. E no entanto, não é impossível ser recebido às três da madrugada, tendo as consultas começado logo às nove da manhã. Às vezes, sai do consultório para um parto, volta, segue para um banco no hospital, e continua com um duche de intervalo, como se não precisasse de dormir. E sempre com a mesma serenidade e um sorriso para cada mulher que chega.
Ele sabe ouvir e percebe. Explica o que pode acontecer sem nunca nos alarmar ou sem se deixar cair em alarmismos. Ele defende o parto natural e, no meu caso, foi o único a dizer que sendo difícil não era impossível tentar. E quando me encontrou no bloco operatório, antes da cesariana que teve de ser feita, olhou-me com uma pena sentida. Eu sei que ele estava genuinamente triste por mim, naquele momento.
Ele preocupa-se, ele telefona a saber como estamos, ele está sempre disponível.
As enfermeiras da Cuf disseram que ele era "tão querido", o pediatra dos meus filhos sublinhou que eu estava "em muito boas mãos" quando lhe disse que tinha mudado de obstetra, e basta fazer uma pesquisa no Google para ver como há bandos de mulheres gratas para todo o sempre.

A Viagem da Cegonha podia não ter valido a pena por mais nada. Porque ter encontrado um médico assim já seria recompensa mais que suficiente. Obrigada, Dr. Fernando. Do fundo do coração.

Comentar:

CorretorEmoji

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Este blog tem comentários moderados.